Ackman lança fundo para levar pré-IPO ao pequeno investidor

O bilionário Bill Ackman decidiu atacar de frente a principal barreira que separa o investidor comum das grandes oportunidades do mercado privado. A Pershing Square, gestora comandada por ele, iniciou a estruturação da Pershing Square Ventures, um veículo de capital permanente em formato evergreen que poderá manter posições em companhias na fase pré-IPO e também depois de uma eventual listagem em bolsa. A novidade foi comunicada aos acionistas na quarta-feira (12) em carta assinada por Ackman e por Ryan Israel, diretor de investimentos da casa.

Com a iniciativa, a gestora pretende levar ao grande público um tipo de exposição historicamente restrito a fundos sofisticados e investidores institucionais. O fundo nasce capitalizado com aportes iniciais, o que, na visão de Ackman, dá transparência ao cotista sobre o que estará dentro da carteira desde o primeiro dia. No atual ambiente de investimentos, a jogada coloca a Pershing Square em uma disputa crescente pelo público que quer participar da trajetória de startups antes de elas irem a mercado.

O novo veículo da Pershing Square

A Pershing Square Ventures terá como característica central a estrutura de capital permanente, desenhada para evitar o casamento entre o prazo dos ativos e a necessidade de devolução de recursos. Parte do portfólio inicial será formada por participações privadas que a gestora já carrega no balanço, enquanto uma seleção de investimentos feita pelo family office de Ackman também será aportada no veículo. A combinação garante uma carteira de largada com ativos conhecidos, em vez de um fundo que precisa correr atrás de alocações do zero.

A expectativa é dar entrada no registro da Securities and Exchange Commission, a SEC, e lançar o fundo no outono do hemisfério Norte ou até o fim do ano. Ackman indicou que o veículo deve começar com tamanho reduzido e não terá, ao menos inicialmente, efeito relevante sobre o total de ativos sob gestão da Pershing Square.

O apelo do pré-IPO e a crítica do gestor

O argumento central apresentado pelo gestor é que o investidor comum chega tarde demais às melhores histórias de crescimento. Durante a teleconferência de resultados realizada na quinta-feira (13), Ackman citou a SpaceX como exemplo: na visão dele, a primeira oportunidade real de o público entrar na empresa surgiu quando a companhia já estava avaliada em US$ 1,5 trilhão. Ele, por outro lado, conseguiu investir na SpaceX, no X e na xAI em valuations bem mais baixos.

É exatamente essa assimetria que a Pershing Square Ventures pretende reduzir. O fundo investirá em um espectro amplo de companhias, de empresas avaliadas em centenas de milhões de dólares até os chamados decacorns, que ultrapassam US$ 10 bilhões. A proposta, nas palavras de Ackman, é oferecer à pessoa comum uma porta de entrada semelhante à que ele teve como investidor profissional.

Números do segundo trimestre e a reação do mercado

A movimentação ocorre em um momento no qual o mercado digere os números recentes da gestora e a performance dos produtos já listados. Na quinta-feira (13), as ações da Pershing Square USA subiram até 1,7%, para US$ 39,75, mas seguem abaixo dos US$ 50 definidos no IPO e do valor patrimonial líquido de US$ 50,32 informado no site da Pershing Square. Os papéis da própria Pershing Square avançaram até 0,4%, para US$ 38,95.

O fundo fechado Pershing Square USA chegou ao mercado em abril, em uma oferta que marcou a estreia de uma carteira concentrada em companhias listadas. No segundo trimestre, a Pershing Square registrou prejuízo líquido de US$ 40,5 milhões e receita de US$ 54,2 milhões, além de anunciar novas posições em nomes como Visa, Mastercard e Netflix.

A corrida pelos fundos de capital privado

A Pershing Square não está sozinha na aposta em um mercado que combina crescimento acelerado e prazos mais longos. No mesmo período, a Robinhood Markets estruturou dois fundos fechados com foco em participações privadas, enquanto o Fundrise Innovation Fund e a Powerlaw também avançaram com propostas semelhantes para capturar o interesse de investidores por empresas fora das bolsas.

Ao adotar uma estrutura permanente, a Pershing Square tenta atravessar o ciclo completo de criação de valor das companhias, entrando na fase privada e permanecendo como acionista após a listagem. No modelo evergreen, a gestora não precisa devolver recursos em prazos fixos, o que dá fôlego para carregar ativos menos líquidos e capturar a eventual reprecificação no momento da abertura de capital.