
Os juros dos títulos públicos negociados no Tesouro Direto, uma das principais alternativas de investimentos em renda fixa no país, abriram a semana em trajetória de queda, com os papéis prefixados registrando os ajustes mais fortes do pregão desta segunda-feira (31). O movimento é influenciado pela revisão para baixo das projeções do Boletim Focus para inflação e crescimento econômico no curto prazo, além da expectativa do mercado pela divulgação do PIB do segundo trimestre, marcada para terça-feira (1º). No ambiente externo, a escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã e a reprecificação das apostas para a política monetária americana adicionam cautela aos negócios.
Ao longo da manhã, o Tesouro Prefixado 2032 passou a render 14,54% ao ano, contra 14,60% da sessão anterior, enquanto o Prefixado com Juros Semestrais 2037 recuou de 14,62% para 14,56%, ambos com redução de 6 pontos-base, a maior entre os vencimentos monitorados. O Prefixado 2029 permaneceu estável em 14,13%.
O movimento também atingiu os títulos indexados à inflação. O IPCA+ 2040 caiu de 7,46% para 7,42%, a baixa mais expressiva desse grupo. O IPCA+ com Juros Semestrais 2045 passou de 7,46% para 7,43%, o vencimento de 2060 recuou de 7,32% para 7,29%, e o IPCA+ 2032 voltou a operar abaixo de 8%, ao atingir 7,97%. Completam a tabela o IPCA+ com Juros Semestrais 2037 em 7,65%, o IPCA+ 2050 em 7,25% e o Tesouro Selic 2031 com remuneração de SELIC mais 0,073% ao ano.
Focus traz revisão modesta e banco vê ancoragem fiscal fraca
O Boletim Focus divulgado nesta manhã mostrou mudanças discretas nas expectativas do mercado financeiro. A mediana das projeções para o IPCA de 2026 passou de 5,02% para 5,01%, enquanto a estimativa de crescimento do PIB para o mesmo ano caiu de 1,95% para 1,92%. As projeções para a Selic ao final de 2026 seguiram estáveis em 13,75% ao ano, patamar mantido há pelo menos quatro semanas.
Para o Goldman Sachs, porém, a melhora observada no boletim é marginal e está concentrada no horizonte menos relevante para a condução da política monetária. O banco aponta que a projeção para a inflação de 2027 subiu 3 pontos-base, para 4,285%, enquanto a de 2026 caiu apenas 1 ponto-base, com ambas permanecendo confortavelmente acima da meta de 3%.
A análise do Goldman Sachs também destaca que a mediana para o resultado primário segue em território deficitário entre 2026 e 2029, o que contraria as metas de resultado não negativo anunciadas pelo governo. Na avaliação da instituição, esse quadro evidencia a baixa credibilidade do atual arcabouço fiscal e seu fraco efeito de ancoragem sobre as expectativas de longo prazo.
PIB do segundo trimestre é o próximo teste doméstico
Com o Focus digerido, o grande evento da agenda doméstica será a divulgação do Produto Interno Bruto referente ao segundo trimestre, programada para esta terça-feira (1º). O Itaú BBA projeta crescimento de 0,5% na comparação com o trimestre anterior, com ajuste sazonal, e alta de 2% na base anual.
A leitura dos números de atividade será importante para calibrar as expectativas em torno do ciclo de juros e da trajetória fiscal. Um PIB mais forte pode reforçar a resiliência da economia, mas também tende a manter a pressão sobre o Banco Central em um ambiente de inflação ainda distante da meta.
Juros americanos e a sombra de Jackson Hole
No exterior, a referência é a forte reprecificação ocorrida na última sexta-feira, após o discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole. O rendimento do Treasury de dois anos, mais sensível às expectativas de política monetária, saltou mais de 12 pontos-base naquele dia e encerrou perto de 4,354%. Nesta segunda-feira, os juros americanos operam próximos da estabilidade, com o papel de dez anos em 4,724%, o de 30 anos em 5,221% e o de dois anos recuando mais de 2 pontos-base, para 4,323%.
A mudança nas apostas do mercado foi expressiva. Pela ferramenta FedWatch da CME, a probabilidade atribuída a uma alta de juros pelo Federal Reserve na reunião de setembro chegou a 59,9%, ante 35,4% no dia anterior ao discurso de Warsh.
Essa leitura, contudo, não é unânime entre os grandes gestores. O diretor de investimentos do UBS Global Wealth Management, Mark Haefele, avalia que o cenário base da casa segue sendo de manutenção dos juros neste ano, com o progresso consistente da inflação subjacente oferecendo suporte a essa visão. Segundo ele, embora o risco de uma alta em setembro tenha aumentado, os dados mais recentes continuam compatíveis com um processo de desinflação, o que reforça o argumento para travar retornos elevados nos níveis atuais.
Geopolítica, petróleo e eleições movimentam o cenário
O conflito no Oriente Médio voltou a dominar o noticiário internacional depois que os Estados Unidos lançaram ataques contra alvos iranianos durante a noite, os primeiros em semanas. Teerã afirmou ter revidado com ataques contra bases americanas na Jordânia. O reflexo imediato foi visto nas cotações do petróleo: o Brent subiu 3% e passou a ser negociado acima de US$ 91 por barril, enquanto o WTI avançou 3%, superando US$ 86.
No cenário eleitoral brasileiro, pesquisa AtlasIntel divulgada nesta segunda-feira mostrou Lula com 43,4% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33,7% de Flávio Bolsonaro. Ambos recuaram em relação à rodada de julho, quando marcavam 44,9% e 35,8%, respectivamente. No segundo turno, a vantagem do petista é menor: 47,1% a 42,6%.
Além dos dados domésticos, a semana reserva nos Estados Unidos o índice ISM industrial e os dados de abertura de vagas JOLTS na terça-feira, seguidos pelo relatório de empregos payroll na sexta-feira, que deve orientar as próximas apostas sobre a trajetória dos juros americanos e, por consequência, o comportamento dos mercados globais.





