Um consórcio formado por PwC Alemanha, Merck KGaA e The Hashgraph Group começou a testar um sistema de rastreabilidade para a cadeia do cacau que combina marcadores físicos de autenticação com um ledger distribuído da Hedera. O movimento ocorre poucos meses antes de a União Europeia começar a exigir que grandes operadores comprovem a origem de seus produtos para evitar o desmatamento associado à produção.
O cacau foi escolhido como piloto por ser um dos setores mais fragmentados do agronegócio mundial. São mais de 2 milhões de propriedades africanas que vendem sua safra por meio de intermediários, com mistura de lotes já no primeiro elo da cadeia. Esse cenário dificulta identificar a procedência quando o produto chega aos pontos de venda e abre espaço para problemas como trabalho infantil, derrubada ilegal de florestas e contrabando.
Tecnologia híbrida une marcador físico e registro em ledger distribuído
A solução usa a tecnologia M-Trust da Merck para criar uma impressão digital única na saca de cada lote. Quando o saco é aberto, o selo é destruído e a autenticação perde a validade, deixando qualquer violação evidente. Paralelamente, a plataforma TrackTrace do The Hashgraph Group grava os dados de origem, qualidade e conformidade no ledger da Hedera.
O desenho dos processos de negócio para uso corporativo ficou com a PwC Alemanha. A ideia é que as empresas adotem o sistema sem precisar operar nós de blockchain nem lidar com tokens digitais. Em declarações ao projeto, o executivo Stefan Deiss, do The Hashgraph Group, observou que todos os participantes veem apenas dólares ou euros, e que a camada cripto corre nos bastidores, sem acionar alarmes de compliance.
Esse aspecto tem sido decisivo para atrair grandes grupos, uma vez que a simples presença de criptoativos em uma operação pode levantar questionamentos regulatórios internos. A separação entre a infraestrutura blockchain e a experiência do usuário é uma estratégia para tornar a tecnologia viável em setores com alta aversão a riscos.
Regra europeia contra o desmatamento impõe prazos e multas pesadas
A partir do fim de 2026, grandes operadores que colocam cacau no mercado europeu precisarão demonstrar que seus lotes não vêm de áreas desmatadas após uma data de referência. Para os pequenos operadores, o calendário será estendido. A multa máxima por descumprimento pode chegar a pelo menos 4% do faturamento anual da empresa em toda a União Europeia.
O sistema foi desenhado para permitir a verificação do histórico completo de um lote antes da liberação na alfândega, agilizando a aprovação e reduzindo riscos de sanção. Ao mesmo tempo, a rastreabilidade pontual pode limitar os danos em episódios de contaminação durante o processamento. Segundo o líder de blockchain empresarial da PwC na Alemanha, Husen Kapasi, um único incidente desse tipo pode custar dezenas ou centenas de milhões de euros, hoje difíceis de localizar devido à dispersão de dados em silos.
Com o registro contínuo e imutável, fica possível identificar exatamente qual lote apresentou o problema, evitando a paralisação de fábricas inteiras. Esse ganho de eficiência é um dos principais atrativos para a indústria, que já viu promessas semelhantes em projetos anteriores de blockchain para supply chain.
Arquitetura modular abre caminho para fármacos, eletrônicos e luxo
Apesar do foco inicial no cacau, os três grupos afirmam que a plataforma foi estruturalmente preparada para atuar em outros setores nos quais a verificação de origem e autenticidade é crítica. Alimentos, medicamentos, artigos de luxo, eletrônicos e componentes industriais estão na lista de possíveis aplicações.
O comunicado conjunto destaca que a arquitetura é extensível e que, uma vez validada no agronegócio, pode ser replicada com adaptações. Na indústria farmacêutica, por exemplo, o combate à falsificação passa pela mesma lógica de vincular um item físico a um registro digital inviolável.
A PwC já possui histórico nesse campo: em 2019, a firma se uniu à Walmart China e à VeChain em uma iniciativa de segurança alimentar baseada em blockchain. Essa experiência prévia ajuda a explicar por que a consultoria atua agora no desenho de fluxos para uma solução de rastreabilidade em escala global.
Identidade digital e pagamentos ampliam o alcance social do projeto
A meta declarada do consórcio é integrar milhões de pequenos produtores ao sistema, conectando registros de produção a identidades digitais e carteiras virtuais. Isso permitiria, por exemplo, que um agricultor em uma região remota recebesse pagamento direto pela sua colheita sem precisar de uma conta convencional em banco.
Stefan Deiss explicou que a proposta viabiliza transações ponto a ponto entre os elos da cadeia, com o agricultor tendo acesso a benefícios assim que seus dados forem verificados na blockchain. Para ele, a identidade digital vinculada a um histórico confiável de fornecimento tem potencial de destravar serviços financeiros básicos para esse público.
Na prática, a camada de liquidação continua em moeda fiduciária, o que reduz o atrito com regulações de criptomoedas. O token desempenha um papel interno de representação de ativos ou direitos, mas o usuário final não precisa nem mesmo saber que a tecnologia blockchain está ali.
Primeiro quilômetro segue como maior desafio operacional
O ponto mais delicado da cadeia do cacau é o chamado primeiro quilômetro, onde as sacas deixam as fazendas e passam por sucessivos atravessadores. É nessa etapa que as origens se misturam e que as informações costumam se perder. A solução precisa registrar cada unidade antes da mistura, o que exige disciplina logística e investimento em coleta de dados.
Os testes em campo vão avaliar não apenas a precisão das informações, mas também a resistência dos marcadores físicos às condições reais de transporte e armazenagem. O sucesso dessa fase pode determinar a velocidade de adoção pelo mercado e a eventual extensão da plataforma a outras commodities e setores.
Com a pressão regulatória crescendo e as penalidades definidas, a combinação de marcadores físicos com ledger distribuído surge como uma resposta concreta ao problema secular da falta de transparência nas cadeias globais. Se o modelo funcionar no cacau, a expectativa do grupo é que ele se torne um padrão de referência para soluções de proveniência em todo o mundo.





