sábado, 28 de maio de 2022
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Em meio a metas climáticas, combustível fóssil pode deixar de ser bom investimento. O que fazer?

Para head de research da XP Inc., Marcela Ungaretti, melhor coisa a se fazer é aplicar em companhias que estão se adaptando às novas tendências mundiais

19 novembro 2021 - 16h17Por Gabriel Coccetrone

Um estudo inédito publicado pela revista Nature – revista científica mais citada do mundo – no começo deste mês causou preocupação para alguns setores do mercado financeiro. Isso porque o documento aponta que cerca    de metade dos combustíveis fósseis do mundo podem ser desnecessários e produzir pouco lucro em 2036 por conta da transformação na matriz energética mundial, que tende a ser cada vez mais sustentável.

De acordo com o documento, que foi realizado com base na demanda dos 70 setores industriais que mais precisam dos derivados do petróleo no mundo, as empresas ligadas a esse tipo de exploração (como a Petrobras, por exemplo) devem enfrentar uma grave crise financeira em 15 anos, uma vez que poderão ficar na posse de “ativos ociosos”, como infraestrutura, terrenos, fábricas e investimentos.

“Dada às emissões de gases de efeito estufa advinda do uso de combustíveis fósseis, esse é um dos segmentos que precisam de atenção dado o cenário. Contudo, vale ressaltar que o desafio vai além desse setor, e envolve novas soluções e iniciativas por parte de muitas outras indústrias e, consequentemente, empresas. Para essas empresas, essa mensagem está clara, e esperamos que cada vez mais alternativas e planos sejam apresentados de forma a adaptar o modelo de negócio, considerando a transição para uma economia de baixo carbono”, ressalta Marcella Ungaretti, sócia e head de research ESG da XP Inc., que acrescenta:

“Um ponto que é importante ter em mente é que essa mudança não acontecerá da noite para o dia, é necessário tempo para que o mundo seja capaz de não depender mais de combustíveis fósseis, o que não é a realidade hoje. Dito isso, esse é o tempo para as companhias se adaptarem, reverem seus modelos de negócios, desenvolverem novas tecnologias e alternativas, de forma que não fiquem para trás em um cenário de transição energética”.

A questão do meio ambiente passou por intensas discussões nas últimas semanas. Durante a COP 26 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climática), ficou claro que a situação é alarmante e necessita de ações. A Terra está aquecendo mais rápido do que o esperado e caminha para atingir 1,5°C acima do nível pré-industrial já na década de 2030, 10 anos antes do esperado. Frente a esta situação, os diferentes países têm assumido compromissos no sentido de reduzir suas emissões ao longo dos próximos anos e atingir a neutralidade climática. O Brasil, por exemplo, anunciou durante o encontro o aumento da meta de redução de emissões de 43% para 50% até 2030, e reforçou o compromisso de atingir a neutralidade climática até 2050.

Apesar da promessa feita pelo Brasil no encontro, em abril, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sancionou, sem vetos, o projeto da Câmara dos Deputados que estabelece a Novo Marco Legal do Gás Natural, que acaba com o regime de concessão, com licitação por parte do poder público, e permitir que novos gasodutos sejam construídos por meio do regime de autorização, modelo praticado no mundo. O principal objetivo é aumentar a concorrência no mercado de gás natural e biocombustíveis, reduzindo os custos de produção e o preço final para o consumidor. De acordo com estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), com a nova legislação, os investimentos poderão chegar a R$ 150 bilhões em 2030.

Diante desses compromissos assumidos pelas nações, a tendência é que cada vez mais os combustíveis fósseis sejam deixados de lado e substituídos por produtos mais sustentáveis. Para se ter uma ideia de como esse comportamento influenciará no mercado, o estudo citou a mudança que sofrerá o preço do barril de petróleo, que hoje é comercializado acima dos US$ 80 (R$ 440 na cotação atual) e não deverá romper a barreira dos US$ 35 (R$ 194,9) em 2036.

