A gestora de ativos alternativos IG4 Capital apresentou à Oncoclínicas uma proposta de aporte de R$ 500 milhões que, se concretizada, lhe conferirá mais da metade dos direitos de voto na companhia de saúde. O movimento ocorre em paralelo ao acordo de recuperação extrajudicial que a empresa fechou com parte de seus credores na semana passada, envolvendo uma dívida total de R$ 5,1 bilhões acumulada por sucessivas aquisições.

Estrutura da operação e instrumentos financeiros

O desenho da proposta combina debêntures conversíveis e financiamento do tipo DIP (debtor-in-possession), instrumento típico para injetar liquidez em empresas em processo de reestruturação. As debêntures conversíveis permitirão à IG4 transformar parte do aporte em participação acionária, enquanto o DIP garante fôlego de caixa imediato. A obtenção da maioria dos votos, no entanto, depende de uma cessão do direito de exercício de voto por parte dos acionistas atuais, separando a titularidade econômica do controle político da companhia.

Trata-se, por ora, de uma proposta ainda não consumada. A estrutura apresentada pela IG4 prevê que a gestora reúna os direitos de voto sem necessariamente adquirir a totalidade das ações correspondentes, um mecanismo comum em operações de reestruturação societária. A Oncoclínicas não se pronunciou oficialmente sobre a oferta, que corre em sigilo entre os envolvidos.

Trajetória da IG4 no mercado de reestruturações

Fundada há dez anos por uma equipe de quatro especialistas em turnaround, a IG4 construiu reputação em ativos alternativos com foco em empresas em dificuldade financeira. A gestora participou de processos de reestruturação de grande porte, como os da Braskem e da Raízen, que juntos somam um endividamento combinado de R$ 127 bilhões. No setor de saúde, a IG4 já havia atuado ao fundar e desenvolver a Opy Health, rede que incorporou unidades hospitalares em dificuldade adquiridas pela própria gestora. Em agosto de 2023, a IG4 vendeu sua participação na Opy Health para um fundo do BTG Pactual.

A experiência prévia no segmento de saúde e o histórico em reestruturações complexas posicionam a IG4 como um player relevante para o processo da Oncoclínicas. A dívida de R$ 5,1 bilhões da companhia, resultado de uma agressiva estratégia de aquisições nos últimos anos, exigirá um plano de reestruturação robusto, que pode envolver alongamento de prazos, desconto nos valores devidos e injeção de novos recursos.

Impactos para o setor de saúde e mercado de capitais

A movimentação da IG4 sinaliza um movimento de consolidação no setor de saúde suplementar e hospitalar, que enfrenta pressão de custos e endividamento elevado. A entrada de um gestor especializado em reestruturação pode trazer governança mais rígida e foco em eficiência operacional, mas também levanta questionamentos sobre a diluição dos atuais acionistas e o futuro da estratégia de crescimento da Oncoclínicas.

Para o mercado de capitais, a operação demonstra a relevância dos instrumentos de dívida conversível e do financiamento DIP como ferramentas para viabilizar a recuperação de empresas endividadas. A proposta da IG4, se aprovada, poderá servir de referência para outras companhias em situação similar, especialmente nos setores de saúde e infraestrutura. Você pode acompanhar os principais desdobramentos e as notícias sobre economia em tempo real aqui na SpaceMoney.