
A gestora suíça 21Shares escolheu o mercado brasileiro como laboratório para testar o apelo de uma nova categoria de produtos high yield negociados em Bolsa. A instituição financeira desenvolve ETFs estruturados para oferecer alto rendimento em dólar capaz de rivalizar diretamente com a taxa de juros nacional. A estratégia inovadora utiliza operações com criptoativos, mas sem expor o investidor comum às oscilações severas e bruscas de preço desse ecossistema.
O passo representa a movimentação mais concreta da casa no País desde o seu desembarque em setembro de 2025, quando disponibilizou seis BDRs de ETFs no mercado local.
O desafio de superar os títulos públicos tradicionais
Competir com a renda fixa nacional exige prêmios agressivos. Atualmente, a taxa Selic é cerca de três vezes maior do que os juros aplicados nos Estados Unidos. Esse cenário macroeconômico torna complexo o desafio de qualquer produto de risco concorrer diretamente com o retorno oferecido por títulos públicos do governo federal.
“Um produto de cripto que gere retorno sem necessariamente dar ao investidor toda a exposição às variações de preço seria muito interessante para o mercado brasileiro”, afirmou o CEO Russel Barlow, em entrevista ao InfoMoney.
Essa busca por diversificação internacional e geração de fluxo de caixa recorrente ganha coro entre especialistas do mercado de capitais. Fábio Murad, CEO da SpaceMoney e criador do método Super ETF, reitera que a dependência exclusiva do mercado doméstico limita severamente o potencial de crescimento patrimonial do investidor.
A visão analítica sobre a rentabilidade real no Brasil
De acordo com dados analisados por Murad, a ilusão de retornos nominais elevados na renda fixa local frequentemente disfarça perdas estruturais provocadas pela inflação interna e pela desvalorização cambial crônica frente a moedas fortes.
- Histórico nominal do CDI: Entre os anos de 2015 e 2024, o CDI acumulou uma rentabilidade nominal de aproximadamente 142%.
- Retorno líquido real: Após descontar a inflação acumulada no mesmo período, o ganho real interno despencou para cerca de 38%.
- Impacto global em moeda forte: Quando o capital acumulado é convertido para o dólar americano, o retorno líquido em uma década inteira não ultrapassou a marca de 4%.
“A diferença entre investir no Brasil e investir globalmente é a diferença entre se defender da pobreza e construir riqueza de verdade”, argumenta Fábio Murad. Para o executivo, o investidor precisa expor parte de seu portfólio a ativos internacionais sob regras claras e moedas estáveis para garantir a verdadeira preservação de poder de compra global no longo prazo.
Finanças descentralizadas no centro da geração de valor
Para entregar retornos elevados em moeda forte, a 21Shares planeja realizar operações baseadas em finanças descentralizadas (DeFi). Trata-se de plataformas automatizadas que realizam negociações em redes blockchain sem a necessidade de bancos ou intermediários tradicionais. Embora o segmento DeFi seja conhecido por oferecer rendimentos robustos acompanhados de volatilidade, a gestora suíça pretende mitigar essas vulnerabilidades por meio de sua estrutura e governança institucional.
| Produto / Estratégia | Características de Rendimento | Diferencial Operacional |
| ETF DeFi High Yield | Alto retorno em dólar competindo com a Selic | Mitigação de riscos severos com ferramentas da gestora |
| Papel STRC (Europa) | Rendimento aproximado de 12% ao ano em dólar | Reinvestimento automático; sem taxa de administração fixa |
| Fundo TKNS (EUA) | Gestão ativa de portfólio listada na Nasdaq | Escolha tática de ativos baseada em análise de mercado |
Paralelamente, a instituição financeira, que conta atualmente com US$ 7 bilhões sob gestão global, avalia trazer ao Brasil um produto já disponível na Europa atrelado à STRC. O papel pertence à Strategy, corporação americana controlada por Michael Saylor que acumula Bitcoin (BTC) em seu balanço patrimonial. Essa classe de ação funciona de maneira semelhante a um título de renda fixa, realizando pagamentos de proventos periódicos ao investidor.
O futuro dos veículos de investimento institucional
O foco em produtos focados em renda passiva previsível reflete a estratégia global implementada por Russel Barlow desde que assumiu a liderança da 21Shares em março de 2025. O executivo, que acumula mais de duas décadas de experiência na gestora britânica Abrdn gerenciando plataformas alternativas de mais de US$ 250 bilhões, defende que grandes investidores institucionais e fundos de pensão não querem apenas comprar criptoativos e esperar a valorização pura. Esses players demandam estratégias previsíveis com perfis similares aos de títulos de dívida corporativa.
A transição para fundos tokenizados e contratos inteligentes
Apesar de os ETFs representarem o principal canal regulado de acesso a ativos digitais na atualidade, a liderança da 21Shares prevê que essa estrutura possui um prazo de validade geracional. A próxima iteração tecnológica do mercado de capitais mundial será consolidada pelos fundos tokenizados.
Essas novas versões de fundos operam diretamente nos registros digitais das redes blockchain. As transações e movimentações patrimoniais são executadas de maneira totalmente autônoma por meio de programas conhecidos como contratos inteligentes (smart contracts). A empresa busca se posicionar antecipadamente para liderar essa transição e lidar de maneira sustentável com a compressão gradual de taxas no mercado cripto global.





