Especialistas do setor de climatechs traçam um paralelo direto entre o atual estágio da economia climática e o nascimento da revolução digital no fim dos anos 1970. Para Zé Gustavo, diretor-executivo do Fórum Brasileiro das Climatechs, as empresas que dominarão os mercados nas próximas décadas estão sendo fundadas agora, mas boa parte dos investidores brasileiros ainda não enxergou a dimensão da oportunidade. A análise foi apresentada durante entrevista no programa O Clima na Faria Lima, apresentado por Marina Cançado, com a participação de Júlia Marisa Sekula, cofundadora e CFO da Terradot.

Paralelo com a revolução digital

Zé Gustavo propõe um exercício mental: imaginar um jovem Bill Gates no final dos anos 1970 buscando recursos para desenvolver softwares para computadores pessoais. Na época, seria fácil argumentar que a sociedade nunca adotaria a tecnologia em larga escala. Hoje, a Microsoft está entre as empresas mais valiosas do mundo. Para ele, o mesmo raciocínio se aplica às soluções climáticas que emergem agora. A transformação climática, assim como a digital, tende a reconfigurar cadeias produtivas, regulações e hábitos de consumo, criando demanda por tecnologias de redução de emissões e adaptação a eventos extremos.

O executivo enfatiza que o clima pode transformar a sociedade de forma comparável à tecnologia a partir dos anos 1980. A diferença, segundo ele, é que muitos investidores ainda focam nos riscos e custos, em vez de enxergar o potencial de geração de valor. A hesitação pode custar caro, já que os mercados regulados começam a se formar e as empresas que se posicionarem cedo poderão capturar fatias significativas de valor.

Clima como lente transversal

Júlia Sekula argumenta que o clima não deve ser visto como um setor isolado da economia, mas sim como uma lente capaz de ser aplicada a praticamente todas as atividades econômicas. Assim como a tecnologia hoje está presente em bancos, agronegócio, comércio e serviços, a agenda climática tende a atravessar toda a economia. Ao aplicar essa lente, surgem oportunidades em materiais de baixo carbono, sistemas de monitoramento, agricultura resiliente, armazenamento de energia, captura de carbono e tratamento de água e resíduos.

A executiva destaca que os futuros líderes da economia climática poderão nascer em indústrias tradicionais, e não apenas em empresas tipicamente verdes. Grandes corporações já começam a contratar fornecedores de tecnologia climática, não por questões reputacionais, mas para se preparar para regulações que podem impor custos diretos às emissões. Mecanismos de precificação de carbono e barreiras comerciais associadas às emissões podem criar mercados de escala, e Júlia acredita ser possível construir uma empresa de grande porte no Brasil focada em resolver um único desafio regulatório.

Velocidade de startups versus escala de grandes empresas

Zé Gustavo ressalta que a transformação exigirá tanto a agilidade de startups quanto a capacidade de escala das grandes companhias. Empresas estabelecidas têm capital e infraestrutura, mas tendem a se mover mais lentamente, enquanto as startups testam modelos de negócio com velocidade. A tendência é que parte dessas startups seja adquirida ou cresça para desafiar líderes atuais. Para ele, a transição climática já está em curso, e os investimentos, o desenvolvimento tecnológico e o avanço regulatório comprovam que novos mercados estão sendo construídos. No Brasil, a resistência de investidores tradicionais às climatechs pode significar perda de oportunidade. Para análises aprofundadas sobre esse segmento, acesse a seção de investimentos da SpaceMoney. A pergunta, no futuro, não será por que elas cresceram, mas por que tão poucos investidores brasileiros perceberam a tempo a chance de participar do início dessa nova economia.