Em uma reviravolta no mercado financeiro britânico, a Hargreaves Lansdown, maior plataforma de investimentos de varejo do Reino Unido, passou a oferecer nove ETNs (exchange-traded notes) de Bitcoin e Ether aos seus cerca de dois milhões de clientes. A nova oferta chega menos de um ano depois de a empresa ter publicado alertas contrainditando investimentos em criptoativos. Entre os produtos disponíveis estão papéis da iShares, braço da gestora BlackRock.

A mudança de postura acompanha a decisão da Financial Conduct Authority (FCA), que em outubro derrubou a proibição de acesso dos investidores de varejo aos produtos cripto negociados em bolsa. Mesmo com a liberação, a plataforma ressalva que não classifica Bitcoin como uma classe tradicional de ativos e mantém o aviso de que o investimento pode acarretar perdas extremas.

Da rejeição à adesão: o que motivou a virada

Até recentemente, a Hargreaves Lansdown orientava seus clientes a evitar exposição ao Bitcoin. A plataforma agora decide integrar ETNs de Bitcoin e Ether ao seu catálogo, um movimento que se alinha à tendência de grandes instituições financeiras de oferecer acesso indireto às criptomoedas por meio de veículos regulados.

O posicionamento renovado reflete o impacto direto da flexibilização promovida pela FCA. Com a permissão regulatória, plataformas como a Hargreaves Lansdown encontram um caminho para atender à demanda dos investidores sem abrir mão da supervisão e da infraestrutura já consolidadas do mercado de capitais.

Há um certo paradoxo na atitude da empresa. Ao mesmo tempo em que disponibiliza os produtos, a plataforma segue sustentando que Bitcoin não se enquadra na definição de ativo financeiro convencional. Essa posição sugere que a inclusão dos ETNs é mais uma resposta à pressão do mercado do que uma mudança de convicção sobre o potencial dos criptoativos.

Nove ETNs listados: produtos e taxas

A lista de ETNs oferecida pela Hargreaves Lansdown inclui nove instrumentos lastreados nas duas maiores criptomoedas do mercado. O comunicado da plataforma cita especificamente produtos da iShares, unidade de ETFs da BlackRock, e indica a presença de outros emissores internacionais no portfólio.

As taxas anuais dos papéis variam de 0% a 0,35%. O intervalo de custos coloca ao lado estruturas sem cobrança de administração e instrumentos com taxas mais elevadas, o que pode oferecer opções tanto para investidores sensíveis a custos quanto para aqueles dispostos a pagar um prêmio por características específicas das notas.

Os ETNs são valores mobiliários que representam dívida do emissor, diferentemente dos ETFs, que detêm os ativos diretamente. Por isso, a avaliação de riscos deve considerar não apenas a volatilidade de Bitcoin e Ether, mas também a saúde financeira da instituição emissora.

Exigências para investir: teste de adequação e espera de 24 horas

O acesso aos ETNs na Hargreaves Lansdown não é imediato. Novos compradores precisam passar por uma avaliação de adequação para verificar se conhecem os riscos do produto. A plataforma também exige uma espera de 24 horas entre o pedido e a execução da ordem, um intervalo que funciona como um período de reflexão.

Essas salvaguardas lembram os procedimentos adotados para outros produtos de alta complexidade no mercado britânico. Elas buscam evitar que investidores de varejo tomem decisões precipitadas em um setor marcado por forte oscilação de preços.

A exigência de avaliação e a pausa obrigatória não eliminam os riscos, mas criam uma camada extra de proteção para quem decide ingressar nesse tipo de ativo. A medida também demonstra que a plataforma reconhece a complexidade dos ETNs de criptomoedas, apesar de oferecê-los ao público.

Reino Unido se destaca na oferta de produtos regulados

A iniciativa da Hargreaves Lansdown fortalece a posição do Reino Unido como um dos mercados mais abertos a produtos cripto regulados no mundo. Após a decisão da FCA, plataformas locais de investimento passaram a disputar espaço na oferta de ETNs e ETPs atrelados a ativos digitais.

Para os clientes da maior plataforma de varejo do país, a novidade representa um acesso mais simples e integrado ao ecossistema digital. Não é necessário lidar com exchanges de criptomoedas, carteiras eletrônicas ou custodiantes especializados, já que todo o processo ocorre dentro do ambiente institucional da Hargreaves Lansdown.

Ainda há ressalvas importantes. A empresa repete que Bitcoin não é considerado um ativo financeiro clássico e que os investidores estão sujeitos a perdas extremas. O alerta é uma lembrança de que a oferta de produtos regulados não transforma criptoativos em investimentos tradicionais.