domingo, 28 de novembro de 2021
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Altas das contas de luz e gás: quais são as causas e como posso reduzir o impacto?

Especialistas afirmam que elevação dos preços depende de um conjunto de fatores que vão exigir disciplina e mudança de hábito dos consumidores

10 junho 2021 - 14h14Por Lucas de Andrade

No dia 27 de maio, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) recomendou à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) que fosse reconhecida a situação de "escassez hídrica" na Bacia do Rio Paraná, que abastece os estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. 

No dia seguinte, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou que aplicaria o patamar 2 da bandeira tarifária vermelha para o mês de junho, ao custo de R$ 6,243 para cada 100kWh (quilowatt-hora) consumidos, em razão das “condições hidrológicas desfavoráveis” - diz a agência - já deflagradas em maio.

As atenções se voltam ao setor elétrico enquanto a crise se aproxima e o debate da privatização da Eletrobras segue no Senado, após a aprovação da Medida Provisória que traz pontos controversos que poderiam acarretar em um aumento ainda maior das tarifas.

Enquanto isso, outro item tão essencial aos brasileiros também causa preocupação. O gás de cozinha, muito utilizado para o preparo das refeições das famílias, acumula uma alta de 11,45% de janeiro a abril deste ano, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV). Em 12 meses, no período iniciado em maio de 2020, o índice registra uma alta de 17,25%.

Como nós consumidores podemos nos preparar para a alta das contas de luz e gás? O que causa todos esses aumentos? Confira nesta Spacedica o que especialistas analisam sobre o cenário atual e saiba como reduzir o impacto no seu bolso. 

Planejamento financeiro: com disciplina, os resultados vêm

“Estamos sujeitos a essas crises de tempos em tempos. Para aquilo que não temos controle - tarifas e custos de transmissão de energia e variação do petróleo no mercado internacional -, nos cabe olhar de forma disciplinada para os nossos gastos e procurar geri-los da melhor maneira possível”, diz Carlos Castro, planejador financeiro e CEO da SuperRico.

Quanto às altas do gás, o especialista diz que não tem mágica: passe o seu orçamento na ponta do lápis e confira como preparar suas finanças para lidar com o impacto do preço.

O gás, vinculado ao petróleo, portanto uma commodity que acompanha a variação do mercado internacional, volta e meia sofre com variações de preço.

“Você vai precisar do gás. Não tem como não precisar. Você não consegue economizar gás. Não necessariamente você reduz o consumo. Então, eu recomendo que você reúna toda a sua renda, analise seus gastos e veja como o seu orçamento pode absorver essa variação e incorporar esse aumento sem grandes traumas”, diz o planejador financeiro.

Em último caso, o especialista recomenda o uso da reserva de emergência. “Se você viu que não deu, que o preço foi exorbitante, utilize a reserva de emergência. Aliás, se você faz um planejamento de um orçamento bem elaborado, você tem uma. E ela pode ser uma forma de amortizar o choque dessa alta”, conclui.

Não tem reserva de emergência? A SpaceMoney Investimentos te ajuda a formar a sua.

Para diminuir o impacto na conta de luz, o especialista elenca medidas simples, mas valiosas, que podem reduzir os custos. “Nós temos, por exemplo, os equipamentos eletrônicos. Nós podemos tirá-los da tomada se não estão em uso. Quantas vezes não deixamos o carregador na tomada sem o celular? E lá se vai a energia… Nós temos que nos atentar a esses pequenos detalhes”.

Castro também recomenda reavaliações de equipamentos em uso há muito tempo. “Às vezes, a sua geladeira demanda mais gasto porque o motor é antigo. De repente, a troca pode resultar num consumo de energia que justifica, na linha do tempo, o valor que você aportou a mais para comprar uma nova que gaste menos”, explica.

Dois grandes vilões das contas também são o chuveiro elétrico e a iluminação. Entretanto, Castro tem duas boas alternativas: “Use mais a luz natural. Claro que isso depende de como a residência foi planejada, mas também a troca de todas as lâmpadas por lâmpadas LEDs pode ser mais eficaz, mais barata e produz a mesma luminosidade”, diz.

“E, a ver pelo nível de consumo de chuveiro elétrico, por que não avaliar se a energia solar faz mais sentido para a casa? Traz um impacto financeiro instantaneamente, mas a longo prazo, você vê que reduziu a sua conta. E você também consome uma energia limpa”, acrescenta.

Tarifa branca

Você sabia que pode solicitar à companhia de energia do seu estado a adesão à tarifa branca? Sabe como funciona?

