A decisão da China de limitar as vendas externas de terras raras reposicionou a mineração como item central da agenda estratégica do Ocidente. Nesse novo ambiente, a Lazuli Partners, gestora de private equity fundada por Piero Minardi, Carlos de Barros e Bruno Alves, ex-sócios da Gávea, associou-se à BinahResources, de Andrea Weinberg, para criar a Lazuli Binah. A joint venture pretende captar recursos para estruturar veículos de investimento em ativos de mineração na América Latina, com preferência pelo Brasil, atuando por meio de private equity, PIPE, modalidade de investimento privado em companhias de capital aberto, ou crédito.

A avaliação inicial da equipe é de que os primeiros negócios possam movimentar entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões em um horizonte de dois a três anos, com potencial para ir muito além. O capital estrangeiro já sinaliza esse movimento: o International Development Finance Corporation (DFC) anunciou US$ 2,5 bilhões para ampliar o acesso americano a minerais críticos, enquanto a sul-coreana Posco fechou pré-acordo para assegurar parte da produção futura de um projeto da Meteoric Resources em Minas Gerais. A Serra Verde, em Goiás, também firmou contrato de offtake com o DFC, e várias companhias listadas na Bolsa do Canadá aceleram projetos no país.

Aposta em diferentes estágios de capital

A nova estrutura combina competências complementares. Enquanto a Lazuli Partners carrega a experiência dos seus fundadores na gestão de private equity, a BinahResources contribui com a leitura analítica de Andrea Weinberg, que passou por Goldman Sachs, Merrill Lynch, BlackRock e BTG e trabalhou na Cosan durante o movimento do grupo na Vale. O time ganhou ainda o reforço de Edson Ribeiro, ex-diretor global de Geologia e Projetos da Vale, para qualificar a avaliação dos ativos.

A leitura da gestora é que o momento mudou de patamar. Andrea acompanha a indústria há quase 30 anos e afirma que nunca viu tamanha competição por ativos no Brasil, depois de um longo período em que a China atuou praticamente sozinha no país. A nova dinâmica, diz, está ligada à segurança nacional das potências ocidentais, e não apenas ao ciclo de preços das commodities.

Pipeline inclui participação em IPOs

A joint venture já mapeou mais de 50 transações potenciais, entre elas a possibilidade de participar de até 12 ofertas públicas iniciais. O portfólio de oportunidades reúne projetos em diferentes fases, desde empresas que ainda precisam de capital para avançar em licenciamento até companhias maduras em busca de expansão. Os veículos poderão assumir posições societárias, entrar por meio de PIPE ou estruturar operações de crédito, dependendo do perfil do negócio.

Na visão do time, o Brasil concentra o maior potencial dessa nova rota. A mineração representa hoje algo entre 3% e 5% do PIB nacional, enquanto no Chile o setor chega a 15%, uma comparação que indica espaço relevante de crescimento. O país também aparece como uma das poucas alavancas de expansão disponíveis para o próximo ciclo de governo, segundo a avaliação da própria gestora.

A vantagem comparativa do Brasil na nova rota dos minerais

O território brasileiro combina reservas expressivas de terras raras, cobre, bauxita e vanádio com um déficit histórico de exploração: apenas 28% da área do país possui mapeamento geológico detalhado. Essa combinação transforma o Brasil em uma espécie de fronteira para mineradoras estrangeiras, especialmente para grupos australianos, que enxergam no país um oceano azul de investimentos.

O interesse externo já se reflete na base de empresas atuantes no mercado local. Pelo menos 30 mineradoras com operações no Brasil estão listadas no exterior, e a entrada de capital americano, canadense, sul-coreano e australiano tende a acelerar novos projetos. A disputa por reservas, na visão da Lazuli Binah, deixou de ser uma aposta cíclica e passou a ser uma necessidade estrutural das cadeias globais de suprimento.

O Senado e o risco de intervenção nas operações

A avaliação da gestora é que o principal obstáculo ao avanço do setor pode vir de Brasília. O governo discute a criação de uma Política Nacional de Minerais Críticos, em tramitação no Senado, e algumas propostas foram mal recebidas pelo mercado. Entre os pontos mais sensíveis está a exigência de submeter fusões e aquisições e contratos de offtake à homologação de um conselho ligado à Presidência da República, o que gerou desconforto no setor.

O texto atual, na leitura da equipe, não é bom, mas o risco é limitado. A proposta avançou pela Câmara quase sem alterações em relação à versão negociada com o Planalto, e há expectativa de que o Senado promova ajustes na regulamentação. Mesmo no cenário mais adverso, o entendimento é de que o marco dificilmente ficará pior do que já está.

O temor do setor é que a regra final vá além da política industrial e crie mecanismos de interferência estatal nas decisões de investimento, algo que a gestora rejeita em qualquer formato, inclusive no modelo de estatal nos moldes da TerraBras. Se a tramitação seguir por um caminho equilibrado, o potencial da mineração brasileira tende a se tornar ainda mais atraente para o capital que já começou a disputar esse mercado.