quinta, 02 de dezembro de 2021
Zeina Latif

ENTREVISTA Protecionismo será pior no pós-crise, diz Zeina Latif

10 junho 2020 - 14h19Por Carolina Unzelte

Doutora em economia pela Universidade de São Paulo, Zeina Latif hoje atua como consultora após ser economista-chefe da XP Investimentos e passar por instituições como o Royal Bank of Scotland e o banco HSBC. Além disso, foi considerada pela revista Forbes uma das mulheres mais influentes do Brasil, em 2006, com seu trabalho na área econômica. Na próxima terça-feira, 16 de junho, Zeina participa da live "As melhores opções para a economia", promovida pela Câmara de Comércio Brasil-Líbano e apoiada pela SpaceMoney. Para se aquecer para o papo, confira a entrevista exclusiva que a economista concedeu ao portal:

Qual será o novo normal da economia mundial? O coronavírus foi capaz de mudar para sempre a cadeia produtiva?

Antes, já havia países adotando políticas mais protecionistas. A guerra comercial entre China e Estados Unidos não era a única iniciativa nesse sentido. E eu não vejo razões para termos melhoras nesse quadro após o coronavírus. Pelo contrário: algumas lideranças mundiais estão preocupadas com essa agenda, mas o que vemos, de forma geral, é a tendência de piora. Organismos internacionais, como a OMC (Organização Mundial do Comércio) e a própria OMS (Organização Mundial da Saúde) já vêm em crise nos últimos anos e saem mais enfraquecidas desse período. Por exemplo, no caso do Brasil, as questões ambientais sendo utilizadas como justificativa para boicotar o acordo da União Europeia e Mercosul. Isso também é reforçado com a preocupação de alguns países sobre mais autonomia nas suas produções, para dependerem menos de fornecedores externos. Algumas nações querem depender menos da China e vice-versa. A China quer ficar menos dependente de fornecimento de alguns produtos mais sofisticados, como semicondutores, por exemplo, que eles julgam como questões estratégicas para o país. Agendas multilaterais, ao meu ver, sairão muito prejudicadas. É verdade que são ciclos, é possível que isso se reverta, mas iremos para um ponto pior do que era no pré-crise.

No cenário nacional, os estímulos e as medidas de emergência, como o auxílio-emergencial, nesse momento de crise, são o suficiente para pelo menos brecar os estragos da crise?

Existem algumas ponderações que precisam ser feitas quando falamos desses esforços. O primeiro é que nunca vai ser possível compensar o efeito dessa crise. Isso é impossível, no Brasil e em todo o mundo. Não se trata de desligar a economia da tomada, ligar de novo e aparelho funciona normalmente. A segunda questão é que o Brasil tem restrições orçamentárias de um país que não fez a lição de casa, apenas iniciamos com a reforma da previdência. Temos problemas fiscais bastante sérios, não é à toa que perdemos o grau de investimento. Isso, por si só, já limita o nosso raio de ação. Mesmo assim, estamos fazendo um pacote de estímulo com impacto significativo, o décifit de uma reforma da previdência em um ano. E é claro que isso também envolve queda de arrecadação. É muito importante garantir o bom uso desses recursos. E aí que começam a surgir dúvidas. Há iniciativas do governo que vão, sim, na direção correta, mas o fato é que tem muita pressão para aumento de gastos num país que não tem essa margem de manobra. Para piorar, somos um país com baixa capacidade de planejamento,  com ação estatal muito ruim. Independente do atual governo, que também demonstra baixa qualificação para garantir bom uso dos recursos, é um problema do Estado brasileiro. Temos que entender que não é assim: abre a torneira, vamos gastar e depois vê o que vai fazer. Não é assim.

Qual é a sua opinião sobre a necessidade de acelerar a retomada das atividades para minimizar impactos econômicos desse período de isolamento? Isso faz uma diferença significativa?

O tombo é dado. Digamos que o Brasil não tivesse feito o isolamento ou tivesse feito um bastante frouxo, como foi, por exemplo, na Suécia, onde já há um sentimento de arrependimento em relação ao modelo que foi adotado. O fato é que uma parcela da população naturalmente iria se refugiar, ia fazer home office, ia ter gastos reduzidos por causa dos temores da crise. Mesmo que não tivesse tido isolamento, o fato do vírus estar por aí, isso naturalmente já mudaria a rotina das pessoas. Quem vai se arriscar a expor sua família num restaurante lotado? Com isolamento ou sem isolamento, teríamos consequências na economia. A depender do impacto do vírus, principalmente nas camadas mais populares, poderíamos ter uma tensão social muito forte porque não tem estrutura física na saúde para atender tantas demandas. Então é uma ilusão resumir a uma questão de "com isolamento", "sem isolamento". Teríamos consequências impensáveis sem o isolamento. O problema maior é que nós não tivemos isso bem conduzido. Desde o início, faltou uma coordenação do governo federal, em conjunto com ministério da Saúde e as demais esferas de governo. Como dar tratamento diferenciado para as diferentes regiões? Como o tema foi muito politizado, uma incompetência também dos governantes, perdemos isso. De uma forma geral, tivemos um isolamento mal conduzido. Deveria ter tido um esforço de analisar as diferentes realidades dentro de cada estado. Será que seria possível ter sido feito regras diferentes para cidades com realidades diferentes? Eu não sei. Eu não estou dando resposta, mas são questionamentos que a gente tinha que ter feito lá no mês de março.

