quarta, 29 de maio de 2024
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Green Bonds: conheça os títulos verdes que unem a sustentabilidade ao mercado financeiro

Papéis alinham empresas às práticas ESG e geram diversificação para carteira do investidor; saiba como investir

01 novembro 2023 - 11h00Por José Chacon
 - Crédito: Pixabay

Ao contrário do que muita gente pensa, a sustentabilidade e setores de exploração de recursos naturais ou que geram modificações no solo como a agropecuária podem andar juntos. Isso porque a criação de padrões sustentáveis, através dos Green Bonds - ou títulos verdes, na tradução para o português - representa oportunidades de alavancagem financeira para produtores desses segmentos, ao mesmo tempo em que beneficia o meio ambiente.

Uma análise nesse sentido foi feita pela Climate Bonds Initiative (CBI). Em levantamento produzido no ano de 2021, a organização britânica, que sistematiza as normas do que são práticas sustentáveis em diversos setores da economia, estimou que o setor da agricultura brasileira poderia receber mais de R$ 700 bilhões até 2030, por meio da emissão dos títulos verdes. 

Com eles, empresas alcançam os objetivos da responsabilidade ambiental, social e governança corporativa (a agenda conhecida pela sigla em inglês ESG), já que colaboram com produções de baixo carbono e de cunho renovável.

Diante de tantos benefícios, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou recentemente a estreia do Brasil no mercado exterior dos Green Bonds

A iniciativa faz parte do plano de transição ecológica lançado pelo Ministério da Fazenda em agosto, com o objetivo de endereçar a economia brasileira no contexto do combate à mudança climática.

O governo espera captar cerca de US$ 2 bilhões, aproximadamente R$ 9,730 bilhões na cotação em real, com a ideia de utilizar o valor para financiamento de projetos sustentáveis no Brasil.

A seguir, veja o que são Green Bonds, como investir, de que forma eles se aplicam na estratégia do governo e os benefícios que geram:


O que são Green Bonds ou títulos verdes?

De forma resumida, os green bonds se enquadram nos chamados títulos de dívida emitidos por governos, organizações internacionais ou empresas privadas para financiar projetos e atividades. No caso dos títulos verdes, o financiamento se destina exclusivamente a iniciativas ambientalmente sustentáveis.

Na emissão dos títulos de dívidas por governos, como o do Brasil, investidores são motivados quando a gestão gasta mais do que arrecada. Assim são pegos empréstimos por meio dos títulos, com o compromisso de devolver o dinheiro no futuro e pagar juros ao credor.

No caso das empresas privadas, elas buscam investidores que confiam em seu negócio e vão ajudar a financiá-la, seja para um projeto específico, ou apenas para reforçar a estrutura de capital da companhia. Nesse modelo, debêntures são o tipo de emissão de dívida mais popular.

Os títulos verdes propostos pelo governo brasileiro são de dívida externa, que irão financiar o plano de desenvolvimento sustentável do país. As empresas também podem fazer esse tipo de captação e assim alinhar-se com as práticas de ESG.

 

A B3 classifica os green bonds em diversas categorias para atrair investimentos de acordo com o interesse, algumas delas são:

  • - Energia renovável;
  • - Prevenção e controle de poluição;
  • - Transporte limpo;
  • - Mudanças climáticas;
  • - Conservação da biodiversidade.

 

Como acontece o investimento em títulos verdes emitidos por empresas?

Para investir, a empresa que pretende emitir os Green Bonds precisa submeter o projeto de captação de recursos à Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e também ao CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável).

Após a submissão, as entidades irão avaliar o propósito e então fazer o direcionamento da verba. Uma vez aprovado o projeto, os títulos são lançados no mercado e a partir daí os investidores podem fazer a aquisição.

Dessa forma, os investidores diversificam suas carteiras com ativos que promovem o bem-estar ambiental.

A princípio, as compras dos títulos são feitas por meio de bancos, corretoras ou instituições financeiras.

 

Quais tipos de projetos a captação se destina?

Energia renovável, estruturação e projetos de edificações sustentáveis, sistemas de aquecimento, redes inteligentes e sistemas inteligentes de armazenamento são alguns dos principais segmentos que se tem investido. 

Captações visam financiar projetos de infraestrutura em energia renovável para geração, transmissão, armazenamento e uso de energia, que pode ser solar, eólica, hidráulica, geotérmica, maremotriz, entre outras.

Na agropecuária, se investe o dinheiro principalmente para a promoção de gestão de recursos naturais como agropecuária de baixo carbono, silvicultura e manejo florestal.

Além disso, a captação dos títulos verdes gera prevenção e controle da poluição. Por isso, existe o Índice Carbono Eficiente (ICO2) na B3, que lista empresas destaques nessa atividade. 

Os recursos também podem ser direcionados ao tratamento de efluentes, descontaminação de solos, reciclagem, dentre outros.

 

Como os Green Bonds do governo ajudarão no desenvolvimento sustentável do Brasil?

A emissão de títulos verdes desponta como um dos principais incrementos do novo plano de transição ecológica do governo federal. 

Nele estão previstas modificações estruturantes na economia brasileira e na promoção do desenvolvimento sustentável. Aumento da produção de energia limpa e a criação de um mercado de carbono são algumas das iniciativas que fazem parte do planejamento.

Assim, a oferta de papéis no exterior deve financiar projetos em áreas como infraestrutura verde, bioeconomia e adaptação à mudança do clima. 

Os setores nos quais o dinheiro captado vai ser investido serão divulgados em relatórios anuais, segundo o governo. Os recursos também podem ir para o Fundo Clima, relançado pelo governo federal neste ano.

 

Crescimento do mercado de títulos sustentáveis

Nos últimos anos, as alterações climáticas e a degradação do solo em decorrência das atividades humanas têm motivado corporações públicas e privadas a modificar seu estilo de operação.

A inserção do Brasil nos títulos e o crescimento do mercado de Green Bonds no mundo são um exemplo disso.

De acordo com a Climate Bonds, a emissão de títulos verdes em 2022 ficou acumulada em US$ 2,2 trilhões. Naquele ano, a América Latina e o Caribe mostraram um aumento de 5%, “ressaltando o potencial da região para desbloquear investimentos em fundos de pensão através do desenvolvimento dos mercados de moeda local”.

Neste ano, conforme a organização, houve alta nas emissões dos títulos nas moedas locais do México, Brasil e Chile. 

Segundo estimativas do Banco Central (BC), nos últimos três anos, foram lançados US$ 20 bilhões por meio dos títulos no Brasil.

A CBI destacou que o Banco Nacional Saudita fez sua estreia no mercado de bonds verdes com um sukuk (títulos sauditas) de sustentabilidade de US$ 750 milhões, num sinal do crescente interesse do Oriente Médio pelo setor. 

Contudo, a Climate ressalta que, para o alcance das metas estabelecidas no Acordo de Paris, faz-se necessário haver uma emissão anual de pelo menos US$ 5 trilhões até 2025.

Dentre as metas do Acordo, a principal delas seria a promoção de ações para reduzir a emissão de gases do efeito estufa. Países que se comprometeram com o Acordo, buscam intensificar as ações e os investimentos através dos Green Bonds, afirma a organização.