O avanço das stablecoins está colocando em xeque a primazia da conta bancária como principal núcleo de guarda e circulação do dinheiro do consumidor. Um relatório da consultoria Bain, que começa a circular no mercado financeiro, estima que a participação dos bancos na receita do setor cairá para 69% até 2030, ante os 80% atuais — um recuo ainda mais expressivo se comparado aos 95% que as instituições tradicionais detinham no início dos anos 2000. A pressão competitiva, nesse diagnóstico, não vem somente da onda de neobancos iniciada em 2009, mas sobretudo das carteiras de stablecoin, que unem dólar digital, operação 24 horas por dia e pagamentos transfronteiriços sem a necessidade de números de conta e roteamento.
No centro dessa disputa está uma pergunta que divide o setor: as carteiras vão substituir a conta bancária ou serão apenas uma camada adicional construída sobre a infraestrutura já regulada dos bancos? Enquanto executivos de empresas de infraestrutura cripto apostam na erosão do produto bancário tradicional, outros defendem que a evolução se dará pela transformação da conta em uma plataforma programável, apta a conviver com depósitos tokenizados e stablecoins.
A matemática do recuo bancário
O levantamento feito pelo Bain indica que a perda de terreno dos bancos tem ritmo constante, mas acelera com a popularização das carteiras digitais. Em 2000, as instituições financeiras incumbentes eram responsáveis por 95% das receitas do sistema financeiro global. Com a chegada dos neobancos, esse número caiu para 80% no cenário atual, e a projeção é de que atinja 69% em 2030. O percentual mostra que, embora a conta bancária não esteja morta, o lugar que ela ocupa na vida financeira do consumidor está sendo redimensionado por pressões tecnológicas e mudanças de comportamento.
As carteiras de stablecoin representam o desafio mais recente e talvez o mais incisivo. Elas são capazes de armazenar dólares digitais, movimentar recursos sem interrupções e operar além das fronteiras com liquidação praticamente instantânea. A infraestrutura, tradicionalmente ancorada em agências e em sistemas de compensação bancária, perde espaço para um modelo em que o saldo é detido e transferido dentro de trilhos construídos sobre blockchain.
Pagamentos, o campo de batalha inicial
Na avaliação de Marcin Kazmierczak, cofundador da rede de oráculos RedStone, as stablecoins devem avançar primeiro no segmento de pagamentos, especialmente nas transferências internacionais, antes de conquistar fatias relevantes do crédito e da poupança. Ele argumenta que a conta bancária tradicional reúne três funções — pagamento, poupança e crédito — e que as carteiras digitais já saíram vitoriosas exatamente na função de maior atrito: a movimentação de recursos entre países e bancos distintos.
Dados do Banco Mundial citados pelo executivo reforçam a assimetria de custos. Enquanto uma remessa feita por banco chega a custar, em média, 14,99% do valor enviado, o custo global médio fica em 6,36%. Transações com stablecoin podem ser liquidadas em segundos e por menos de 1% do valor, segundo Kazmierczak. Para Ryne Saxe, presidente-executivo da carteira Eco, as stablecoins são simplesmente um dinheiro melhor. Na visão dele, o desfecho natural será um saldo único, sempre remunerado, endereços universais e login baseado em chave de acesso, sem os tradicionais números de roteamento. Bancos e fintechs, nesse cenário, não teriam opção senão adotar os trilhos de stablecoin para continuar competitivos.
A resposta dos bancos: depósitos tokenizados e novos formatos
Nem todos os especialistas veem a relação como uma guerra de eliminação. Ran Goldi, vice-presidente sênior de pagamentos da Fireblocks, afirma que os bancos tendem a emitir depósitos tokenizados interoperáveis com stablecoins, criando um ambiente no qual a conta tradicional se transforma em uma plataforma programável. Em vez da narrativa de que as stablecoins venceram e os bancos perderam, Goldi enxerga uma convergência em que a conta passa a suportar novos protocolos de transferência e remuneração automática do saldo.
Alvin Kan, diretor de operações da Bitget Wallet, observa que a fronteira entre os dois modelos está se tornando cada vez mais aberta e portátil. O dinheiro, antes confinado a uma única instituição e jurisdição, transforma-se em dólares digitais que cruzam países, plataformas e aplicativos em tempo real. Esse movimento, segundo ele, recoloca o usuário no centro da decisão sobre onde e como manter seus recursos.
Pesquisa da BVNK de 2026 mostra que 77% dos usuários de criptomoedas prefeririam abrir uma carteira de stablecoin oferecida pelo próprio banco ou por uma fintech de confiança, em vez de assumir sozinhos a gestão de uma infraestrutura de autocustódia. Jody Mettler, diretora de operações da BitGo e presidente do BitGo Bank and Trust, reforça o argumento ao lembrar que bancos seguem exercendo funções de custódia, conformidade e proteção ao consumidor que não podem ser reproduzidas integralmente pelas carteiras. As carteiras atuam nativamente em trilhos digitais funcionando 24 horas por dia, mas a conta bancária, diz ela, não desaparece — ela é, em última instância, compilada em código.
A sombra dos ataques e das emissões não autorizadas
Os riscos técnicos, no entanto, continuam a rondar o ecossistema das moedas digitais e impõem cautela à migração em massa. Em março, a stablecoin USR, da Resolv, perdeu cerca de 70% de seu valor depois que um atacante conseguiu emitir tokens sem lastro e extrair US$ 25 milhões do protocolo. O colapso evidenciou como vulnerabilidades em contratos inteligentes podem afetar diretamente a confiança do usuário, especialmente quando a proposta é justamente posicionar esses ativos como substitutos do dinheiro bancário do dia a dia.
Em maio, a StablR, por sua vez, revelou emissões não autorizadas de USDR e EURR após uma violação de segurança. Os dois episódios funcionam como contraponto ao otimismo de que as stablecoins, por si sós, resolveriam distorções sistemáticas do sistema financeiro. Se a tecnologia permite liquidações mais rápidas e baratas, ela também transfere ao usuário parte do ônus de avaliar a solidez do emissor e a capacidade de reação a incidentes.
A conta bancária segue existindo, mas em outro formato
A leitura predominante entre os executivos consultados aponta para um modelo híbrido, no qual o consumidor transaciona cada vez mais por carteiras digitais enquanto os bancos mantêm a guarda do dinheiro e a responsabilidade pela proteção regulatória. A queda da participação na receita não é o mesmo que extinção das instituições. Os bancos devem continuar presentes, porém com a função deslocada para a emissão de depósitos tokenizados e para a gestão de infraestrutura que conecta os mundos regulado e descentralizado.
Nem todos, porém, apostam em uma convivência pacífica. Adrian Cachinero, cofundador da Steakhouse Financial, afirmou que a conta bancária enfrenta uma ameaça existencial e que sua filha talvez nunca precise abrir uma conta em uma instituição tradicional. Declarações como essa reforçam a urgência da transformação, mas também evidenciam o tamanho do desafio de adaptar modelos de negócio centenários a uma geração que já nasce com a expectativa de controlar seu dinheiro de forma nativa na internet.
Se a conta tradicional não desaparece, o seu monopólio sobre a relação com o cliente está definitivamente ameaçado. A advertência aos incumbentes é clara: o banco que não se adaptar a um ambiente em que a interface preferencial é a carteira digital corre o risco de manter a licença enquanto perde a conexão direta com o consumidor. O dinheiro continuará existindo, mas o lugar onde ele é guardado e gasto já não será decidido exclusivamente pelas instituições que dominaram o último século.





