quarta, 01 de dezembro de 2021
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DeFi: conheça o sistema que promete revolucionar o sistema financeiro

As plataformas de finanças descentralizadas surgiram na esteira do Bitcoin e removem a necessidade de intermediadores nas aplicações

29 julho 2021 - 13h34Por Lucas de Andrade

Ano após ano, o sistema financeiro se surpreende com novidades que visam simplificar e modernizar a forma como são feitas transações de toda a ordem. Pagamentos e empréstimos, até pouco tempo atrás, estavam disponíveis apenas em instituições financeiras e bancos estabelecidos, mas a introdução da tecnologia revolucionária Blockchain revolucionou esse cenário.

Na esteira dessas inovações, surgem as DeFi, traduzidas para finanças descentralizadas no português. Nessa Spacedica, entenderemos sua origem e veremos como essa nova modalidade pretende facilitar as transações financeiras em todo o mundo.

O que são e como tudo começou

O ecossistema do que hoje conhecemos por DeFi se concentra na moeda digital Ethereum. Diferentemente do Bitcoin — a criptomoeda mais conhecida —, a Ethereum não só permite transações, mas facilita o desenvolvimento de aplicações descentralizadas. 

Os DeFi são a aplicação da ideia de contratos inteligentes da rede Ethereum, que, ao surgirem em 2015, automatizam os termos dos acordos entre os pares e possibilitam a criação de sistemas que reproduzem serviços do mercado financeiro de forma descentralizada, como empréstimos, seguros e até bolsas de valores, tudo sem a interferência de terceiros.

A rede Ethereum atua como uma câmara de compensação descentralizada para transações que envolvem tokens e contratos autônomos. Atualmente, a Ethereum processa bilhões de transações por dia sem precisar que uma outra empresa —que, por sua vez, seja responsável pelas operações centralizadas do sistema financeiro tradicional — certifique que uma transação foi completada. 

De acordo com Orlando Telles, sócio fundador e diretor de Research da Mercurius Crypto, o ano de 2020 foi decisivo para as plataformas DeFi comprovarem sua relevância no sistema financeiro. “Foi o primeiro grande hype do setor, quando as plataformas passaram a chamar o interesse dos usuários”, diz.

Segundo o executivo, para entender como as DeFi operam, a gente deve pensar em como as máquinas de refrigerantes funcionam. “Você pega sua nota, então, por exemplo, de R$ 10. Você coloca o dinheiro na máquina, digita alguns números, mais dois inputs (entradas) e então a máquina lê os números, verifica o seu dinheiro, te fornece o refrigerante e ainda devolve o troco. O que aconteceu ali? Eu fiz uma relação com a máquina. Não precisei estar em contato com a pessoa que fez o refrigerante ou que o colocou ali. Nada disso. Assim são as DeFi, geram mais eficiência de maneira simples e fácil”, explica Telles.

Os contratos inteligentes — ou smart contracts — da Ethereum são isso. “Se trata de um código que você escreve e ele funciona de forma autoexecutável. Então, às vezes, você coloca o input e ele vai dar output e vice-versa”, conta. Tamanha praticidade tem conquistado usuários ao redor do mundo.

De acordo com dados de Dune Analytics, o número total de endereços exclusivos em interação com DeFi passou de 3 milhões em julho de 2021. Foram necessários mais de dois anos e meio, exatamente 1048 dias, para que o mercado DeFi alcançasse 1 milhão de usuários. Após 150 dias, esse número já havia dobrado. Agora, em menos de 80 dias, o setor alcança a marca de 3 milhões de adeptos. Telles diz ser plausível que 4 milhões de pessoas utilizem as aplicações financeiras descentralizadas dentro de dois ou três meses, no máximo. 

Para Telles, esse crescimento ocorre por conta das soluções que a Ethereum tem criado para tornar sua rede 100% escalável. Ainda de acordo com o executivo, não à toa as plataformas DeFi cresceram num ano tão atípico como foi o de 2020, afetado pela pandemia de Covid-19. 

“A pandemia gerou liquidez global e um processo de digitalização sobre absolutamente tudo que a gente tem ao redor do mundo. Com isso, foi acelerado o processo de adoção de mercado de criptomoedas e exclusivamente o mercado DeFi passou a observar sua infraestrutura crescente. Usuários começam a perceber uma outra grande oportunidade de investimentos”, afirma.

