Fibra dourada da seda do mar recriada em laboratório
Imagem da seda do mar recriada, com brilho dourado, obtida por pesquisadores da POSTECH

Pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Pohang (POSTECH), na Coreia do Sul, conseguiram reproduzir a lendária seda do mar, uma fibra dourada que foi um dos materiais de luxo mais valiosos da Antiguidade. O feito, publicado na revista Advanced Materials, também revelou o mecanismo por trás de seu brilho característico e da excepcional durabilidade da cor, que se mantém por séculos sem desbotar. A descoberta representa um marco na ciência dos materiais e reabre possibilidades para o uso têxtil de fibras naturais raras.

O que é a seda do mar

Conhecida como ‘fibra dourada do mar’, a seda do mar era produzida a partir do bisso, conjunto de filamentos que moluscos da espécie Pinna nobilis utilizam para se fixar em rochas no Mediterrâneo. Sua combinação de brilho dourado, leveza e resistência a tornou um dos tecidos mais exclusivos do mundo antigo, utilizada por imperadores e em relíquias religiosas, como o Santo Rosto de Manoppello, na Itália. Com o declínio populacional da espécie, hoje ameaçada e protegida pela União Europeia, a produção tradicional praticamente desapareceu.

Para superar a escassez, a equipe sul-coreana buscou uma alternativa em outro molusco, a Atrina pectinata, cultivada comercialmente nas águas costeiras da Coreia do Sul. Os filamentos desse animal apresentaram propriedades físicas e químicas muito semelhantes às da espécie mediterrânea, permitindo que os cientistas desenvolvessem um processo para recriar a aparência da antiga seda do mar.

O segredo do brilho dourado

Diferentemente da maioria dos tecidos, a seda do mar não depende de pigmentos ou corantes para adquirir sua tonalidade dourada. A cor é produzida por um fenômeno conhecido como coloração estrutural, no qual estruturas microscópicas na fibra interagem com a luz e geram reflexos brilhantes. Os cientistas identificaram pequenas estruturas proteicas organizadas em camadas, chamadas de fotoninas, como responsáveis pelo efeito.

O princípio é semelhante ao observado em bolhas de sabão, asas de borboletas e penas de algumas aves, cujas cores surgem da forma como a luz é refletida, e não da presença de pigmentos. Essa descoberta explica por que a cor da seda do mar dura tanto tempo: como o tom dourado faz parte da própria estrutura do material, e não de um revestimento externo, ele permanece preservado por períodos muito longos, mesmo após séculos.

Implicações para a indústria têxtil

A recriação da seda do mar abre caminho para o desenvolvimento de novos materiais sustentáveis e de alto valor agregado. A técnica utilizada pela POSTECH pode ser aplicada a outras fibras naturais, substituindo corantes químicos por coloração estrutural, o que reduziria o impacto ambiental e aumentaria a durabilidade dos tecidos. Embora ainda não haja previsão para comercialização, o avanço representa um passo significativo na interseção entre biologia e engenharia de materiais.

O estudo também reforça a importância da conservação de espécies marinhas, uma vez que a alternativa encontrada na Atrina pectinata demonstra que é possível obter propriedades similares sem recorrer a espécies ameaçadas. A seda do mar autêntica, produzida a partir da Pinna nobilis, continua protegida, mas sua contraparte recriada pode um dia vestir novamente um imperador moderno.

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