segunda, 04 de julho de 2022
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Entrevista

"Tudo pode ser tokenizado, mas nem tudo vale a pena", diz Cássio Krupinsk, CEO da BLOCKBR

Um dos pioneiros do mercado de tokens no Brasil, executivo prevê rápida adesão de investidores e empresários a esses ativos digitais

02 março 2022 - 09h30Por Gustavo Magaldi

Em março de 2021, causou espanto a compra de uma obra de arte digital — Everydays: The First 5000 Days — em um leilão da Christie´s por incríveis US$ 69,3 milhões. Já em dezembro, a soma foi superada por outra obra: Merge, que foi vendida pela bagatela de US$ 91,8 milhões (R$ 512,2 milhões, aproximadamente).

Ambas as obras são NFTs (sigla em inglês para tokens não fungíveis), um certificado de propriedade digital que não pode ser substituído, dividido ou compartilhado, criado em uma blockchain, sistema de registro baseado em pedaços de códigos com informações conectadas. 

As transações milionárias chamaram a atenção de todo o mundo para os tokens como opções de investimento. Mas o que pouca gente sabe é que o uso de tokens vai muito além de obras de arte.

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A tecnologia permite que qualquer ativo real seja digitalizado e transacionado, desde um imóvel ou uma ação até direitos autorais de uma música, por exemplo.

Segundo a consultoria area2invest, esse mercado deve atingir capitalização de US$ 3 trilhões em 2025.

Enquanto os investidores estudam os diferentes tipos de tokens – além dos NFTs, existem os utility tokens e os security tokens -, empresários do mundo digital estão abrindo novas frentes nesse mercado para oferecer opções rentáveis e seguras. 

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Entre os pioneiros da tokenização no Brasil está Cássio Krupinsk, CEO da BLOCKBR, empreendedor em série que enxerga esse mercado como o futuro da indústria dos investimentos e uma alternativa mais barata e eficiente para a captação de recursos pelas empresas.

Nesta entrevista exclusiva à SpaceMoney, Cássio explica o estágio e os desafios para a tokenização dos negócios, além de orientar sobre os cuidados para se investir em ativos digitais. Confira:

Após a popularização recente das criptomoedas, o que a tokenização representa para a consolidação da blockchain no mercado financeiro? 

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A tokenização torna o mercado mais sério. Ou seja, a tokenização traz a possibilidade de tornar um ativo físico, por meio de uma representação digital, os tokens, algo com mais solidez.

E traz inúmeros benefícios que já estão mudando todo o mercado. Obviamente ainda estamos no início, porque tem pouquíssimos profissionais e empresas fazendo isso no mundo. Mas é um caminho sem volta. 

O que pode ser tokenizado? 

Tudo pode ser tokenizado, mas nem tudo vale a pena ser tokenizado. Hoje, se você tem um ativo que gera riqueza, que tem garantia, pode ser tokenizado.

Se eu for falar de alguns nichos, mineração, segmento imobiliário, energia, recebíveis e tudo o que é produto financeiro pode ser tokenizado. A tokenização tira a necessidade de tantos intermediários.

Você não precisa criar um CRI ou um CRA para fazer investimentos na área imobiliária ou de agronegócio. Eu faço isso por meio de um token com muito mais eficiência, beneficiando o dono do ativo e o investidor.

Se eu simplesmente tokenizar um recebível, eu estou tirando dos intermediários, fazendo com que o investidor tenha um lucro maior e beneficiando o dono do ativo. Dando uma eficiência muito maior, e com garantia.

Se eu tokenizar a antecipação de aluguéis, por exemplo, eu posso ter um imóvel penhorado no mesmo valor da antecipação. Então, tudo pode ser tokenizado, mas nem tudo vale a pena. 

Se é possível tokenizar praticamente qualquer ativo, isso significa que o mercado de tokenização pode ser ainda muito maior que o mercado de criptomoedas hoje, que é apenas de um tipo de ativo digital?

Com certeza será, e também será muito maior que a bolsa de valores. Na bolsa, os resultados não são tão claros assim e de fácil entendimento para investidores novatos ou até mesmo curiosos que já não acreditam mais no mercado tradicional interno.

As empresas pagam muito caro para estar dentro da bolsa de valores ou ter o próprio fundo. E na tokenização o preço é muito reduzido. É descentralizado e democratizado. Então, o universo da tokenização representa pelo menos 10 vezes mais que a bolsa.

Em que estágio está o mercado de tokenização hoje?

A tokenização ainda está no início do início, por conta do aspecto regulatório. Porque a tecnologia está sendo muito mais rápida do que qualquer regulação.

