
A Squadra, gestora com R$ 16 bilhões sob gestão, classificou a posição em Hapvida (HAPV3) como o maior erro de investimento de sua história e reduziu a exposição à operadora de saúde a apenas 1% dos fundos. A reformulação da carteira, detalhada em carta aos cotistas, direciona o portfólio para ações que sofreram fortes quedas e estão cercadas por dúvidas, com destaque para Nubank (ROXO34), Mercado Livre (MELI34), Equatorial (EQTL3) e Energisa (ENGI11).
O movimento ocorre depois de um período de desempenho abaixo do esperado. No primeiro semestre de 2026, os fundos Long-Biased e Long-Only da casa recuaram 5,1% e 6,2%, respectivamente, enquanto o Ibovespa avançou 6,8%. A própria gestora reconhece atravessar um “vale de performance”, agravado pelo investimento na operadora de saúde.
Em bull markets, escreve a Squadra, o mercado paga prêmio pelo sonho; em bear markets, exige desconto sobre o negócio atual, obsessivo diante de riscos que já assume como reais e causadores de danos estruturais. Desenvolvimentos positivos e opcionalidades, afirma, ficam escondidos atrás da sombra das preocupações.
Hapvida: erro reconhecido e exposição mínima
A deterioração dos resultados e a forte queda das ações da Hapvida levaram a Squadra a reduzir a posição a 1% dos fundos. A gestora ainda enxerga potencial de valorização em uma eventual venda de ativos e simplificação do grupo, mas admite que o endividamento elevado e a piora operacional tornam a travessia difícil.
Nubank: de aposta contra a ação a posição comprada
A história da casa registrou uma virada inédita: no Nubank, uma posição short se transformou em aposta comprada. A Squadra já admirava o banco digital quando decidiu apostar na queda das ações após o IPO, no fim de 2021. O problema, então, não era a qualidade do negócio, mas o preço elevado e projeções consideradas “excessivamente otimistas”. Agora, com a fintech mais madura, rentável e negociando a uma avaliação considerada atraente, a gestora mudou de lado.
A desconfiança do mercado com o Nubank está concentrada nos efeitos da deterioração do ciclo de crédito. Segundo a Squadra, esse temor derrubou as ações no primeiro semestre e as levou a negociar perto de dez vezes o lucro da operação brasileira, múltiplo considerado descontado. As incertezas com inteligência artificial também pesaram sobre os papéis, que chegaram a ser associados a grupos de empresas classificadas como “perdedoras ou potenciais perdedoras de IA”.
A gestora reconhece que mudanças tecnológicas de grande dimensão podem levar investidores a encurtar o horizonte e exigir múltiplos menores. Avalia, porém, que o mercado dá mais atenção aos riscos do que aos benefícios que a tecnologia já começa a trazer justamente para a concessão de crédito. Modelos mais sofisticados, diz, têm permitido ao Nubank ampliar a carteira sem deterioração equivalente na qualidade dos ativos; mesmo com inadimplência maior, a fintech segue com desempenho superior à média do mercado.
A inteligência artificial também pode ajudar o banco a avançar sobre clientes de renda média e alta, público tradicionalmente atendido por instituições com estruturas mais caras e maior contato humano. Um dos projetos nessa frente é o “AI Private Banker”, uma espécie de gerente virtual capaz de oferecer atendimento e recomendações personalizadas.
Na expansão internacional, o México é visto como a primeira demonstração de que o modelo do banco digital consegue ser exportado. Depois de dificuldades e adaptações nos primeiros anos, a companhia construiu uma franquia relevante de depósitos e ampliou a carteira de crédito com uma relação considerada atrativa entre risco e retorno. A entrada nos Estados Unidos, recebida com ceticismo por parte do mercado, é tratada como opção de crescimento que praticamente não está embutida no preço da ação: o Nubank deve começar pelo cartão de crédito voltado ao público de massa e, posteriormente, tentar repetir a trajetória brasileira, acrescentando depósitos e outros produtos até se tornar o principal banco de seus clientes.
Mercado Livre: frete grátis, Shopee e a aposta em escala
No Mercado Livre, a preocupação central do mercado é a queda da rentabilidade. Em junho de 2025, a companhia reduziu de R$ 79 para R$ 19 o valor mínimo das compras elegíveis ao frete grátis no Brasil e ampliou os investimentos em outras iniciativas. Segundo cálculos da Squadra, as decisões levaram o resultado operacional do e-commerce brasileiro para o campo negativo e provocaram revisões nas projeções de lucro.