Segundo Telles, as plataformas DeFi são vistas como um “caso de uso claro” e não uma “profecia autorrealizável”, como o Bitcoin sempre foi visto pelo senso comum. As empresas de aplicações financeiras descentralizadas geram receita, ciclo e comportamento próprios, o que o executivo vê como fundamental para o ingresso de investidores institucionais. A tecnologia blockchain contribui para isso. 

Segmentos e principais plataformas

Podemos pensar o segmento de DeFi sendo dividido em quatro frentes diferentes: as plataformas de Lending (empréstimos); as DEXES (Exchanges descentralizadas); as Assets (ativos financeiros tokenizados); e os Payment (meios de pagamento).

O mercado de lending consiste, basicamente, em um modelo de empréstimos descentralizados. Telles explica: "Imagine que você peça um empréstimo de 10 mil dólares para o banco. O banco te fornece o dinheiro e vai cobrar uma taxa de 10%, para depois,  possivelmente, repassar 2% para a pessoa que de fato possuía o dinheiro (no CDB) — o restante ficará para o banco, como intermediador".

"Agora imagine que você pudesse fazer a mesma operação com um pagamento bem menor, mas a pessoa que te empresta recebe muito mais. De uma forma simples, protocolos como a Compound e a Aave possibilitam isso para seus usuários", prossegue.

Outro setor que cresceu significativamente nos últimos meses foi o de DEXES, que consiste na mesma lógica dos serviços de Lending, só que agora voltado para operações de trading.

Esse ainda tem uma outra vantagem, segundo Telles: por se tratar de um modelo descentralizado, seus criptoativos não são custodiados por um terceiro, o que torna essa tecnologia ainda mais interessante para diversos usuários. Essa descentralização tem outra vantagem: a listagem de ativos mais recentes e tokens menores (algo que as exchanges centralizadas tendem a não realizar).

Dentre as plataformas DeFi, Telles cita a Uniswap, que atua nos setores de lending e DEXES, como o maior exemplo. “Em vez de usar uma corretora, você pega suas criptomoedas e interage diretamente com uma plataforma em que não se precisa deixar a custódia de suas moedas e consegue, também, fazer uma troca de tokens de maneira descentralizada. A eficiência ocorre, porque as transações aumentam, com menos intermediários e, caso no futuro toda uma regulação seja encaminhada a esse mercado, tende inclusive a ter menos taxas”, afirma.

Outros exemplos são a Maker (MKR), que alia empréstimos a uma stablecoin - criptomoedas pareadas em algum ativo estável - para facilitar os empréstimos feitos com moedas digitais, e a Yearn.finance (YFI), que, entre seus produtos, têm seguros descentralizados e um “cofre” Ethereum que promete retornos altos.

A regulação e os riscos

Quando falamos de DeFi, falamos de inovação tecnológica. “Naturalmente, no seu início, a inovação tende a caminhar mais rápido que a regulação”, diz Telles. Mas, hoje, temos plataformas que buscam efetivamente critérios mais definidos para operarem e atraírem mais usuários. 

“A Uniswap, por exemplo, lançou um fundo com outras DeFi para fazer mercado regulatório”, conta o executivo. “As plataformas procuram traduzir suas páginas, formam comunidades e fóruns para suporte e lideram um processo de aprendizado aos usuários pró-regulação”, acrescenta. Esse marco regulatório, segundo o executivo, vai aumentar o potencial dos ativos.

Segundo relatório da empresa de análise CipherTrace, os ataques às plataformas DeFi foram responsáveis por US$ 156 milhões dos US$ 432 milhões em criptos roubados entre janeiro e abril de 2021. A soma ultrapassa o total perdido em golpes ao sistema DeFi em todo o ano de 2020.

Recentemente, o Fórum Econômico Mundial (FEM), apontou que o setor de finanças descentralizadas (DeFi) apresenta novos riscos para o setor financeiro e seus usuários, apesar de ser reconhecidamente promissor. Em documento, com colaboração da Blockchain and Digital Asset Project, da Wharton School da University of Pennsylvania, o FEM elencou informações para ajudar formuladores de políticas sobre os diferentes aspectos desse subsetor tão recente dentro do ecossistema dos criptos.

Devo usar? Como?

O especialista recomenda o uso das plataformas DeFi. Entretanto, alerta: “Não tente interagir logo de cara. Não comece assim. Estude primeiramente sobre elas. Há diversos conteúdos confiáveis disponíveis hoje”. O estudo para compreender as DeFi vai ser fundamental para uma boa experiência nesse setor tão recente, que promete muitos ganhos, e impede que você se exponha a riscos desnecessários.

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