O avanço do escritor Augusto Cury na corrida presidencial não se apoiou em um único adversário. A análise da CEO do Instituto Ideia, Cila Schulman, indica que o candidato capturou votos nos dois polos da disputa — tanto em redutos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto em bases de Flávio Bolsonaro (PL) —, mas encontrou seu filão mais produtivo entre mulheres evangélicas avessas às duas principais candidaturas.

A avaliação foi apresentada no Mapa de Risco, programa de política que foi ao ar nesta sexta-feira (11). Segundo a pesquisadora, o movimento pró-Cury é multifacetado e não pode ser lido como transferência simples de eleitores de um campo para outro.

Os dados mais recentes, porém, apontam desaceleração. Com a perda de tração do escritor, o contingente que ele atraiu volta a ser peça-chave em uma corrida apertada, reabrindo a disputa entre petistas e bolsonaristas por um eleitorado que já mostrou disposição para abandonar ambos.

Um avanço sobre os dois lados da polarização

Na leitura de Schulman, o candidato não construiu sua base a partir de uma transferência linear de apoios. O fluxo de votos que migrou para ele tem origens distintas, o que dificulta qualquer tentativa de enquadrar o fenômeno como um simples deslocamento de um campo ideológico para outro.

A dirigente do Instituto Ideia sintetizou essa dinâmica ao afirmar que o candidato retirou apoio de Lula e de Flávio Bolsonaro ao mesmo tempo, com contribuições vindas de vários segmentos do eleitorado. Esse caráter difuso é justamente o que torna o desempenho de Cury relevante na leitura do tabuleiro eleitoral.

Ao mesmo tempo, o fato de a origem dos votos ser pulverizada significa que qualquer recuo do candidato tende a devolver esse eleitorado fragmentado a mais de um destino, e não a um único beneficiário natural.

O peso das mulheres evangélicas no fenômeno Cury

O segmento que mais contribuiu para o avanço do escritor foi o de mulheres evangélicas. Trata-se de um grupo de perfil conservador, com forte preocupação em relação à corrupção e que, simultaneamente, mantinha resistência a Flávio Bolsonaro. Foi nessa combinação de atributos que o candidato encontrou espaço.

Segundo a pesquisadora, essas eleitoras passaram a enxergar em Cury uma alternativa viável diante de uma oferta eleitoral que consideravam insatisfatória nos dois lados. A percepção de que havia um caminho fora do eixo tradicional petista-bolsonarista funcionou como vetor de migração.

Esse comportamento sugere que a resistência a Flávio não se confunde com adesão automática ao campo governista, abrindo um nicho que outros pré-candidatos podem tentar ocupar caso a tração do escritor continue diminuindo.

O debate presidencial e a viralização dos cortes

Para Schulman, o primeiro debate presidencial foi determinante para a arrancada. A participação no encontro ampliou a exposição do candidato e gerou trechos que passaram a circular pelas redes sociais, ampliando o alcance de sua mensagem para além do público que já o acompanhava.

A pesquisadora destacou que o crescimento aconteceu exatamente no momento em que o escritor compareceu ao único debate realizado até então, aproveitando o material produzido ali para distribuir cortes em plataformas digitais.

Esse mecanismo teria permitido ao candidato alcançar eleitores que estavam sem candidato definido e cansados do confronto entre os dois principais nomes da disputa, um contingente que se mostrou sensível a uma oferta fora do roteiro tradicional.

Perda de tração e a disputa pelos votos órfãos

O impulso obtido, no entanto, perdeu força conforme os levantamentos mais atuais foram divulgados. Com isso, o eleitorado conquistado por Cury volta a ser disputado em um cenário de margens estreitas entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Schulman observa que boa parte dos eleitores que hoje estão com as demais candidaturas compartilha um traço comum: a rejeição à continuidade do atual governo. Segundo a pesquisadora, esse contingente é majoritariamente contrário à permanência da atual administração.

Nesse contexto, o próprio Lula já declarou publicamente que os levantamentos não o abalam e funcionam como reflexo para orientar decisões dali em diante, uma leitura que difere da forma como integrantes de sua campanha têm interpretado os números nos bastidores.

Flávio, Michelle e a barreira no eleitorado feminino

Se a disputa pelos votos órfãos é relevante para os dois lados, o desafio é especialmente sensível para o campo bolsonarista. Parte considerável dessas mulheres tem perfil conservador, mas mantém resistência à família Bolsonaro, o que cria uma barreira difícil de contornar para Flávio.

A analista de política da XP, Bárbara Baião, classificou Michelle Bolsonaro como um “fenômeno” na comunicação com mulheres conservadoras das periferias, justamente num momento em que Flávio ainda enfrenta rejeição acentuada nesse segmento.

Baião avalia que a rejeição ao candidato entre o eleitorado feminino está fortemente cristalizada e pode ter origem na figura do pai, mas vem sendo transferida para ele. É nesse ponto que a ex-primeira-dama ganha importância como ponte potencial com um público que se mostra decisivo na atual configuração da corrida presidencial.