A defesa do presidente Lula (PT) pela quebra total do sigilo das investigações do caso Banco Master gerou reação imediata no campo adversário e abriu nova frente de disputa na campanha eleitoral, em meio à crise institucional instalada no Supremo Tribunal Federal (STF). O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato ao Planalto, atacou diretamente o ministro Flávio Dino e cobrou uma resposta do presidente da Corte, Edson Fachin, sobre a liminar que reconduziu Andrei Rodrigues à direção-geral da Polícia Federal.

“Espero, sinceramente, que o presidente do Supremo, Edson Fachin, imediatamente, hoje ainda, tome alguma decisão, começando por suspender essa liminar dada por Flávio Dino, e convoque uma sessão plenária para que se decida sobre essas questões que ainda estão em aberto de forma pública, aberta e transparente”, declarou Flávio antes de participar de uma motociata em Juiz de Fora (MG).

A fala de Lula foi publicada no X na manhã desta quarta-feira (9). No texto, o presidente classificou como “urgente” a quebra de sigilo das investigações sobre o Master, qualificou o caso como “o maior crime financeiro da história do Brasil” e criticou “vazamentos seletivos que impactam a disputa eleitoral”. “O Brasil precisa saber a verdade”, afirmou.

Caiado critica Dino e protocola pedido formal no STF

O candidato Ronaldo Caiado (PSD) foi além das redes sociais. Além de publicar crítica dura ao ministro, o ex-governador de Goiás protocolou petição formal junto a Fachin pedindo a queda de sigilo de todas as investigações relacionadas ao Banco Master, ao INSS e a outros desdobramentos que envolvem agentes públicos.

“Não faz sentido que sobre esses inquéritos ainda vigorem medidas de sigilo e segredo de justiça. Não faz sentido que o povo brasileiro vá às urnas às cegas. É absolutamente necessário que se abra aos olhos do Brasil tudo o que a Polícia Federal já tem, pois o eleitor precisa saber dos fatos para julgá-los no seu sufrágio, sem depender de vazamentos escolhidos ou boatos construídos em torno de informações segmentadas e parciais”, diz trecho da petição.

No X, Caiado escreveu que “ministros do Supremo passaram de todos os limites” e que a postura de Dino “supera qualquer patamar”. “Virou imperador do Brasil e implodiu a segurança jurídica. Ditadura da toga, não!”, completou.

Zema compara cobertura a episódio de 2020

Romeu Zema (Novo) não mencionou Dino diretamente, mas usou as redes sociais para fazer uma crítica à imprensa. Nos stories do Instagram, o candidato publicou uma charge que aponta “dois pesos, duas medidas” na cobertura do afastamento de Andrei Rodrigues por Mendonça em comparação com a decisão de Alexandre de Moraes, em 2020, que suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem para a chefia da PF.

Na ocasião, Moraes citou possível desvio de finalidade na escolha de Ramagem, indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL). As acusações do ex-ministro Sérgio Moro, que renunciou à pasta da Justiça, foram consideradas na decisão.

Governistas entram no coro por transparência

A primeira-dama Janja Lula da Silva compartilhou um vídeo do candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), no qual o ex-ministro questiona por que as investigações envolvendo Flávio Bolsonaro no caso Master permanecem sigilosas às vésperas das eleições. “Por que que o processo do Flávio Bolsonaro segue em sigilo? […] Por que que o processo do Flávio Bolsonaro não pode ser conhecido do eleitor brasileiro?”, pergunta Haddad. Na legenda, Janja escreveu apenas: “Por quê?”.

A deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) também saiu em defesa da quebra completa do sigilo e desafiou o senador. “O presidente Lula acaba de pedir a quebra completa do sigilo das investigações do Banco Master, doa a quem doer. Eu me somo ao presidente Lula e estou pedindo o mesmo. E aí, Flávio, tem coragem de pedir a quebra do sigilo também ou vai passar mal?”, publicou.

Os deputados Lindbergh Farias (PT-RJ) e André Janones (Rede-MG) também fizeram pedidos similares. “Mendonça não aguentou a pressão e já começou a colocar o caso Dark Horse pra andar. Agora é tirar o sigilo de tudo do Master e do Flávio Bolsonaro”, afirmou Lindbergh.

Contexto da crise no STF

A escalada começou quando André Mendonça, relator de processos ligados ao caso Master, determinou na terça-feira (8) o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada. Segundo Mendonça, a PF teria produzido relatórios de inteligência sobre sua própria atuação no Supremo e monitorado suas atividades por cerca de um mês.

Nesta quarta, porém, Flávio Dino cassou a decisão do colega e determinou a reintegração de Andrei e Almada aos cargos, atendendo a um recurso do próprio diretor-geral. Dino encaminhou a decisão ao plenário do STF e à Procuradoria-Geral da República (PGR).

O presidente da Corte, Edson Fachin, cancelou a sessão do dia e tenta construir um armistício entre os ministros. A Advocacia-Geral da União (AGU) também apresentou recurso a Fachin para suspender a decisão de Mendonça, argumentando que os relatórios citados pelo ministro já estavam sob análise da Presidência do STF.

O caso Master ganhou contornos políticos após a divulgação de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco. Moraes chegou a pedir que Mendonça fosse investigado no inquérito das fake news, mas Fachin retirou o pedido e avocou a condução dos próximos passos, determinando prazo de cinco dias úteis para manifestações de Mendonça, Moraes, PGR e PF.