A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) passou a ocupar o centro da disputa presidencial e levou as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) a redefinir estratégias. Parte da equipe que trabalha pela reeleição de Lula defende que o presidente marque distância do ministro Alexandre de Moraes, enquanto a campanha de Flávio pretende ampliar os ataques ao magistrado no discurso e na propaganda eleitoral. Interlocutores dos dois lados avaliam que o tema deve permanecer no debate público nas próximas semanas.

Estratégias opostas nas duas campanhas

No entorno de Flávio Bolsonaro, a leitura é de que quanto mais tempo a crise permanecer no noticiário, melhor para a candidatura. A campanha pretende associar politicamente Moraes a Lula e manter o STF na comunicação diária e no horário eleitoral, em uma estratégia resumida nos bastidores pela expressão “Lula é Moraes”. A orientação interna, porém, é evitar críticas ao Supremo como instituição e concentrar o fogo no ministro e em decisões específicas de magistrados.

No ato de 7 de Setembro, em São Paulo, Flávio afirmou que a Corte “não é Alexandre” e que é preciso “proteger o STF de Alexandre de Moraes”. O senador também disse ser alvo de perseguição política no caso “Dark Horse” e afirmou que tentariam uma “terceira facada” contra ele e seus aliados, em referência ao atentado contra Jair Bolsonaro em 2018 e ao 8 de janeiro.

Do lado de Lula, o problema é de natureza diferente. Por ocupar a Presidência, o petista precisa lidar com os efeitos institucionais das decisões do Supremo enquanto sua campanha calcula o custo eleitoral de uma associação com Moraes. Integrantes do grupo avaliam que a condição de presidente limita críticas diretas ao ministro, mas parte da campanha sustenta que o momento exige posição mais enfática e distância clara do magistrado.

Governo recorre ao STF e disputa pela cúpula da PF amplia a tensão

O governo já entrou institucionalmente na disputa. Depois que o ministro André Mendonça determinou o afastamento preventivo da cúpula da Polícia Federal, a Advocacia-Geral da União (AGU) recorreu sob o argumento de que a nomeação e a demissão do diretor-geral da corporação são prerrogativas do presidente da República.

A tensão aumentou com a recondução de Andrei Rodrigues ao comando da PF, um dia depois do afastamento determinado por Mendonça. Andrei retornou ao cargo após o ministro Edson Fachin suspender as decisões que previam seu afastamento. Antes, Flávio Dino já havia determinado a recondução, citando o risco de prejuízo a diligências urgentes, entre elas a apuração sobre emendas parlamentares relacionadas ao filme “Dark Horse”.

Na quarta-feira (9), em Juiz de Fora (MG), Flávio Bolsonaro criticou a decisão de Dino, acusou o ministro de interferir no processo e afirmou que Lula quer “ganhar no tapetão”.

Lula sobe o tom e cobra transparência nas apurações

Apesar das limitações apontadas por aliados, Lula elevou o tom na quarta-feira (9) e defendeu a quebra completa do sigilo das investigações do chamado “caso Master”, cobrando transparência diante do possível impacto das apurações na disputa eleitoral. A manifestação, publicada no X, não citou Moraes.

O presidente do PT e coordenador da campanha, Edinho Silva, classificou o momento como crise institucional. Ele defendeu a apuração de todas as denúncias e disse confiar na atuação do presidente do STF, Edson Fachin, para garantir o funcionamento da Corte e a transparência dos processos. Parte da campanha considera a crise um “problema instalado, de difícil solução”, e há aliados que veem no episódio espaço para Lula reforçar a defesa de uma reforma do Judiciário.

Investigação sobre o filme preocupa aliados de Flávio

Se a crise é vista como eleitoralmente favorável, ela também acende alertas na campanha de Flávio Bolsonaro. A volta de Andrei Rodrigues à direção-geral da Polícia Federal reativou a preocupação com as investigações ligadas ao “Dark Horse”, entre elas o vínculo do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, que transferiu dinheiro para financiar o filme. Interlocutores temem que o avanço da apuração resulte em medidas contra pessoas ligadas à produção e volte a colocar Flávio no centro do caso, incluindo eventuais desdobramentos envolvendo integrantes da produtora e o deputado Mario Frias (PL-RJ), produtor executivo da obra.

Ainda assim, a campanha avalia que os ganhos eleitorais da crise superam os riscos. Parte dos aliados considera que Flávio vive um momento confortável na disputa, o que lhe daria tempo para trabalhar uma imagem mais moderada e reduzir a rejeição. Interlocutores também avaliam positivamente a entrada do marqueteiro Duda Lima na campanha. Há, por outro lado, quem considere que um eventual afastamento de Moraes poderia favorecer Lula, ao retirar do centro da campanha um personagem que Flávio pretende associar ao presidente.

Adversários medem o efeito da crise nas urnas

Entre os demais candidatos, a avaliação é que a crise altera o ambiente da política eleitoral e corre o risco de reforçar a polarização. A equipe de Augusto Cury (Avante) informou que o escritor não entrará na discussão por considerá-la muito polarizada e que a campanha está focada em ficar longe de uma crise que envolva os dois lados.

A equipe de Renan Santos (Missão) avalia que a crise institucional é positiva para a posição antissistema do candidato, embora fontes da campanha considerem que o país vive um momento despolitizado e que a sociedade não se importa com a gravidade do caso. Em entrevista na terça-feira (8), Renan afirmou que o próximo presidente da República “deverá ir para o enfrentamento contra o STF” e defendeu o impeachment de ministros do Supremo.

Ronaldo Caiado afirmou que “o cenário político mudou totalmente” e acusou Lula e Flávio de usarem a crise para escapar do debate eleitoral. Segundo ele, a campanha pretende intensificar a ofensiva política a partir da próxima segunda-feira (14), concentrando o discurso em corrupção. “O que a gente tem que mostrar é que a desordem dos Poderes e essa crise do STF e do Congresso não podem esconder o fato eleitoral, que é a campanha agora”, disse.

A campanha do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema avalia que a crise não provocou mudança de estratégia, porque as críticas feitas pelo candidato já faziam parte de sua linha de atuação desde o ano passado. A ideia é manter o assunto em evidência e apresentar Zema como o candidato capaz de enfrentar o que a campanha classifica como excessos. O candidato tem divulgado nas redes sociais uma série de vídeos produzidos com inteligência artificial chamada “Intocáveis”, nos quais critica o STF e aborda o caso Master.

O que observar daqui para frente

O desfecho da disputa judicial sobre a cúpula da Polícia Federal e o andamento das investigações do “Dark Horse” e do “caso Master” devem definir o peso da crise no calendário eleitoral. Nos bastidores, as duas principais campanhas trabalham com cenários distintos: uma aposta no prolongamento do tema no debate público, a outra na necessidade de separar a imagem do presidente das decisões do Supremo.