O fundador da GAS Consultoria, Glaidson Acácio dos Santos, o Faraó dos Bitcoins, admitiu em depoimento que atuava de forma coordenada para manipular o mercado de criptomoedas. A revelação ocorreu na fase final do processo em que ele, a esposa e outros 15 acusados respondem por crimes contra o sistema financeiro. Autoridades estimam que o esquema tenha movimentado mais de R$ 38 bilhões, com potencial de 77 mil pessoas lesadas.

As declarações foram exibidas no Fantástico, da TV Globo. Glaidson está detido desde 2021 e, além do caso financeiro, responde pela acusação de encomendar assassinatos de concorrentes na região de Cabo Frio, no Rio de Janeiro. A GAS atraiu um público heterogêneo com a promessa de lucros acima da média; entre os prejudicados estão empresas, artistas, jogadores de futebol e famílias de baixa renda que obtiveram crédito para investir.

Como o Faraó dos Bitcoins articulava as manobras

No relato, o empresário admitiu que, na condição de baleia, dialogava com outros grandes detentores de criptoativos para derrubar cotações específicas. O método descrito envolvia operações alavancadas em dez vezes e apostas na queda, destinadas a ampliar o movimento de desvalorização. Segundo a versão do acusado, o mercado é um ambiente no qual uns lucram enquanto outros vendem seus ativos para conter perdas.

A captação seguia uma lógica de contratos individuais. Na analogia usada por Glaidson, o crescimento da base de clientes ocorria de forma gradual, como no ditado popular sobre o enchimento do papo da galinha. O depoimento também trouxe detalhes logísticos: funcionários da GAS se deslocavam de helicóptero até São Paulo com dinheiro em espécie, e os recursos eram creditados por interlocutores na capital paulista na carteira da empresa.

O relato indica que a movimentação de valores operava à margem do sistema financeiro tradicional. A promessa de retornos fora do padrão serviu de combustível para a expansão da GAS até a prisão do fundador. Com a suspensão dos pagamentos, a dimensão do passivo com investidores veio à tona.

O papel de Mirelis Zerpa e o rastro nos EUA

Enquanto Glaidson era preso, a esposa deixou o Brasil. Mirelis morou em Chicago, depois se mudou para Kissimmee, na Flórida, e ficou três anos fora do alcance das autoridades brasileiras. Ela acabou detida pela imigração dos Estados Unidos e deportada, ficando à disposição da Justiça Federal, onde nega as acusações do Ministério Público.

O MPF afirma que Mirelis tinha função de comando na organização. A defesa, porém, apresenta outra versão: a mulher diz que estudava criptomoedas e realizava trading, enquanto Glaidson era o responsável pela relação com os clientes. Ela ainda classificou o conteúdo do processo como algo distante da realidade que diz ter vivido.

O deslocamento de Mirelis para os EUA chamou a atenção dos investigadores depois que 4,5 mil bitcoins, equivalente a aproximadamente R$ 1 bilhão, foram sacados em Kissimmee. Pouco tempo depois, ela anunciou a criação da plataforma GMX, com promessa de rendimento de 10%. Um dos advogados que atuavam no caso sustentou que os valores retirados foram destinados ao pagamento de credores da GAS; Mirelis afirma ter sacado somente criptomoedas próprias.

A incógnita da carteira digital sob custódia da PF

A pergunta que permanece sem resposta é quanto existe na carteira de criptomoedas de Glaidson. O dispositivo, uma cold wallet sem conexão com a rede, está custodiado pela Polícia Federal. O acesso só é possível com uma senha que o empresário diz não lembrar de cabeça; ele garante, porém, que os recursos estão lá e são suficientes para honrar os compromissos com os credores.

A recusa em informar o saldo foi justificada por suposto risco à integridade física. Enquanto o valor não é revelado, os 77 mil credores que reclamam cerca de R$ 3 bilhões seguem sem dimensionar o patrimônio que pode ser usado em eventual ressarcimento. A indefinição mantém o caso em aberto mesmo com o processo na reta final.

Defesas contestam acusações e veem inocência

A defesa de Glaidson sustenta que ele é inocente e que a interrupção dos pagamentos da GAS foi consequência de uma ordem judicial. Os advogados também contestam a lista de credores e os valores cobrados na ação. Já a defesa de Mirelis reforça que a acusada não integrava a estrutura administrativa da GAS e que os recursos sacados após a prisão do marido foram usados para restituir clientes.

Embora os depoimentos tenham trazido detalhes inéditos sobre a operação, o resultado do julgamento ainda depende da análise das provas. Caso haja condenação, a soma das penas pode ultrapassar quatro décadas de prisão para Glaidson, Mirelis e os demais réus.