Se você condiciona seus hábitos de energia a horários fora de pico - geralmente, fora dos horários de 17h às 21h ou 18h às 22h -, você tem uma redução efetiva no valor da sua conta de luz. Mas você pode sofrer uma cobrança maior se solicitar a adesão à tarifa branca e continuar com os mesmos gastos nos horários de pico.

“Se você fizer um planejamento e, de repente, conseguir se programar para consumir a energia, por exemplo, do chuveiro elétrico fora do horário de pico (ou de ponta), você vai conseguir reduzir e muito a sua conta de luz”, aponta Castro.

Se você quer aderir ao modelo, entre em contato com a concessionária de energia elétrica da sua região. Consulte os horários de pico da sua localidade aqui.

Privatização da Eletrobras no radar

No dia 20 de maio, a Câmara dos Deputados aprovou a Medida Provisória (MP) 1031/21, que viabiliza a desestatização da Eletrobras, estatal vinculada ao Ministério de Minas e Energia e responsável por 30% da energia gerada no Brasil.

O relator do texto, deputado federal Elmar Nascimento (DEM-BA), vinculou ao processo de privatização algumas medidas polêmicas que levariam a um aumento nas contas de luz caso o documento seja aprovado. Neste momento (dia 10 de junho), a tramitação da MP segue no Senado Federal.

O texto prevê a contratação de usinas termelétricas a gás. Para abastecê-las, seriam necessários mais gasodutos criados. A MP determina que essas usinas sejam construídas no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste, regiões que não possuem rede de abastecimento de gás natural, com entrega de 6 mil megawatts: 1.000 MW  em 2026, 2 mil MW em 2027 e 3 mil MW em 2028.

“Essa medida vai demandar investimento não só de geração, mas de linhas de transmissão, deslocamento de mão-de-obra e toda uma readequação do sistema integrador nacional”, aponta Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos.

Sanchez avalia a privatização como positiva e diz que a medida traria benefícios a longo prazo. “Mesmo com essa série de exigências incluídas pelo relator, que geram potencialidade altista dos preços em curto prazo, isso tende a se normalizar ao longo dos anos”, diz.

Para o analista, não se pode afirmar que a retirada de trechos polêmicos garantiriam a aprovação da MP. “Às vezes, esses aspectos que fazem com que a energia seja elevada a curto prazo são justamente os pontos que garantem a tramitação do projeto”, opina.

Ele explica que a alta nas contas de luz hoje é decorrente de uma conjuntura à parte, independente da proposta de privatização, mas aposta que, se aprovada, os consumidores verão a normalidade dos preços a longo prazo. “A tendência é que os preços venham a cair com o ganho de produtividade que o setor privado imporia à companhia”, conclui.

Consumo responsável e políticas sustentáveis poderiam amenizar problemas

Para Nayanne Brito, especialista em energia e regulação na Lemon Energia, este seria o momento ideal de as pessoas despertarem para o consumo responsável, tendo o governo o papel de sinalizar políticas públicas sustentáveis e, assim, o país poderia se desenvolver fortemente sem desrespeitar o meio ambiente e com menos peso no bolso dos consumidores.

“Nós temos alternativas para frear essas altas, como a geração de energia compartilhada. Esse modelo de geração de energia, além da proteção às bandeiras tarifárias, torna possível a assinatura de energia sustentável e mais barata. Infelizmente, ele ainda dá os primeiros passos para dar poder aos pequenos consumidores de energia do Brasil”, diz.

Segundo a especialista, o benefício dessa modalidade extrapola os limites de quem gera sua própria demanda, contribuindo para reduzir o custo global da energia ao reduzir perdas elétricas e suavizar horário de ponta, além de diminuir a utilização de usinas movidas a combustível fóssil, como as que estão acionadas agora com a justificativa do pagamento de bandeira tarifária patamar 2. 

“Para um consumidor da capital de São Paulo, apenas a aplicação desse patamar de bandeira tarifária significa aumento de aproximadamente 12% na tarifa de energia elétrica”, afirma.

Para que o modelo seja implementado, as autoridades precisam “dar segurança jurídica aos empreendedores com apetite para esse modelo de negócios”. Na opinião de Nayanne, outro entrave para a consolidação do país como potência energética mundial está relacionado às políticas públicas, que estão em falta, mas são necessárias para “atrair confiança dos empreendedores nacionais e do capital estrangeiro”.

A geração compartilhada de energia, segundo a especialista, amenizaria os efeitos da pandemia e os preocupantes números do desemprego. “Essa solução é poderosa porque gera, ao menos, 30 empregos locais por cada MW instalado. Permite que pequenas empresas economizem na conta de luz e tenham alguma gerência sobre os gastos com energia”.
 

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