"É uma ilusão resumir a uma questão de "com isolamento", "sem isolamento"" — Zeina Latif

Estamos vendo uma escalada de números dos casos e, comparando o Brasil com outros países, era possível esperar já alguma acomodação, mas isso não está acontecendo, mesmo com o isolamento. Isso sugere que a nossa estratégia de isolamento poderia ter sido melhor. Precisávamos, lá atrás, de uma iniciativa de diálogo com mais musculatura vinda da própria presidência, mas ficou uma coisa muito tímida.

Os países desenvolvidos vão sair na frente no pós pandemia? Tem alguma particularidade que poderia ser aproveitada pelos emergentes no impulso da volta?

Na crise de 2008, são os emergentes que saem na frente, em função dos estímulos na China e porque o epicentro da crise eram as economias avançadas, pela característica financeira. Sofremos a onda, mas o epicentro era ali e tivemos, nós, os emergentes, a boa notícia da China ter reagido com políticas de estímulo até exageradas. Agora, o quadro é mais perverso para emergentes, porque a China vai fazer seus esforços de recuperação, mas penso que já não com o mesmo espaço do passado. A minha avaliação é que a tendência dos emergentes é ter uma recuperação mais lenta em relação às economias avançadas. Mas é preciso aguardar o quanto a China vai se recuperar e isso ajudar um pouco a visão dos emergentes. Algo importante é que a China já vinha num ciclo de desaceleração antes da pandemia e isso vinha tirando apetite dos investidores estrangeiros. A própria fraqueza do comércio mundial é notícia muito ruim para emergentes, porque uma parte importante do comércio é entre países ricos. Nós nos beneficiamos do comércio quando ele está mais vigoroso. Juntando tudo, o quadro para emergentes é, no relativo, pior do que das economias avançadas. Podemos ter alguma surpresa da China, mas estou cética, tendo em vista essa desaceleração que já estava acontecendo.

Apesar de neblina na economia real, a bolsa deu sinais de retomada. Esse descolamento significa que para a renda variável a recuperação já começou? Qual é a melhor estratégia que os investidores podem tomar hoje?

Uma parte desse movimento é volatilidade. Não significa que as valorizações nos últimos dias vieram para ficar. Ainda é necessário muito cuidado ainda. É claro que o patamar de volatilidade hoje não aquele do pico da crise, o pior passou. Naquele momento, o mercado ficou totalmente sem referência, um desespero com a bolsa testando 60 mil pontos. Hoje, sabemos mais sobre a doença, já vemos países começando a abrir, com mais pesquisas sobre tratamentos e vacinas. E o mais importante: essa bazuca de recursos que tem sido injetada principalmente pelo Banco Central americano e os mercados celebrando muito isso. Nesse aspecto, é natural que os preços de ativos reajam isso da mesma forma que lá atrás, quando o mercado desabou, com exagero. Essa é a natureza do mercado financeiro. O cuidado é: quem está na visão positiva, a julgar pelo comentário de analistas que ouço, geralmente tem um discurso de que vai ser uma recuperação em V, com vacina e instrumentos dos bancos centrais. Muitas hipóteses são excessivamente otimistas. Ainda é um ambiente de incertezas e volatilidade. Tem ainda as nossas questões internas. Até a covid-19, a bolsa brasileira estava se valorizando muito mais do que bolsas de economias semelhantes. E por que isso? Porque tinha juros baixos, os investidores locais querendo entrar, mesmo com a saída de estrangeiros. Não se sabe qual é o fôlego disso diante de tanta volatilidade agora. Havia também muita expectativa, uma visão excessivamente otimista do mercado, que teríamos um governo reformista. Agora que ficou claro que é um governo com graves problemas de gestão das políticas públicas. A tendência nossa bolsa é não ter a perfomance do passado, pois ficou claro que o quadro aqui, no relativo, é pior.

A migração para renda variável mostra um amadurecimento do brasileiro em relação às suas finanças? E em que medida a crise pode mudar isso?

Espero que a crise mude isso para melhor. Nos últimos anos, vínhamos notando uma maior preocupação dos investidores em melhorar a qualidade dos seus investimentos. Notei isso ainda lá no governo Dilma, mesmo com os juros elevados. Com os juros baixos, vimos a busca por risco maior. Obviamente isso mostra investidores mais atentos. Por outro lado, fica escancarado nessa crise algo que já sabíamos, que é o fato do brasileiro não poupar. Vem a crise e bate o desespero, porque as pessoas não têm nenhuma poupança. Isso é uma postura muito equivocada. E não podemos dizer que isso é porque somos um país pobre, porque tem país pobre em que as pessoas poupam, e aqui não acontece isso. Temos um aprendizado que eu espero que cresça, a necessidade de gerir os seus rendimentos de uma forma mais conservadora. Antes de pensarmos em qualidade de investimento, temos que aumentar a parcela da renda mensal guardada.

 

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