O furto de cabos de energia deixou pelo menos 109 escolas da rede estadual do Rio de Janeiro sem eletricidade ao longo deste ano, em levantamento do O GLOBO. Em parte dessas unidades, a interrupção se estendeu por até dez meses. O cenário obrigou colégios a encurtar a jornada, suspender refeições quentes e transferir turmas do noturno para o ensino remoto.

Mais da metade das escolas atingidas fica na Baixada Fluminense. No Ciep 168 Ilda Silveira Rodrigues, em Nova Iguaçu, os criminosos levaram os cabos há um mês e a unidade continua funcionando sem luz.

A estudante Larissa Rodrigues, 17 anos, do 1º ano do ensino médio, conta que a claridade das janelas passou a substituir a iluminação das salas e que, nos dias de céu fechado, os colegas recorrem à lanterna do celular para enxergar o quadro. A rotina da escola mudou por completo: o período integral, que se encerrava às 16h30, agora termina às 11h30; as turmas noturnas migraram para o formato remoto; os projetos que dependiam de computadores pararam; e o almoço deixou de ser servido, porque não há como armazenar os insumos.

Para Larissa, que pretende prestar vestibular para medicina, o tempo reduzido de aula impede que os professores avancem no conteúdo de cada disciplina. Ela cita ainda a interrupção de atividades como as aulas de programação.

O mesmo caminho foi adotado no Ciep 498 Irmã Dulce, em Itaguaí, que passou cerca de dez meses no escuro. O furto ocorreu ainda em 2025, e a escola recorreu a um gerador para concluir aquele ano letivo. Quando o período seguinte começou, porém, a unidade voltou a ficar sem energia. Conforme a mãe de uma aluna do 1º ano, as aulas eram canceladas quando a escuridão tornava o trabalho impossível, e os estudantes recebiam orientação para levar água gelada de casa nos dias mais quentes. Parte dos alunos deixou a escola diante da preocupação com a preparação para o vestibular.

Na maioria dos colégios sem energia, as refeições passaram a ser substituídas pela merenda fria emergencial. Em junho, uma equipe do Conselho Estadual de Alimentação Escolar esteve no Ciep 336 Octavio Malta, em Campo Grande, na Zona Oeste, que ficou sete meses sem luz depois do furto dos cabos. Uma conexão emergencial puxada da clínica de saúde ao lado garantia apenas a iluminação básica, insuficiente para manter geladeiras e freezers ligados.

O cardápio previsto para aquele dia trazia arroz, feijão-carioca, chuchu refogado, iscas de carne ao sugo e fruta. Sem condições de preparar ou conservar os alimentos, a escola serviu pão de forma com margarina, achocolatado e melancia. Um documento interno da Superintendência de Gestão das Regionais Administrativas alertou que a retirada de refeições quentes provoca perdas nutricionais severas, pela falta de proteínas, leguminosas e hortaliças no menu. A energia no Ciep 336 só foi restabelecida em 27 de julho.

Com a proximidade das eleições, o problema ganhou outro contorno. Muitas dessas unidades devem funcionar como locais de votação ou como estruturas de apoio à Justiça Eleitoral. O assunto levou a Secretaria de Educação do estado (Seeduc) a enviar ofício na última semana ao Ministério Público do Rio solicitando apoio. No documento, a pasta sustenta que garantir o funcionamento dos colégios deixou de ser uma questão apenas educacional e passou a afetar a preparação da infraestrutura necessária ao pleito.

Especialista em gestão educacional e diretora-executiva do Instituto João e Maria Backheuser, Teca Pontual avalia que o cenário revela descaso com a estrutura da educação pública fluminense. Ela observa que o Rio de Janeiro, dono do segundo maior PIB do país, não consegue oferecer um ensino de qualidade mínima aos alunos.

A especialista acrescenta que infraestrutura e aprendizagem caminham juntas: sem eletricidade, faltam iluminação, internet e recursos para o planejamento das aulas. Teca lembra ainda que a alimentação integra esse conjunto, já que uma criança com fome encontra dificuldade para se concentrar.