Squadra aposta em MELI e Nubank e converte short em compra

A Squadra, gestora comandada por Guilherme Aché, informou a seus cotistas que Mercado Livre e Nubank entraram para o núcleo das maiores posições de seus fundos de investimentos. O movimento, revelado em carta divulgada no fim de semana, marca um momento raro para a casa: pela primeira vez, uma aposta vendida contra o Nubank foi convertida em posição comprada. Com R$ 16 bilhões sob administração, a gestora passou a enxergar nas duas companhias uma combinação de vantagens competitivas difíceis de replicar e times de gestão qualificados, segundo o documento.

A virada inédita no Nubank e a nova cara da carteira

Na avaliação da Squadra, o caso do Nubank é especialmente simbólico porque inverte uma trajetória que começou no lado vendido. A posição short, que em algum momento fez parte da estratégia da gestora, deu lugar a uma visão construtiva, e o banco digital passou a dividir o topo da carteira com Equatorial e Energisa, além do próprio Mercado Livre.

A mudança não foi tratada como uma simples troca de lado. A carta associa a nova leitura a qualidades estruturais das empresas, citando diferenciais competitivos relevantes e gestão experiente. O texto também indica que a decisão ocorre em um ambiente de forte ruído em torno das ações, com os papéis sofrendo pressão por causa das discussões sobre o impacto da inteligência artificial no setor.

Segundo a gestora, parte relevante do esforço de análise tem sido mapear quais serão as consequências diretas da IA para cada ativo da carteira e identificar os novos riscos criados por essa transformação. No curto prazo, a leitura é de que MELI e Nubank foram atingidos por correlações com índices e cestas de ações tratados pelo mercado como perdedores ou potenciais perdedores no campo da inteligência artificial.

Inteligência artificial: o novo filtro de análise da Squadra

A carta contextualiza o momento de pressão sobre os papéis. A gestora afirma que parte da queda recente das ações está ligada à percepção do mercado de que determinadas empresas podem ser prejudicadas pela inteligência artificial, ainda que essa leitura venha acompanhada de correlações de curto prazo entre os ativos e índices ou cestas classificadas como perdedoras nesse processo.

Para a Squadra, o potencial da IA é gigantesco, mas a implementação da tecnologia ainda é complexa para muitos casos de uso e perfis de companhias. Por isso, a qualidade da execução tende a ser o fator que vai separar ganhadores de perdedores. O momento é descrito como estimulante para gestores, que precisam acompanhar de perto a evolução dos negócios e formar opiniões com humildade intelectual para sustentar decisões de alocação.

Diante de incerteza dessa magnitude, a gestora avalia ser natural que investidores reduzam seus horizontes, o que pode provocar um de-rating nos múltiplos de algumas ações. Ao mesmo tempo, há efeitos que já aparecem de forma tangível ou iminente em certas companhias, e é nesse grupo que a Squadra posiciona Mercado Livre e Nubank.

Mercado Livre e Nubank: arquitetura pronta para a IA

Na visão da Squadra, os efeitos benéficos da IA sobre as duas empresas tendem a ser predominantes, principalmente no ritmo de crescimento das receitas. A gestora sustenta que essa vantagem não é acidental: ambas construíram pilares tecnológicos atuais, cultura fortemente orientada a dados, data lakes prontos para modelagem preditiva e times com alto nível de especialização, atributos raros no ambiente competitivo latino-americano.

O Nubank é citado como exemplo concreto dessa vantagem. Modelos mais sofisticados de concessão de crédito já aparecem em um portfólio maior, e o underwriting da companhia tem se mostrado superior ao dos concorrentes. Nos dados mais recentes acompanhados pela gestora, o banco digital voltou a apresentar desempenho melhor que a média do mercado no atual ciclo de alta da inadimplência.

Nubank: crédito mais sofisticado e expansão internacional

O Nubank já aparece nos números como um dos principais beneficiários de sua própria tecnologia, e a leitura da Squadra é que o underwriting superior ao de concorrentes representa uma fonte relevante de diferencial competitivo. Além do desempenho na carteira de crédito, a companhia vem mostrando capacidade de adaptação em mercados fora do Brasil.

Depois de alguns percalços e adaptações nos primeiros anos, o Nubank conseguiu construir no México uma franquia de depósitos de varejo bem-sucedida, atacando fatias de rentabilidade que colocam os concorrentes tradicionais em uma situação clássica de dilema do inovador. A experiência mexicana passou a ser usada pela gestora como evidência de que o modelo de negócios pode ser replicado.

México: depósitos e dilema dos incumbentes

No México, a estratégia de atacar segmentos lucrativos disputados pelos bancos incumbentes se mostrou eficaz, segundo a Squadra. A construção de uma base de depósitos de varejo exigiu ajustes de rota, mas o resultado atual é uma operação que combina escala em um mercado no qual os grandes bancos têm dificuldade de responder sem canibalizar seus próprios modelos.

Para a gestora, essa dinâmica reforça a leitura de que o Nubank não depende apenas do mercado brasileiro para sustentar crescimento. A capacidade de replicar a arquitetura tecnológica em novos países amplia o alcance da tese e reduz a dependência de um único ambiente regulatório e competitivo.

EUA: a leitura contrária ao ceticismo

No caso dos Estados Unidos, a Squadra reconhece que existe um ceticismo generalizado em relação ao movimento, apontado por muitos como ambicioso demais e cercado por uma percepção de assimetria desfavorável. A gestora, porém, discorda dessa visão e afirma que a leitura predominante não captura o posicionamento que o Nubank pretende adotar.

Na avaliação da Squadra, o Nubank deve entrar no varejo americano com a estratégia que conhece profundamente: crédito em primeiro lugar, cartão como porta de entrada, operação digital e foco no público massificado. Essa combinação é vista como uma interseção pouco disputada em um sistema bancário varejista bastante rentável, no qual os grandes incumbentes concentram esforços nos clientes prime e as fintechs demonstraram reduzido interesse ou capacidade de atuar no segmento de cartões.

Mercado Livre: o custo da aposta no frete grátis

A tese do Mercado Livre também passa por decisões agressivas de precificação. A companhia reduziu o tíquete mínimo para frete grátis de R$ 79 para R$ 19 em meados do ano passado, uma medida que, nos cálculos da Squadra, colocou o EBIT do e-commerce no Brasil em terreno negativo.

O movimento é interpretado como uma aposta deliberada em ganho de participação e volume, com impacto temporário na rentabilidade. A gestora também registra que, em paralelo, a companhia ampliou investimentos, o que reforça a percepção de que o aperto de margem não vem acompanhado de recuo na ambição de crescimento.