Então, quando se fala em regulação de criptomoedas, por exemplo, as pessoas olham para as exchanges centralizadas, mas hoje tem as descentralizadas e, fora isso, existem as DApps, que são aplicativos em que você cria sua própria comunidade e transaciona dentro de um único grupo.

Como você vai regulamentar um mercado em que a tecnologia está tão a frente? Na Suíça, por exemplo, é observado o que está por trás do ativo e nem tanto como ele será distribuído, como por exemplo security tokens, que possuem garantias e lastros.

É um processo que precisa de aprovação para a emissão dos tokens. É como se você tivesse que pedir a benção.

No Brasil, a gente não pode tomar como base o que está acontecendo lá fora sendo que a nossas regras são outras. Mas o caminho é um só, e o primeiro passo já foi dado, que é o real digital, tomando como garantia o controle dos pares, ou de criptomoedas ou de tokens. 

Quais são os tipos de tokens? 

Os primeiros tokens sugiram como fan tokens, dando benefícios a um fã ou sócio torcedor de um clube de futebol, por exemplo. Desde escolher a música que vai tocar antes do jogo, dar o primeiro apito da partida, até benefícios dentro do clube.

O segundo movimento da tokenização foram os utility tokens, em que você transforma tokens em produtos financeiros, mas que não exigem garantias e lastros — e é onde o risco é na mesma proporção da oferta. E eles podem ser alterados desde o início de sua oferta, no mercado primário, até chegar ao mercado secundário.

E o terceiro movimento se refere ao security tokens, que possuem garantias e lastros. Nós, da BLOCKBR, estamos trabalhando duro para acelerar a consolidação de security tokens no mercado. 

Como o mercado de tokens é regulado hoje? 

Pela blockchain e pelo próprio smart contract. Antes de uma oferta de tokenização, é preciso deixar claro, e demonstrar por meio do white paper, como será toda operação, o que vai ser entregue, com todas as regras e benefícios para os participantes.

É criado também o tokenomics, que se refere à distribuição dos tokens e sua economia. O smart contract rege as operações dentro da blockchain e as entregas são feitas pelo dono do ativo para os investidores na mais alta segurança e eficiência da blockchain. 

E se o emissor do token não cumprir com o prometido?

A operação é travada e é assumida a responsabilidade pelo dono do ativo, que é o principal responsável. O problema é quando surgirem tokenizadoras que não garantem absolutamente nada, pois isso complicará o mercado.

Por isso, é bom ficar atento às especificações das regras do token e o que tem por trás.

Falando de tokens que nem sempre são financeiros, como é o caso de um fan token por exemplo, um clube de futebol é o responsável da mesma forma que uma companhia aérea, que criou um programa de milhagem, é a responsável pelas regras e pelas milhas. 

Muita gente ainda tem receio de investir em tokens e outros criptoativos. É mais arriscado investir em um token do que em uma ação, por exemplo? Quais os cuidados que os investidores devem ter pra investir em tokens?

A bolsa sobe com base em um boato e cai nos fatos. Eu acredito que existam milhões de pessoas que se arrependeram de não ter investido em Bitcoin. Quando elas veem o Bitcoin caindo, colocam um sorriso no rosto, mas ainda não entenderam o que está por trás do Bitcoin e que a escassez é o big deal desse ativo. Tem que investir.

Quem não investe em criptomoeda vai ter um arrependimento muito grande e doloroso nos próximos meses e anos. Eu comparo a blockchain, suas soluções e seus investimentos com a adoção dos smartphones —muita gente resistiu a comprar um, mas, hoje, as pessoas resolvem quase tudo pelo celular.

A internet surgiu em 1994 com o Netscape, em 2004 surgiram as redes sociais, com o Orkut e o Facebook, mudando o comportamento humano. E a blockchain vem como uma solução para a mudança de todo o mercado, no mundo todo e em todos os setores.

Então, o investimento em ativos digitais é um caminho sem volta. Lembro até de umas imagens que vi estes dias de grandes empresas tradicionais em 1934 que diziam sobre computadores “isso não vai dar certo, uma máquina fazer um trabalho humano?!” e muitos anos depois o mesmo ocorreu com smartphones. É algo cíclico.

O ser humano tende à negação e a assimilar o passado em tecnologias e mudanças para o futuro. O resumo disso para hoje é que quem está fora vai entrar. É preciso tomar o cuidado com as grandes bolhas. Em 1995, no início da internet, teve uma grande bolha. E, como em toda bolha, 95% das oportunidades estão sujeitas a golpes.

