Pressionado pelo noticiário doméstico e pelo comportamento dos títulos públicos americanos, o mercado de juros futuros brasileiro encerrou a sessão desta sexta-feira, 4, com viés de baixa nas taxas. O movimento de redução de prêmios na curva, que já vinha se desenhando desde o início da semana, ganhou contornos mais definidos à medida que investidores passaram a pesar as implicações da disputa presidencial sobre o rumo da política fiscal e do controle da inflação.

No fechamento, a taxa do Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2028 estava em 13,585%, 1 ponto-base abaixo do ajuste anterior, de 13,595%. O contrato mais longo, com vencimento em janeiro de 2035, terminou o dia em 14,255%, com recuo de 3 pontos-base na comparação com os 14,289% da véspera. No acumulado da semana, as quedas somaram 19 e 33 pontos-base, respectivamente, o que evidencia um reposicionamento relevante dos agentes financeiros diante do calendário eleitoral e das mudanças no cenário externo.

Payroll forte nos EUA eleva juros dos Treasuries

Pela manhã, o relatório de empregos dos Estados Unidos trouxe números bem acima das expectativas. Foram abertas 162 mil vagas fora do setor agrícola em agosto, contra uma projeção de apenas 56 mil postos levantada por economistas ouvidos em pesquisa. A taxa de desemprego americana ficou em 4,1%, exatamente no patamar esperado pelo mercado, reforçando a leitura de que a maior economia do mundo segue operando com dinamismo.

A resposta do mercado de renda fixa americano foi imediata. Os rendimentos dos Treasuries passaram a subir, com destaque para os papéis de curto prazo, em meio ao aumento das apostas de que o Federal Reserve pode elevar os juros em um horizonte próximo. Por volta das 16h52, o Treasury de dois anos, referência para as expectativas de política monetária, operava em alta de 4 pontos-base, a 4,377%.

A abertura dos juros externos costuma funcionar como um vetor de alta também para a curva brasileira, mas o movimento doméstico de queda prevaleceu. Na prática, os investidores locais seguem hierarquizando o noticiário político-eleitoral como o principal fator de formação de preço neste momento, o que acabou se sobrepondo ao impacto do payroll sobre os prêmios de risco.

Datafolha reduz vantagem de Lula e mexe com o mercado

O novo levantamento do Datafolha, publicado na noite de quinta-feira, 3, voltou a colocar a corrida presidencial no centro das atenções dos agentes financeiros. Na simulação de segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 46% das intenções de voto, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) soma 44%. Com margem de erro de 2 pontos percentuais, os dois estão em empate técnico, mas a distância numérica diminuiu em relação à sondagem anterior, quando os percentuais eram de 47% e 43%.

Parte relevante do mercado enxerga a reeleição de Lula como um obstáculo para a trajetória das contas públicas e para o controle inflacionário. Nesse contexto, qualquer sinalização de maior competitividade da oposição tende a ser lida de forma positiva pelos investidores, o que historicamente se traduz em apreciação do real ante o dólar e em compressão dos prêmios na curva de juros.

Os números da pesquisa circularam em um dia de forte oscilação na curva. O DI para janeiro de 2028 chegou a marcar a máxima de 13,640% às 9h46, uma alta de 5 pontos-base motivada pelos dados americanos. Pouco depois das 13h21, porém, a taxa recuou para a mínima de 13,560%, com queda de 4 pontos-base, em um movimento que acompanhou o arrefecimento dos rendimentos dos Treasuries fora das máximas do dia.

Disputa no STF entra no radar dos investidores

O Supremo Tribunal Federal também seguiu na lista de preocupações do mercado. O presidente da corte, ministro Edson Fachin, prometeu uma resposta institucional firme e rigorosa ao momento de turbulência vivido pelo tribunal, marcado pelo embate entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes. Cada um dos dois tem levantado suspeitas sobre a conduta do outro, o que ampliou o clima de desconforto no ambiente político e jurídico.

Nesta sexta-feira, Fachin retirou o pedido de investigação contra Mendonça do inquérito das fake news, conduzido por Moraes. A decisão ocorreu um dia depois de Moraes apontar supostos atos de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade praticados por Mendonça. Em movimento oposto, Moraes passou a ser questionado por suas supostas relações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro no âmbito do escândalo do Banco Master, processo relatado por Mendonça.

O desfecho desse conflito pode ter efeito direto sobre a eleição, uma vez que Flávio Bolsonaro é um dos principais críticos de Moraes, responsável pela relatoria do processo que resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado. A combinação entre o noticiário do tribunal e o calendário eleitoral tende a manter os ativos brasileiros em estado de alerta nos próximos dias.

Leitura do mercado: crise institucional vista por lente eleitoral

Em avaliação de Nicolas Gass, chefe de alocação de investimentos e sócio da GT Capital, o mercado está interpretando a crise no Supremo essencialmente por uma lente eleitoral, e não como um risco institucional capaz de gerar aversão generalizada a ativos brasileiros. Segundo ele, a precificação predominante entre investidores é a de que os episódios recentes aumentam a probabilidade de alternância de poder no comando do país.

Gass acrescentou que as mensagens envolvendo Alexandre de Moraes no caso Banco Master e sua relação com Daniel Vorcaro acabaram se transformando em combustível de campanha para Flávio Bolsonaro, que reforçou o discurso de crítica ao STF. A pesquisa Datafolha divulgada na véspera, na avaliação do gestor, consolidou esse cenário e ajudou a ancorar o movimento de queda nas taxas futuras brasileiras observado ao longo da semana.

Com o acirramento da disputa presidencial e a possibilidade de novos desdobramentos no front externo, a curva de juros brasileira deve permanecer sensível a qualquer novidade vinda de Brasília e de Washington. O comportamento das pesquisas eleitorais e a comunicação do Federal Reserve seguem como as duas grandes variáveis para o posicionamento dos agentes nas próximas semanas.