Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os Treasuries, voltaram a operar em máximas históricas nesta quarta-feira (9). O yield do título de 10 anos, referência global para empréstimos imobiliários, financiamento de veículos e dívidas de cartão de crédito, atingiu 4,839%, maior nível desde novembro de 2023. O movimento reforça a percepção de risco entre investidores diante da combinação entre inflação persistente, trajetória fiscal dos EUA e pressão nos preços de energia.

O rendimento do título de 30 anos, referência para o mercado de hipotecas de longo prazo, também subiu, reaching 5,292%. Já o yield da nota de 2 anos, mais sensível à política monetária do Federal Reserve, operava em alta de 1 ponto-base ante o fechamento anterior, a 4,415%.

Recompra de títulos longos pelo Tesouro

A escalada dos juros ocorre em meio ao anúncio do Departamento do Tesouro norte-americano de que fará a recompra de US$ 6 bilhões em títulos de 10 e 20 anos. A operação está prevista para a próxima quinta-feira (10) e corresponde ao triplo do montante habitualmente utilizado nas recompras periódicas. O Tesouro também informou que as operações futuras terão valor mínimo de US$ 4 bilhões.

No mês passado, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, já havia sinalizado a intenção de dobrar, pelo menos, o volume das recompras de títulos de prazo mais longo, com possibilidade de montantes superiores a US$ 4 bilhões por emissão. As operações de recompra entraram em vigor nesta quarta-feira (9) e devem se estender até 4 de novembro.

Visão do mercado e leitura política

Apesar da iniciativa do Tesouro, estrategistas avaliam que o impacto sobre os juros dos Treasuries deve ser limitado no curto prazo. Para o JP Morgan, não há evidências de problemas de funcionamento no mercado de títulos que justifiquem, neste momento, uma ampliação das recompras de títulos longos. Em relatório, os analistas do banco destacaram que as recompras têm como objetivo principal melhorar a liquidez e o funcionamento do mercado, oferecendo aos investidores uma forma previsível de vender títulos mais antigos, os chamados off-the-run, de volta ao governo.

“No entanto, as métricas analisadas não apontam para uma deterioração relevante da liquidez. A dispersão dos preços dos títulos longos está próxima das mínimas de vários anos, enquanto a diferença de valuation entre títulos on-the-run e off-the-run também não mostra grandes distorções”, escreveram os analistas. Na avaliação do banco, a explicação para a intervenção é política: “O Tesouro parece estar desconfortável com a alta dos rendimentos de longo prazo, que vai contra o objetivo declarado pelo secretário Scott Bessent.”

Nas últimas semanas, a disparada dos rendimentos dos Treasuries refletiu a crescente preocupação dos investidores com a inflação e a trajetória fiscal dos EUA, em um cenário marcado por tensões geopolíticas e pela pressão dos preços de energia, impulsionada pela recente valorização do petróleo. O avanço dos juros longos americanos também amplia o impacto sobre investimentos globais, ao elevar o custo de oportunidade de ativos de risco e pressionar as condições financeiras internacionais.