Então, quando for comprar uma criptomoeda ou outro ativo digital, basta saber onde está colocando o dinheiro, entender o que está por trás, qual a empresa, o que significa aquele ativo, em que nicho ela atua.

Tem de acompanhar e entender quem é o CEO, tudo o que ele posta e escreve sobre o mercado e qual sua relação de confiança e transparência entre o fazer e o falar.

Entender a visão de negócio, a visão de mercado de cada fundador e de quem está à frente do negócio é essencial nos dias de hoje, em que crianças estão criando criptomoedas dentro de exchanges descentralizadas e fanfarrões bilionários por meio de memes. 

Em termos de regulação, quais são as principais preocupações?

A principal preocupação regulatória dos criptoativos, hoje, é de como combater as pirâmides financeiras. Esse é o primeiro ponto, já está sendo discutido, e logo já vêm pilares para a solução.

Acredito que fique cada vez mais nítido ao mercado a solidez de uma empresa ou ativo e a “fumaça” de outros a quem quer ser enganado.

O que vai auxiliar esse processo, neste ano, é o real digital, que deve vir entre junho e agosto. Com isso, o Banco Central começa a ter mais controle sobre saques e transferências e o que sai das exchanges.

O segundo ponto é entender alguns nichos que estão sendo tokenizados, o maior deles sendo o setor imobiliário, que é o maior hoje no mundo e o mais incompreendido para a tokenização.

Os tipos de tokens que tem hoje nesse setor, no Brasil, não dão nenhuma garantia; a maioria são utility tokens que são oferecidos como: “olha, invista aqui nesse token que você vai ter um retorno x ”. Mas o que garante esse retorno? Uma operação Y que ainda não sabemos bem como operar?

O mercado de tokenização não pode ser desviado para o mais do mesmo do tradicional... a tokenização permite a criatividade com muitas garantias, mas isso virá em um flow diferente, do especulativo também, mas com uma veia de transparência maior, tendo acesso aos documentos da operação de oferta, whitepaper que rege a regra na blockchain, e isso vai criar uma cultura de mercado bem diferente, acelerando o processo de investimento em tokens como já vem acontecendo.

Até porque paga mais, tem menos intermediários e traz soluções para o dono do ativo, independentemente do nicho. 

A tokenização vai contribuir para a democratização dos investimentos?

Com certeza. Por que noventa e cinco por cento das pessoas não investem em fundos de investimento? Porque é horrível explicar o que que é um CDB com 200% do CDI. O que é isso? Uma debênture, CRI, CRA, CCI, ETF...

Para investir em ações, tem um valor mínimo a ser aplicado. E a bolsa funciona de segunda a sexta, fecha às seis horas da tarde. Então, o mercado de ativos digitais, como um todo, é democratizado porque é muito fácil explicar para o investidor que ele pode investir em cabeças de gado com 25 reais, comprando um token que representa esse ativo.

O mercado não para, é vinte e quatro por sete. Ou seja, é um mercado muito maior que o tradicional, tem muito mais dinheiro na mesa, e o potencial investidor está no tradicional “picadinho”, quem tem 25, 50, 500, mil reais pra investir.

Ou seja, digital assets fazem com que a gente consiga gerar riqueza. Quando a gente fala de oferta de token a gente fala de diferentes ativos.

Hoje existem perfis pessoa física com ticket de 500 a 50 mil reais para investir em tokens, tem investidores institucionais que investem em tokens em um pré-fixado de dois por cento ao mês, por exemplo.

É uma ponte maravilhosa para capital de fora porque o Brasil tem excelentes operações rodando. 

Como a tokenização deve avançar, no Brasil, em 2022?

Acredito que 2022 vai ser um ano determinante, no que refere à entrada do real digital e à consolidação dos tokens e criptomoedas. O grande desafio do mercado é fomentar a cultura de tokenização, tanto de investimentos em tokens quanto a educação financeira de tokenização.

Ou seja, donos de empresas donas de ativos, querendo entrar no universo da tokenização, tokenizando seus ativos, interessados em tokenizar seus negócios entendendo as modalidades e os fatores que são extremamente importantes para dar segurança aos investidores, porque, no final das contas, a tokenização tem de beneficiar o dono do ativo.

Até que enfim a mágica da matemática do Bitcoin através da blockchain causou um legado tão incrível. Poder beneficiar o investidor de um token, da melhor forma descentralizada e democrática possível, e o dono do ativo, com a maior eficiência na captação a taxas mínimas... quando explicamos isso a um empresário, seus olhos brilham e o sorriso no rosto acontece.  
 

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