Os candidatos ao governo do Ceará Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT) ficaram frente a frente nesta quarta-feira (9) no debate PontoPoder, promovido pelo Sistema Verdes Mares, em um dos confrontos diretos mais aguardados da campanha pelo Palácio da Abolição. O encontro, realizado em um momento decisivo da disputa estadual, foi marcado por críticas diretas, troca de acusações e discussões acaloradas entre o tucano e o governador.
O formato privilegiou o embate: foram quatro blocos, dois com temas livres e dois com temas determinados por sorteio, além das considerações finais. O mediador Inácio Aguiar precisou intervir mais de uma vez para conter os dois candidatos.
Dedo na cara e troca de acusações
A tensão escalou quando os candidatos puderam circular pelo estúdio e se aproximaram fisicamente. Elmano acusou Ciro de querer esconder aliados, citando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O candidato do PSDB, por sua vez, levou ao debate investigações envolvendo nomes da base do governador, entre eles o deputado federal Junior Mano (PSB), suplente de Cid Gomes na candidatura ao Senado, e chamou o rival de mentiroso.
Foi nesse momento que Elmano disse “baixa o dedinho”. Ciro respondeu que estaria “na sua cara”. Os dois se exaltaram, ficaram de pé e chegaram a apontar o dedo próximo ao rosto um do outro. O mediador interveio e pediu que os candidatos voltassem ao púlpito.
Questionado sobre a associação com Bolsonaro, Ciro afirmou que já recebeu direito de resposta pela “mentira que ele vive repetindo”. O tucano disse ainda que tem uma “aliança contraditória” no Ceará e que “aceita o apoio de qualquer cearense”.
Instituto Mirante e o embate sobre aliados
Ciro abriu o debate questionando o Instituto Mirante, responsável pela administração de equipamentos culturais no Ceará e presidido por Tiago Santana, irmão do senador Camilo Santana. O tucano perguntou se o caso seria um “exemplo de nepotismo e de corrupção” e afirmou que a entidade gerencia “quase R$ 500 milhões”.
Elmano classificou a acusação como “exemplo grave de mentira”. Disse que organizações sociais administram equipamentos do Ceará “desde o Governo Tasso” e afirmou ter “orgulho” do gerenciamento de Tiago Santana. O petista lembrou ainda que, no Governo Cid Gomes (PSB), Ciro foi secretário de Saúde e administrou R$ 3 bilhões. “Você acha isso normal. Já eu contratar alguém especializado na área, você quer questionar a idoneidade de uma pessoa séria”, declarou.
Na sequência, Ciro indagou sobre Chagas Vieira, coordenador de campanha de Elmano e candidato a 1º suplente de Luizianne Lins (Rede), alegando que ele teria comprado “um patrimônio avaliado R$ 10 milhões”. O petista negou a compra, afirmou que o adversário vai “insistir em muita mentira”, falou em “calúnia grave” e disse esperar que o debate tratasse dos desafios do Ceará, e não daquele tipo de “baixaria mentirosa”.
Ciro também afirmou que o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), “omitiu da Justiça Eleitoral” patrimônio, e cobrou explicações do adversário. Elmano respondeu que deixaria o tucano “com a mentira dele”, defendeu o prefeito como “sério e correto” e criticou o ex-prefeito José Sarto (PSDB), aliado de Ciro, a quem atribuiu o fechamento de hospital e a falta de comida no Instituto José Frota (IJF).
Bebeto do Choró e a disputa sobre investigações
Ao ser questionado sobre Bebeto do Choró, Elmano afirmou que quem ajuizou a ação contra o ex-prefeito foi o PT e lembrou que o processo o deixou inelegível. O petista disse que a defesa de Bebeto era feita pelo “partido do Capitão Wagner”, que ele apresentou como candidato ao Senado da chapa de Ciro, e pelo partido do deputado federal André Fernandes (PL). Ciro rebateu: “O Bebeto do Choró está foragido há quase dois anos e ele não acha de prender”, afirmou, acrescentando que o adversário “mente que nem treme”. O tucano citou ainda que um “parceiro do Bebeto do Choró” foi preso e aguarda uma “delação premiada”.
O confronto se repetiu em torno dos deputados federais Yury do Paredão e Júnior Mano. Ciro citou investigações contra Júnior Mano e verbas que teriam sido direcionadas a Yury do Paredão. Elmano respondeu que a acusação era mentira e que não há “comprovação de desvio”. Ciro insistiu nas acusações, pediu que se verificasse “quem é mentiroso e descarado”, e o petista retrucou que o adversário “só fala dos aliados”. Na discussão sobre Roberto Cláudio, candidato a vice-governador na chapa de Ciro, Elmano afirmou que ele “está respondendo processo”, enquanto o tucano relembrou falas anteriores do petista sobre suposto envolvimento em hospital de campanha.
Saúde, câncer no Interior e a disputa sobre Lula e Bolsonaro
Na rodada de Saúde, Elmano afirmou que tem levado “radioterapia e tratamento do câncer” a diversas regiões do estado e perguntou qual seria a proposta de Ciro para a área. O tucano respondeu que Saúde é “botar as coisas para funcionar com correção, com humanidade” e disse que o adversário “não começou nem terminou nenhum hospital regional”.
Ciro relembrou a própria gestão e a de Tasso Jereissati, com ações de combate à mortalidade e o programa Agente Comunitário de Saúde, e acusou Elmano de fazer “bajulação eterna do Lula” e de apenas “constrói prédios”. Segundo ele, o governo petista fechou hospitais, deixou o Hospital Geral de Fortaleza com “porta fechada” e não colocou em funcionamento todos os leitos do Hospital da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Elmano rebateu dizendo que o Hospital Universitário está “100% funcionando para o povo cearense” e que quem fechou hospitais foi o ex-prefeito José Sarto, aliado de Ciro.