A gestora interpreta a mudança como estratégia ofensiva contra a Shopee no mercado de produtos baratos. Antes da medida, a plataforma asiática adicionava aproximadamente o dobro do volume de vendas (GMV) do Mercado Livre nos itens abaixo de R$ 80. Desde então, o Meli inverteu essa dinâmica e passou a crescer perto de 60% nessa categoria; no conjunto da operação brasileira, o avanço das vendas acelerou para 39% no segundo trimestre de 2026.
O ganho de escala vem reduzindo custos. Entre o primeiro trimestre de 2025, período anterior à nova política de frete, e o mesmo trimestre deste ano, o custo por pedido caiu 17% no Brasil, o que pode tornar rentáveis produtos de baixo valor que antes não apresentavam viabilidade econômica. A expectativa é que a companhia repita, em alguma medida, o movimento iniciado em 2017, quando ampliou o frete grátis para responder ao avanço da Amazon na América Latina: na ocasião, os lucros desapareceram inicialmente, mas voltaram à medida que as vendas cresceram e a operação ganhou escala.
Outra fonte de desconfiança é o avanço do chamado comércio agêntico. Em um cenário mais pessimista, consumidores poderiam delegar suas compras a assistentes de inteligência artificial, reduzindo os acessos diretos ao Mercado Livre e o espaço para anúncios dentro da plataforma. A Squadra chegou a ouvir no mercado a previsão de que a receita de publicidade do Meli poderia “ir a zero”. A gestora considera o risco legítimo, mas avalia que o mercado ignora a possibilidade de a inteligência artificial fortalecer os marketplaces dominantes: preços baixos, entregas rápidas e variedade de produtos continuariam importantes mesmo em compras realizadas por agentes virtuais, e dependem de vantagens difíceis de replicar, como escala logística, efeitos de rede e dados proprietários de transações.
Os primeiros efeitos da tecnologia também são considerados positivos. O Mercado Livre reconstruiu seu sistema de buscas com modelos de linguagem, e a receita de publicidade cresce mais de 60%, impulsionada por ferramentas de inteligência artificial aplicadas à configuração, segmentação e mensuração das campanhas. A Squadra também enxerga valor crescente nos serviços financeiros do Mercado Livre, especialmente na Argentina e no México, onde a posição competitiva é considerada mais forte e o mercado de crédito permanece pouco explorado.
No último ano, a companhia direcionou cerca de cinco pontos percentuais de margem operacional para acelerar o crescimento e ampliar suas vantagens competitivas. Ajustando esses investimentos que passam diretamente pelo resultado, a Squadra calcula que as ações negociam a aproximadamente 18 vezes seu potencial de lucro, avaliação considerada atraente diante do crescimento da receita acima de 40%, dos ganhos de escala e das oportunidades de expansão.
Equatorial e Energisa: maior exposição da história a distribuição
Além de Mercado Livre e Nubank, Equatorial e Energisa completam o grupo das principais posições compradas da Squadra. A gestora alcançou a maior exposição de sua história ao segmento de distribuição de energia, atraída pelo descompasso entre a evolução dos negócios e o desempenho das ações.
Na avaliação da casa, as duas companhias combinam vantagens competitivas duradouras, gestão eficiente e capacidade de reinvestir recursos por muitos anos com retornos superiores ao custo de capital. As concessões também garantem fluxos de caixa relativamente previsíveis e menos dependentes do ciclo econômico. Os juros elevados, porém, aumentaram as taxas de desconto aplicadas aos ativos e comprimiram os múltiplos; assim, enquanto Equatorial e Energisa continuaram elevando resultados e valor intrínseco, as ações não acompanharam. Para a Squadra, esse descolamento criou uma das assimetrias mais favoráveis da carteira.
Na tese de Energisa, a Squadra destaca distribuidoras que combinam eficiência operacional com exposição a regiões beneficiadas pelo avanço da fronteira agrícola. Desde 2016, o volume de energia distribuído pela companhia cresceu aproximadamente o dobro do registrado no restante do país. A estimativa é que as ações da Energisa ofereçam retorno implícito real próximo de 16% ao ano e potencial de valorização superior a 50%. Caso os juros brasileiros recuem para níveis mais sustentáveis, o valor justo calculado pela gestora poderia se aproximar do dobro da cotação atual.





