terça, 17 de maio de 2022
Educação Financeira nas EscolasCOLUNA

Educação Financeira nas Escolas

Silvia Alambert Hala

Educadora financeira de crianças e diretora de Conhecimento da Progress Educacional

Educação financeira nas escolas deveria começar pelo professor

Para que esse profissional ensine um novo tema, ele precisa acreditar que o conhecimento a ser transmitido é genuíno

15 março 2022 - 15h14
Educação financeira nas escolas deveria começar pelo professor

Em tempos de crise e oscilação da economia o tema sobre a educação financeira nas escolas volta mais forte, ainda que seja antigo e tenha ganhado destaque em dezembro de 2010, quando o governo federal publicou o Decreto número 7.397. Nesse momento foi criada a Enef (Estratégia Nacional de Educação Financeira), “uma política pública cujo objetivo prático seria ensinar adultos e alunos da rede pública e privada a lidar com o dinheiro e desenvolver na sociedade as habilidades financeiras que ajudassem a identificar as oportunidades e também os riscos nas decisões de compra ou de investimento no mercado financeiro”.

A estratégia foi criada pelo Comitê de Regulação e Fiscalização dos Mercados Financeiro, de Capitais, de Seguros, de Previdência e Capitalização (Coremec), formado pelo Banco Central, Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) e Superintendência de Seguros Privados (Susep).

O Decreto também criou o Comitê Nacional de Educação Financeira (Conef), com a participação dos secretários executivos dos ministérios da Educação, Fazenda, Justiça e Previdência Social, que seria responsável pela elaboração, implantação e acompanhamento dos projetos e ações da Enef.

O projeto piloto foi desenvolvido entre 900 escolas e, segundo informações daquela época, a Enef, fruto de pesquisas iniciadas em 2007, havia sido desenvolvida em escolas do ensino médio, com aproximadamente 22 mil jovens em todo o país. Havia também a promessa de que, em 2011, a Enef seria ampliada para o ensino fundamental.

Sob a coordenação e execução das ações transversais da ENEF, a Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF Brasil), criada em 2011, promoveria a educação financeira no Brasil. Muitos profissionais se engajaram e trabalharam no desenvolvimento de material para alunos e professores do ensino básico no Brasil, mas em função do Decreto no. 9.759, de 11 de abril de 2019, a governança do CONEF está sendo revisitada, segundo informações do próprio site do governo.

Todo o material e conteúdo desenvolvidos ao longo desses anos para o ensino básico, para os professores e para os alunos, encontram-se disponíveis no site vidaedinheiro.gov.br, mas quão efetiva tem sido essa ação?  Por que, então, depois de empregar tanto esforço, tempo, energia e, obviamente, dinheiro neste programa educacional que parecia ser a grande promessa de prosperidade na vida das crianças, jovens e adultos, o programa parece não ter se sustentado e caminha a passos lentos, quando comparado a outros tantos programas que foram criados em diferentes localidades do Brasil, empresas pequenas, start-ups, inclusive as que estão ligadas aos grupos educacionais do país? 

A resposta sempre recai sobre a questão cultural e, sim, isso é uma verdade que parece que não interessa ser mudada tampouco, mas eu arrisco dizer que, além desse ponto, há outro que talvez seja o mais importante: o respeito ao espaço e ao tempo do professor. 

O professor é a porta de entrada e a parte mais importante do processo de implantação de um programa educacional, seja ele qual for. Por isso, apenas disponibilizar materiais não irá funcionar. Não existirá um programa de educação financeira efetivo onde aos professores cabe a responsabilidade de fazer funcionar um programa que terá que ser aplicado nas escolas apenas porque foi decretado que é obrigatório.

Ainda que um professor seja apaixonado pela educação, para ele ensinar um novo tema que esteja fora da área de conhecimento dele, primeiro ele precisa acreditar que o conhecimento que ele irá receber é genuíno, que faz sentido para ele e que será, de verdade, um instrumento facilitador de seu trabalho e não somente mais um conteúdo que precisa ser empurrado para cumprir plano escolar.

O sucesso para a implantação de um programa de educação financeira nas escolas tem início antes mesmo do curso de capacitação dos professores. A implantação de um programa de educação financeira tem início no professor que é e deve ser envolvido como um cidadão.

A opinião e as informações contidas neste artigo são responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, a visão da SpaceMoney.

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