A queda de braço entre a Gauss Capital e o ASA, instituição de Alberto Safra, pela gestão de quatro fundos de investimento desembarcou na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e coloca em risco a operação do Zaftra, único veículo em atividade no país cujo mandato é negociar ativos durante eleições. Conforme apurou o InfoMoney, a assembleia que definiria a troca de gestora do Zaftra Multimercado terminou sem resultado proclamado, e a S3 Caceis, administradora das carteiras, encaminhou o impasse ao regulador.
O caso é delicado porque o fundo se preparava para montar suas posições no fim deste mês, em um calendário considerado decisivo para capturar os movimentos típicos de anos eleitorais. Um executivo que acompanhou o processo, e que falou sob condição de anonimato, afirmou que o Zaftra corre o risco de não operar a eleição brasileira, classificada por ele como uma das mais relevantes. O mesmo interlocutor lembrou que o ASA já registrou na CVM um fundo com mandato semelhante, o ASA Election.
Aprovação em dois fundos e bloqueio no Zaftra
As atas divulgadas nesta semana pela S3 Caceis mostram que os cotistas aprovaram a saída do ASA e a entrada da B.Side Wealth Management em duas das quatro carteiras. No Gauss Multimercado, a proposta recebeu 79,84% dos votos; no Zaftra CIC, 70,96%.
O Gauss CIC, por sua vez, registrou 49,55% de apoio, abaixo do patamar de 50% exigido para a substituição da gestora. Já no Zaftra Multimercado a votação não chegou ao fim.
A estrutura do Zaftra explica o travamento. O Zaftra CIC funciona como feeder e detém 62,65% do Zaftra Multimercado, aplicando nele os recursos captados. Pela manhã, os cotistas do CIC orientaram o ASA, que representa o fundo como gestor, a votar pela transferência na assembleia da tarde. O ASA não compareceu.
Os representantes dos demais 37,35% do Zaftra Multimercado votaram a favor da troca, mas a fatia foi insuficiente sem a participação do ASA. Diante disso, a S3 Caceis não proclamou o resultado. A definição agora depende de decisão da CVM ou de nova convocação de assembleia do Zaftra Multimercado, na qual a B.Side votaria no lugar do ASA na condição de gestora do Zaftra CIC, cenário que pode levar semanas.
O que está por trás do conflito
A transferência das carteiras que pertenciam à Gauss para a B.Side movimenta cerca de R$ 220 milhões e envolve aproximadamente 400 cotistas, e é um capítulo de uma briga maior entre Gauss e ASA. Os quatro fundos foram absorvidos pela instituição financeira em junho do ano passado, em acordo que previa também a incorporação de parte da equipe da gestora, entre eles o sócio fundador e então CIO Fábio Okumura.
Okumura passou a comandar a área de recursos de terceiros do ASA, mas deixou a casa em junho deste ano, em meio a uma reestruturação que também afastou outros executivos. A Gauss enxergou no episódio uma quebra do acordo e deu início a uma disputa judicial com o ASA. No meio do processo, cotistas dos fundos, alguns deles ex-sócios da Gauss, passaram a pedir a troca da gestora.
O ASA tentou barrar as assembleias, inicialmente marcadas para 27 de agosto, por meio de liminar, mas o pedido foi negado pelo juiz Fábio Henrique Prado de Toledo, da 3ª Vara Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem de São Paulo. Procurado, o ASA não se manifestou sobre o resultado das votações nem sobre a mudança de gestão das carteiras.





