sábado, 27 de novembro de 2021
Entrevista

Dia da Mulher: Não preciso ser bonita, tenho que ser apenas boa profissional, diz operadora de ações

08 março 2021 - 11h13Por Larissa Vitória

O número de mulheres investindo na B3, a bolsa de valores brasileira, passou de 388 mil em 2019 para 800 mil no ano passado, um salto de 118%. No entanto, apesar do crescimento expressivo, elas ainda representam apenas 26% das pessoas físicas cadastradas na bolsa. 

Para falar mais sobre as mudanças na relação das mulheres com investimentos e o trabalho no mercado de renda variável, a SpaceMoney conversou com Adriana Runte, operadora de mesa na Ativa Investimentos que está nesse segmento há cerca de 36 anos.

Adriana é formada em Administração, especialista em aluguel de ações e entrou no mercado de renda variável em 1985, como estagiária da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, uma das primeiras bolsas a entrar em operação no país.

Confira nesta segunda-feira (8), Dia Internacional da Mulher, a entrevista completa.

Você entrou como estagiária na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1985. Naquela época, como era a presença feminina no mercado financeiro?

Eu entrei em um processo no qual 100 candidatos, a maioria homens, concorriam por 10 vagas. Dessas 10 vagas, apenas duas foram preenchidas por mulheres, sendo que a outra menina que entrou comigo ficou por apenas um mês e logo foi dispensada, então eu era a única mulher do grupo. Na época, tive a oportunidade de rodar pela bolsa para conhecer todas as áreas e senti que era diferente. Quando fiz o estágio no pregão, por exemplo, desci para o nível de operadores, que lá atrás era um pouco diferente do que vemos hoje, e a situação foi um pouco alvoroçada. Para se ter uma ideia, as únicas mulheres que trabalhavam no pregão eram as digitadoras, normalmente já senhoras e mulheres mais velhas e que ficavam na parte superior, enquanto eu era uma menina nova entrando ali, então isso cria uma certa expectativa e um alvoroço.

Como sua família, na época, avaliou sua entrada nesse mercado? Incentivou ou desaconselhou?

Eu sempre tive incentivo da minha família. Graças a Deus eles me apoiaram desde o início e não vivi nenhum tipo de preconceito ou restrição.

Você tinha familiares ou pessoas próximas trabalhando no mercado financeiro?

Não. Na verdade, a minha entrada para o mercado financeiro aconteceu de uma maneira engraçada. Eu tinha me inscrito para fazer estágio na General Electric e o meu currículo acabou em um banco para outros processos. Achei que estava sendo chamada pela GE, então, quando atendi a ligação e vi que era da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, eu desliguei o telefone, pensei que era engano.  Ninguém que estudava comigo naquela época trabalhava com isso ou conhecia muito sobre o mercado de capitais, as corretoras tinham uma mulher ou duas, no máximo, nas mesas. Só vi que era sério mesmo quando me ligaram novamente e deixaram o recado com a minha mãe.

Durante os treze anos em que ficou por lá, você enfrentou situações adversas ou dificuldades no relacionamento com os colegas de trabalho por ser mulher? 

Não. Fui contemporânea à primeira superintendente mulher da bolsa, então, quando comecei, já estávamos em uma época de transformação. As mulheres começaram a se posicionar mais e a entrar no mercado, mas ainda eram poucas, hoje vemos elas muito mais presentes nesse setor.

Em outra entrevista você citou que, na época em que atendia corretoras por telefone, os homens costumavam jogar charme. 

Eles faziam algumas gracinhas e piadas quando eu era eu quem atendia as ligações, mas nada que eu considerasse como desrespeitoso ou invasivo. Sempre soube me posicionar e me colocar como uma profissional para que tivessem respeito.

Para você, qual é a melhor forma de enfrentar o assédio no ambiente de trabalho?

Antes de estagiar na bolsa, trabalhei por quase dois anos no Banco Real e lá sofri uma situação desagradável. Um dos clientes que eu atendia na poupança, um senhor que, na época, já deveria ter uns 70 anos, deixou um bombom da Kopenhagen na minha mesa. Agradeci e, quando fui abrir o chocolate, percebi que ele tinha colocado seu telefone atrás da embalagem. Rasguei o número e joguei fora. Dois dias depois ele apareceu novamente no banco, perguntou se eu tinha gostado do chocolate, tentou me dar outro e ainda perguntou se eu tinha visto o telefone dele atrás. Eu respondi a ele que sim, mas que não precisava do número porque só falaria com ele enquanto estivesse na agência e lá no cadastro já tínhamos o telefone. Ele ainda tentou me dar outro bombom, mas eu disse “Te agradeço, mas eu não queria mais que você me desse chocolate porque eu não preciso dele. Vou continuar te atendendo normalmente com toda a atenção, mas não quero mais”.  Nunca mais ele me faltou com respeito, então acho que é esse o caminho.

