Duplicatas deixam a informalidade e ganham escala no crédito estruturado

A engrenagem do capital de giro no Brasil está prestes a passar por uma reorganização estrutural. As duplicatas, títulos emitidos a partir de vendas a prazo de mercadorias e serviços, movimentam cerca de R$ 10 trilhões por ano no país, mas historicamente operaram com baixa padronização e pouca rastreabilidade. Hoje, apenas cerca de 10% desse volume é negociado em estruturas formais de financiamento. Em paralelo, o crédito estruturado ganhou relevância: a indústria de FIDCs chegou perto dos R$ 800 bilhões em patrimônio líquido em 2025, ampliando o papel do mercado de capitais no financiamento da economia real.

O ponto de virada veio no fim de 2024, quando o Banco Central do Brasil aprovou a Convenção de Duplicatas Escriturais. A norma estabelece regras para emissão e registro eletrônico obrigatório desses títulos em entidades autorizadas. A B3 estruturou um calendário de implementação a partir de 2026, começando por empresas com faturamento anual acima de R$ 300 milhões, com avanço gradual por porte. Na prática, o registro passa a ser condição prévia para antecipação, cessão ou uso da duplicata como lastro, criando trilha de dados e elevando a segurança das operações.

Crédito mais eficiente e fora do banco

Com a duplicata registrada, o risco deixa de ser percebido de forma difusa e passa a ser mensurável. “A duplicata sempre foi um instrumento cotidiano das empresas, mas o Brasil operava com um mercado grande e pouco padronizado; a escrituralização muda esse patamar porque traz rastreabilidade e validação, e isso se traduz em eficiência de crédito”, afirma Gabriel Padula, CEO do Grupo Everblue.

A companhia atua na estruturação e operação de soluções de crédito baseadas em recebíveis, incluindo FIDCs, na interseção entre tecnologia, governança e mercado de capitais. “Quando você combina registro, dados e monitoramento, o recebível deixa de ser uma promessa difusa e vira um ativo com controle; isso atrai mais liquidez e amplia o leque de financiadores além do banco tradicional”, diz Padula.

Efeito em cadeia na economia real

A expectativa é de uma transição em ondas, com grandes empresas se adequando primeiro e, na sequência, médias e pequenas. Com a infraestrutura amadurecida, o mercado projeta maior concorrência entre bancos, FIDCs, fintechs e plataformas, redução de fraudes e padronização operacional. Se o cronograma regulatório for cumprido, parte relevante dos R$ 10 trilhões hoje fora do sistema formal tende a migrar para estruturas registradas, reforçando os recebíveis como um dos principais motores de liquidez do crédito empresarial brasileiro.