A SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de commodities do Brasil, enfrenta uma situação peculiar no mercado: suas ações são negociadas com um desconto de aproximadamente 50% em relação ao valor contábil de suas terras. Esse gap chama a atenção dos investidores, mas a reação do mercado à recente aquisição de fazendas da Radar por R$ 1,85 bilhão mostra que o ceticismo ainda predomina. A decisão da companhia de exercer o direito de preferência sobre 28,8 mil hectares gerou uma queda de cerca de 10% no preço das ações, contrariando a tese de valorização patrimonial.

O abismo entre a bolsa e o patrimônio

Para entender a dimensão do desconto, cálculos do mercado indicam que a SLC pagou aproximadamente R$ 64 mil por hectare na transação com a Radar, valor 15% inferior à média da região. Contudo, a própria empresa vale menos da metade desse montante por hectare na Bolsa de Valores. Analistas do BTG destacaram que uma recompra de ações seria um investimento mais atrativo, dado que o papel negocia a um múltiplo muito mais baixo que o preço pago pelas terras.

O banco avalia que as áreas adquiridas estão entre as mais produtivas do país, com potencial de elevar o EBITDA incremental em cerca de R$ 80 milhões. No entanto, o yield de aproximadamente 4% obtido nessa operação é baixo em comparação com um custo de capital que é três a quatro vezes maior. A valorização futura das terras poderia melhorar os retornos, mas, na visão dos analistas, investidores de public equity geralmente esperam resultados superiores a esse patamar.

Alavancagem e pressão no caixa

A aquisição também implica um aumento significativo na alavancagem financeira. De acordo com estimativas do Bradesco BBI, o endividamento da SLC subirá 0,8 vez o EBITDA, passando para 3,4 vezes. Esse nível pode diminuir à medida que a empresa começar a operar as novas áreas e elevar a produção, mas, no curto prazo, o fluxo de caixa livre deve continuar comprimido.

O analista do banco calculou que as despesas financeiras adicionais somarão R$ 277 milhões, enquanto haverá uma redução de R$ 60 milhões nos custos de arrendamento. O resultado líquido é um aumento de aproximadamente R$ 217 milhões na queima de caixa. Esse cenário torna a tese de carrego menos atraente para os investidores que buscam retornos consistentes no curto prazo.

Cenário macro e riscos climáticos

O contexto macroeconômico para o setor agrícola também contribui para o pessimismo. Os preços das principais commodities produzidas pela SLC – soja e algodão – permanecem em baixa, sem sinais claros de recuperação. Além disso, as previsões climáticas indicam uma probabilidade crescente de um El Niño severo, fenômeno que já provocou quebras de safra significativas na companhia em anos anteriores.

Esses fatores corroboram a postura cautelosa do mercado, que prefere ignorar o desconto patrimonial e focar nos riscos operacionais e financeiros. A SLC, por sua vez, justifica a aquisição como uma defesa estratégica: se não exercesse o direito de preferência, o novo proprietário (a Bom Futuro) poderia cancelar o contrato de arrendamento, resultando na perda de áreas premium. A decisão, embora defensível do ponto de vista operacional, não convenceu os investidores. Para mais análises sobre o impacto macroeconômico no agronegócio, acesse a página de economia da SpaceMoney.