“Um dos principais objetivos da política climática é substituir progressivamente o uso de combustíveis fósseis por energias renováveis. A rápida depreciação e substituição dos combustíveis fósseis associadas à necessidade de preservação do meio ambiente acarretam uma profunda reorganização das cadeias de valor da indústria, comércio internacional e geopolítica. Dependendo das decisões de produção, os preços do petróleo a longo prazo podem permanecer em valores tão baixos quanto US$ 35”, diz um trecho do estudo.

Investidores precisam ficar atentos

Nesse cenário, além das empresas, os investidores também precisam estar atentos às movimentações para se prepararem e evitarem perdas em um futuro não tão distante. 

Segundo Marcella Ungaretti, é importante que o investidor “monitore e acompanhe o que as empresas estão fazendo no sentido de se adaptarem conforme o mundo caminha para uma transição para uma economia de baixo carbono”.

“As empresas precisam caminhar na mesma direção, caso contrário, ficarão para trás. No fim, o mais correto é buscar investimentos em empresas que buscam fazer parte da solução, e não do problema. Dado o cenário alarmante em termos das mudanças climáticas, bem como as metas de reduções de emissões assumidas pelos países, é de se esperar que um número cada vez maior de companhias concentre seus esforços em acompanhar essa transição – lembrando que ela será, e precisa ser, gradual”, acrescenta.

Sendo assim, podemos afirmar que não é mais válido apostar em empresas com investimentos atrelados a combustíveis fósseis?

“Isso se aplica tanto para as companhias que possuem modelos de negócio já alinhados ao cenário de transição energética (como empresas de energia renovável), mas também para aquelas que, embora possuam desafios, estão atuando no sentido de endereçá-los, buscando novas alternativas, tecnologias e soluções para caminharem na mesma direção que o mundo evolui. Em se tratando especificamente de empresas de combustíveis fósseis, é necessário tempo para que o mundo seja capaz de não depender mais dos mesmos, o que ainda não é a realidade hoje. Dito isso, esse é o tempo para as companhias se adaptarem, e o investidor precisa acompanhar de perto se isso está sendo feito e na velocidade necessária para a empresa não ficar para trás das demais”, aconselha a head de research ESG.

Crise financeira mundial à vista?

Principal integrante do estudo, Jean-François Mercure, da Universidade de Exeter, afirmou no documento que a mudança para a energia limpa irá beneficiar a economia mundial de forma geral, mas ressaltou a necessidade de cautela para evitar colapsos locais e regionais, que causariam uma possível instabilidade global e consequentemente uma grave crise econômica, principalmente aos países mais dependentes desse produto.

“Na pior das hipóteses, as pessoas vão continuar a investir em combustíveis fósseis até que, de repente, a procura que esperavam vai deixar de existir, e as empresas perceberão que o que têm em sua posse não vale nada”, afirmou

O estudo afirma que os países que começarem mais cedo a deixar de usar os combustíveis fósseis e passar a investir em outras fontes de energia poderão reduzir esses prejuízos a longo prazo.

A Irlanda foi o primeiro país do mundo a tomar essa iniciativa. Em 2018, o parlamento irlandês aprovou por unanimidade uma lei de desinvestimentos em fontes de energia poluentes que contribuem para as mudanças climáticas no planeta.

Essa lei determina que, dentro de cinco anos (até 2023), o Fundo de Investimento Estratégico Irlandês (ISIF) terá que se livrar de todo e qualquer investimento direto em carvão, petróleo e gás natural. Em números, a investida promete liberar cerca de 300 milhões de euros que estão investidos em 150 empresas do setor.

Por fim, o estudo publicado revelou que Brasil, Estados Unidos, Noruega e Rússia são os principais produtores de combustíveis fósseis, enquanto a União Europeia, o Japão e a Índia são os maiores importadores.

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