
A transferência da gestão dos fundos da Gávea Investimentos para a gestora de recursos do Bradesco, quarto maior banco do país, anunciada no começo do mês pelo ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, virou o símbolo mais visível de uma reestruturação que atinge a indústria de multimercados brasileira: com a taxa básica em nível de dois dígitos, a migração de gestoras independentes para dentro dos grandes bancos tornou-se rota preferencial de sobrevivência no ecossistema de investimentos locais.
A transação envolve uma das marcas mais respeitadas do mercado local, criada há cerca de duas décadas no Rio de Janeiro por Fraga, discípulo de George Soros. O movimento ocorre em um ambiente no qual os resgates acumulados pelo setor ultrapassam R$ 672 bilhões desde 2022 e o número de fundos macro encolheu aproximadamente 20% em relação ao pico de 2021, chegando a 743 em julho. Na avaliação do gestor, o momento cíclico é desfavorável para a categoria, pressionada por juros extremamente altos e pela concorrência de produtos com vantagens tributárias.
A força gravitacional dos bancos no mercado de gestão
O movimento que leva Fraga ao Bradesco não é um caso isolado. A Itaú Asset Management, braço do maior banco do país, contratou no mês passado Luiz Eduardo Portella, um dos fundadores da Novus Capital, para criar uma área de pods no segmento de multimercados. Em junho, a gestora anunciou a incorporação da Solana Capital, especializada em renda variável, e no início do ano contratou Eduardo Zilberman, vindo da SPX Capital, para comandar o núcleo de pesquisa econômica. A sequência de contratações e incorporações evidencia o apetite das grandes instituições por talentos e estratégias que antes prosperavam em casas independentes.
O movimento atual representa uma reversão do êxodo observado há cerca de dez anos, quando dezenas de profissionais deixaram os bancos para abrir ou entrar em novas gestoras em busca de autonomia e retornos mais agressivos. Naquele período, a Selic despencou até o piso histórico de 2% durante a pandemia, e a compressão dos juros empurrou os investidores para ações, juros futuros, crédito privado e mercados externos. Agora, com a renda fixa oferecendo ganhos expressivos sem a necessidade de assumir o mesmo nível de risco, a equação mudou de direção.
Números do encolhimento: resgates e perda de patrimônio
Os dados da Anbima ajudam a dimensionar o impacto. O patrimônio combinado de sete das maiores gestoras independentes do país em estratégias macro locais caiu quase pela metade desde 2022, para cerca de R$ 89 bilhões, equivalentes a US$ 17 bilhões. Na outra ponta, as gestoras ligadas às seis maiores instituições financeiras praticamente dobraram seus ativos em fundos macro desde 2019, alcançando R$ 542 bilhões em junho. É uma transferência real de protagonismo que beneficia estruturas com distribuição, compliance e base de clientes já consolidadas.
O encolhimento reflete um ciclo de repulsa ao risco que começou quando o Banco Central voltou a subir os juros para conter a inflação pós-pandemia, em 2022. Com a taxa básica sustentada acima de 10% pelo quarto ano consecutivo, os investidores migraram em massa para produtos de renda fixa, enquanto os multimercados, sobretudo os de grandes apostas macroeconômicas, amargaram retornos abaixo do CDI. A concorrência dos papéis corporativos com isenção de Imposto de Renda também desviou demanda, tanto de investidores institucionais quanto de pessoas físicas, e a popularização dos ETFs adicionou pressão ao oferecer custos mais baixos e liquidez comparável.
O choque do petróleo e o quinto ano de saídas
A indústria de multimercados caminha para o quinto ano consecutivo de saídas líquidas. Desde 2022, os resgates somam R$ 672 bilhões, conforme os números consolidados do setor. As expectativas de melhora no começo de 2026, alimentadas pela entrada de capital estrangeiro na bolsa brasileira e pela aposta em cortes da Selic, foram interrompidas pelo choque do petróleo provocado pela guerra no Irã. O evento derrubou as projeções de afrouxamento monetário no mundo inteiro e fez de março o pior mês da indústria desde 2020.
Com a taxa básica esperada acima de 13% pelo menos até o fim de 2027, a perspectiva para os gestores independentes segue adversa. Manter uma estrutura própria com custos de back office, compliance e distribuição tornou-se um desafio de escala. A expressão usada por Guilherme Zaczac, do UBS Global Wealth Management, para descrever o passado do setor — “três amigos e um terminal” — resume o novo momento de exigência: o mercado aprendeu que montar uma gestora pede escrutínio e estrutura compatível com a responsabilidade de administrar patrimônio de terceiros.
A resposta dos bancos e o diagnóstico fiscal de Fraga
Na leitura de Pedro Rudge, diretor da Anbima e cofundador da Leblon Equities, a incorporação de gestores independentes pelas grandes instituições é um caminho relevante para atrair executivos que não conseguem mais sustentar negócios sozinhos. Profissionais integrados a casas maiores ficam livres dos custos de back office e compliance, mas mantêm autonomia para conduzir a estratégia dos fundos. Essa combinação tem se mostrado vantajosa em um momento de margens apertadas e de exigência crescente por governança.
Fraga, que aceitou recentemente o convite do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, para atuar como conselheiro externo, enxerga motivos estruturais por trás da crise dos multimercados. Para ele, os juros extremamente altos denunciam um desequilíbrio fiscal profundo: o governo toma volumes gigantescos no mercado de dívida local para financiar um déficit que explodiu nos últimos anos, pagando custos elevados por prazos longos. Os sinais vindos dessa frente, portanto, não seriam meramente cíclicos, o que torna a reconfiguração da indústria independente uma consequência direta do atual desenho da política econômica brasileira.





