A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) consolidou uma nova etapa de sua agenda de inovação ao institucionalizar uma área técnica dedicada ao avanço da tokenização e das tecnologias financeiras. A criação da Divisão de Tecnologia Financeira (DITEC) foi formalizada pela Resolução CVM 246, publicada em 31 de julho, e já opera no âmbito da Superintendência de Desenvolvimento de Inteligência (SDI), com a missão de amparar projetos estratégicos como a tokenização de valores mobiliários prevista para 2026 e 2027.

O movimento regulatório ocorre em um momento de aceleração do mercado brasileiro de ativos tokenizados. Dados consolidados do RWA Monitor indicam que as emissões somaram R$ 4,84 bilhões no primeiro semestre de 2026, um avanço de mais de 122% na comparação com os R$ 2,17 bilhões registrados no mesmo período do ano anterior. As captações também escalaram, passando de R$ 1,60 bilhão para R$ 3,00 bilhões, o que aponta uma mudança estrutural no perfil das operações.

Divisão de Tecnologia Financeira: atribuições e impacto

A DITEC nasce com a finalidade de prestar assessoria técnica interna sobre tecnologias financeiras emergentes aplicadas ao mercado de valores mobiliários. Cabe à nova divisão avaliar os impactos e riscos dessas ferramentas sobre empresas reguladas, investidores e a estrutura do mercado de capitais como um todo. Além disso, a unidade deverá elaborar estudos e propostas sobre inovações financeiras, com ênfase na inteligência artificial e em soluções analíticas avançadas.

A resolução também redefine competências de gerências ligadas à governança e proteção de dados, estabelecendo diretrizes para o uso ético e responsável da inteligência artificial no âmbito da autarquia. A DITEC está autorizada a interagir com reguladores, empresas e instituições externas, ampliando o conhecimento técnico e a capacidade de supervisão sobre um ecossistema em rápida transformação.

Enquanto o Grupo de Trabalho de Tokenização (GTT), criado em 17 de julho com participação de 14 áreas da CVM, desenvolve recomendações de curto prazo, a DITEC atuará como estrutura permanente. O GTT, com duração inicial de 120 dias, estuda o uso de redes de registro distribuído (DLTs) em atividades como registro, custódia, negociação e liquidação, com previsão de entrega de um regime regulatório experimental em até 60 dias.

Mercado brasileiro de tokenização em aceleração

Os números do RWA Monitor evidenciam a consolidação da tokenização como ferramenta de captação e distribuição no Brasil. O volume de emissões no primeiro semestre de 2026 superou as expectativas, impulsionado por operações enquadradas na Resolução CVM 160 e na Resolução CVM 88, além do avanço das emissões privadas. Esse desempenho reflete a maturidade das infraestruturas baseadas em blockchain no país.

O crescimento de 122% em um semestre indica que o mercado deixou de depender de operações pontuais e passou a registrar expansão simultânea em múltiplas frentes. As captações, que praticamente dobraram para R$ 3,00 bilhões, mostram maior eficiência comercial e um ambiente digital seguro, pronto para absorver tanto a agilidade de operações privadas quanto o rigor das ofertas institucionais.

Panorama global: ações tokenizadas em expansão

No cenário internacional, a capitalização de mercado das ações tokenizadas atingiu US$ 2,4 bilhões, com alta de 9,2% na semana, segundo dados do Token Terminal. O número de detentores cresceu 96,7% para 1,1 milhão, enquanto os remetentes diários dispararam 301% para 89 mil, sinalizando aumento real da atividade on-chain.

Há, no entanto, divergência entre os principais emissores. As bStocks da Binance subiram 166,1% desde 29 de junho, alcançando US$ 486 milhões, enquanto a Ondo recuou cerca de 8,3% para US$ 900 milhões e a xStocks avançou 10,8% para US$ 557,1 milhões. Ativos como QQQb (+1.420% em 30 dias), EWYb (+1.268%) e TSLAb (+354%) lideram o momentum, evidenciando a busca por exposição a ações por meio de tokens.

Próximos passos da agenda regulatória

Com a DITEC em operação e o GTT em andamento, a CVM se prepara para implementar um regime experimental dedicado à tokenização. O presidente da autarquia, Otto Lobo, destacou que a tokenização representa uma transformação estrutural do mercado de capitais, exigindo uma atuação regulatória igualmente inovadora.

A nova divisão também acompanhará os debates da Fintech Task Force da IOSCO, além de dar suporte à próxima rodada do Sandbox Regulatório. Esse conjunto de iniciativas coloca o Brasil em posição de destaque na regulação de ativos digitais, criando um ambiente propício para o desenvolvimento de novos produtos e serviços conectados ao universo das criptomoedas.