Você também citou que foi contemporânea da primeira Superintendente da Bolsa e que isso foi importante. Por quê? No que essa representatividade em cargos de poder contribuiu para o fortalecimento da presença feminina no mercado?

A Maria Amelia Lemos dos Santos começou em uma época anterior a mim e tinha que lidar com muita gente do sexo masculino. Ela era inteligente, sabia se impor e se posicionar, então vê-la trabalhando me ajudou a crescer profissionalmente. Ela também montou uma mesa na qual três mulheres trabalhavam diretamente com ela, algo inédito naquele tempo, e tudo foi começando a mudar a partir daquele período.

Na sua opinião, como podemos incentivar mais mulheres interessadas, porém intimidadas pela forte presença masculina, a apostarem em carreiras no mercado financeiro?

Eu acho que o mercado financeiro mudou bastante ao longo dos anos e hoje já não tem mais tanta diferença de sexo. Podemos ver isso nas corretoras, onde temos muitas mulheres trabalhando, se interessando e buscando trabalhar com finanças. Aqui mesmo na Ativa temos um percentual grande de mulheres ocupando cargos de liderança e operando no mercado.

Quais mudanças você enxerga na relação das mulheres com os investimentos desde o período em que saiu da Bolsa, há 22 anos, até hoje?

Com as redes sociais, as pessoas estão mais informatizadas e estão conhecendo mais opções de carreira. Nós vemos que as mulheres estão engajadas, cresceram muito profissionalmente e ganharam independência. Antigamente, as mulheres se casavam e dependiam dos maridos, mas já na minha geração elas começaram a entrar no mercado de trabalho e ter sua própria renda. Mesmo assim, eu me casei aos 22 anos e já tinha dois filhos aos 26. Hoje as mulheres querem casar muito mais tarde, estão tendo filhos mais tarde ainda e se dedicam mais às suas profissões.

No ano passado, o número de investidores mulheres da B3 saltou 118%, mas elas ainda representam apenas 26% das pessoas físicas cadastradas. Na sua visão, quais fatores podem explicar esse baixo percentual de mulheres da renda variável? As investidoras tendem a ser mais conservadoras?

Eu não diria conservadora, acho que a mulher é mais cautelosa e cuidadosa, quer conhecer um pouco mais antes de realizar certas operações ou entrar em determinados mercados. Para mim, a forte entrada das mulheres no mercado acionário é uma tendência e esse percentual vai crescer cada vez mais, até porque, hoje em dia, as mulheres desempenham papéis mais fortes até do que os dos homens na renda familiar.

Na Ativa o número de mulheres também cresceu? 

Sim, 25% dos nossos clientes pessoas física são do sexo feminino. Até mesmo mulheres de idade mais avançada, senhoras de 70 e poucos anos, estão operando. As mulheres estão buscando se engajar mais, conhecer mais e buscar novos investimentos, o que faz com que elas entrem e arrebentem nesse mercado.

Em quais aspectos você acredita que as mulheres trazem para o dia a dia profissional habilidades/visões diferentes das dos homens, contribuindo, assim, para a evolução do mercado financeiro?

A mulher tem uma forma mais delicada de operar e de trabalhar em determinadas situações. Dentro do meu segmento, o aluguel de ações, vejo que temos mais paciência para buscar o melhor doador, por exemplo. Além disso, a mulher também precisava historicamente conciliar o trabalho fora com o serviço da casa e outras responsabilidades que o homem não tinha, então, acho que isso fez com que tivéssemos mais facilidade em nos adaptarmos, fossemos mais flexíveis aos ambientes diferentes e administrássemos melhor os momentos de estresse. 

Considerando o panorama de hoje do mercado financeiro brasileiro, e comparando com o cenário de quando você entrou para esse setor, em quais aspectos a presença feminina se tornou mais efetiva e valorizada e em quais ainda precisamos evoluir? 

Eu acho que, profissionalmente, é só uma questão de tempo para a quantidade de homens e mulheres se igualarem ainda mais. O mercado financeiro é instigante, desafiador, e as mulheres que começam a trabalhar com isso gostam e querem continuar. Eu sempre gostei e sou muito realizada por ter sido chamada para a bolsa lá naquela época. Quando a mulher consegue se colocar, sempre terá respeito e reconhecimento. Eu não preciso ser bonita ou desejada para que reconheçam meu trabalho, tenho que ser apenas uma boa profissional. Especialmente no mercado financeiro, temos que nos posicionar de forma que ninguém falte com respeito ou nos trate como pessoas inferiores só porque somos do sexo feminino. Você não é inferior a ninguém, você é igual.
 

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