O petista afirmou ainda que Ciro quer ver o presidente Lula “longe do Ceará” e destacou investimentos federais na Saúde, além da reabertura de hospitais durante a sua gestão. O tucano criticou o que chamou de “muleta” do adversário: “Eu queria ver o Elmano responder qualquer pergunta sem falar em Lula e Bolsonaro”, disse, afirmando que o rival não presta contas do governo. Ciro também acusou a gestão estadual de “destruir” as policlínicas, entregues a “cabos eleitorais”.
Sobre o tratamento de câncer, Elmano disse que 30 mil pacientes são tratados no Interior do Ceará, citando cidades como Jaguaribe, Crateús e Quixeramobim, e prometeu ampliar o serviço para outras regiões, além de entregar o Hospital do Idoso e finalizar hospitais já em construção. Ciro afirmou que o adversário quer construir prédios “porque a propina corre solta” e disse que pacientes, como mulheres com gravidez de alto risco e crianças de alto risco, ainda precisam se deslocar para Fortaleza. Elmano respondeu que o tucano “desconhece” o Hospital Universitário, que realizou a operação de uma criança sem a metade do coração.
Educação, tempo integral e a briga sobre professores
No bloco de temas sorteados, a Educação abriu a rodada. Elmano afirmou que 152 municípios cearenses têm “100% de escolas de tempo integral”, prometeu transformar todas as unidades em escolas profissionalizantes e questionou a aposta de Ciro, quando governador, em “colocar uma televisão dentro da sala de aula”.
Ciro chamou a fala de “mentira” e disse que, há 30 anos, a medida foi uma solução encontrada quando não havia “profissional qualificado”, aplicada em “casos raríssimos” para não deixar estudantes “sem aula”. Elmano acusou o adversário de não querer discutir o próprio governo, na década de 1990, e disse que Ciro “pagava um salário mínimo a um professor”. O petista defendeu o concurso para professor, o plano de cargos e carreiras do magistério e a entrega de tablets, e afirmou que o Ceará é “referência de Educação desse país”.
Ciro afirmou que o adversário tem “alergia patológica à verdade” e o chamou de “cabeça de prego”. Disse que foi governador há 30 anos, que construiu 20 hospitais e que pagava aos professores “igual às mais ricas escolas da rede privada de Fortaleza”. Segundo o tucano, Elmano “deveria ter vergonha” do salário pago aos docentes. Elmano respondeu que a mãe é professora do estado e “a vida inteira só ganhou salário mínimo”, inclusive na gestão de Ciro, e afirmou que contratou 2,4 mil professores e fará concurso com 3 mil vagas. O petista disse que Ciro e Tasso Jereissati “demitiram foi 11 mil” e que, enquanto o tucano fez 20 hospitais, ele fez 31.
Ciro voltou a chamar Elmano de “mentiroso” e afirmou que “dois de cada três professores do estado do Ceará estão com relação de professor temporário”. Também disse que o concurso citado pelo rival é uma “seleção, que não dá estabilidade” e que a Educação no Ceará “fez a curva para baixo”. O tucano acusou o governo de “lotear” regionais de administração da Educação a “cabos eleitorais”, o que Elmano classificou como “totalmente mentira”. Houve novo bate-boca e nova intervenção do mediador. O tucano disse ser “constrangedor dois candidatos a governador ficarem chamando um ao outro de mentirosos” e apresentou propostas de segurança pública, como investir em “inteligência para mapear a cabeça do crime organizado” e a “retirada de circulação” de líderes criminosos.
Moradia e o cenário da corrida eleitoral
No tema Moradia, Ciro falou da construção de 70 mil moradias no Governo Elmano e perguntou se o adversário “mentiu de novo”. Elmano respondeu que a Caixa Econômica tem “endereço, município, local e a empresa” responsável pelas habitações, disse que Ciro tem “vontade grande de atacar as pessoas” e associou o tucano a Flávio Bolsonaro (PL), candidato à presidência. “Esse não fez nenhuma casa”, afirmou, citando o Minha Casa, Minha Vida e o programa estadual Entrada Moradia, no qual o governo do Ceará paga parte da entrada da casa.
Ciro citou o montante de R$ 1 bilhão — referência ao valor pago pelo Executivo cearense em aluguéis de veículos — e disse que, com esse valor, faz “segurança pública”. O tucano voltou a falar em “desvio de dinheiro” no estado e afirmou que Elmano “construiu 2,6 mil casas”.
Pesquisa Datafolha divulgada na semana passada mostrou a redução da vantagem de Ciro: o tucano marca 46% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto o governador tem 37%. A diferença entre eles, que era de 19 pontos percentuais em meados de agosto, caiu para 9.
O PT buscou fortalecer a chapa de Elmano nos últimos meses, em articulação que tem o ex-governador Camilo Santana na linha de frente, e uma das frentes de ação foi a costura da candidatura de Cid Gomes à reeleição. Embora tenha uma gestão bem aprovada, Elmano enfrenta a força do espólio político de Ciro no estado. O tucano aposta no discurso da segurança pública e em críticas aos governos petistas na campanha e encabeça uma chapa composta também pela federação União-PP e o PL. A campanha do governador, por sua vez, aposta na avaliação positiva do governo e na participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em agendas para alavancar as intenções de voto, enquanto a associação de Ciro ao bolsonarismo deve seguir como tema do confronto.





