Carteira reduz exposição à IA com BNY e Kimberly-Clark

A gestão da carteira de referência decidiu abrir nesta quarta-feira duas novas posições com perfil defensivo, reduzindo parte da exposição ao ciclo de investimentos em inteligência artificial. Foram compradas 240 ações do BNY, antigo Bank of New York Mellon, por aproximadamente US$ 161 cada, e 365 papéis da Kimberly-Clark, ao redor de US$ 108 por ação. Com os negócios, BNY e Kimberly-Clark passam a representar individualmente cerca de 1% do total alocado no portfólio.

O movimento ocorre um dia depois da saída completa das ações da Corning, companhia exposta à cadeia de data centers. Como destacado nas reuniões recentes da equipe, o momento pede uma recomposição parcial das apostas: em vez de manter o portfólio concentrado no avanço da infraestrutura de IA, a preferência é ampliar a participação de negócios menos cíclicos, com múltiplos mais comprimidos e receitas previsíveis.

Por que a migração para ativos defensivos ganha força agora

O argumento central parte da relação entre juros e valuation. Em um ambiente de taxas elevadas, cresce a taxa de desconto aplicada sobre lucros e fluxos de caixa futuros, o que tende a derrubar os múltiplos aceitos pelo mercado. Com a expectativa majoritária de que o Federal Reserve volte a aumentar os juros na reunião de setembro, marcada para daqui a duas semanas, a equipe prefere não depender exclusivamente de empresas de crescimento ligadas ao boom de data centers.

Essa leitura não implica abandono completo do tema de IA. O ajuste é uma redução marginal de risco, mantendo parte relevante da carteira exposta ao setor e, ao mesmo tempo, buscando ações que historicamente sofrem menos em cenários de aperto monetário. Menor sensibilidade ao ciclo econômico, geração de caixa consistente e dividendos atrativos passam a ter peso maior na seleção dos papéis.

BNY: um banco diferente, com receita baseada em taxas

A escolha do BNY dialoga com uma tese diferente daquela aplicada a bancos comerciais tradicionais. Enquanto o Wells Fargo concentra sua operação na captação de depósitos e na concessão de crédito a consumidores e empresas, o BNY atua prioritariamente como um banco de serviços para instituições, cobrando tarifas por custódia, liquidação e movimentação de ativos. Cerca de 70% das receitas do BNY têm origem em taxas, o que reduz a sensibilidade a variáveis como o ciclo de crédito, a inclinação da curva de juros e a margem líquida de juros.

O principal motor de crescimento do negócio é a expansão dos ativos sob serviço, ou seja, a valorização dos mercados e o aumento dos volumes sob administração. Mesmo tendo alguma carteira de empréstimos, a instituição concentra sua estratégia de crédito em clientes com grau de investimento que também utilizam os serviços não relacionados a crédito, reforçando o caráter recorrente das receitas.

A transformação comandada por Robin Vince

Parte relevante da tese de investimento está apoiada na gestão de Robin Vince, que assumiu o cargo de CEO em 2022. Sob sua liderança, o banco passou por uma remodelação cultural e operacional, com maior ênfase em tecnologia e na oferta de ferramentas para clientes de todo o setor de investimentos. Os resultados aparecem nos números: a receita do BNY subiu de US$ 16,5 bilhões em 2022 para US$ 20,1 bilhões em 2025. A margem antes dos impostos saltou de 21,1% para 35,1% no mesmo período, e o lucro por ação (EPS) avançou de US$ 2,88 para US$ 7,40.

Para endereçar o valuation, a meta definida para a nova posição é de US$ 180 por ação, o que corresponde a 17,5 vezes o consenso de mercado para o EPS de 2027, estimado em US$ 10,25, segundo dados do FactSet. O múltiplo embute uma leitura de continuidade na expansão de margens e no crescimento das receitas baseadas em taxas, com risco menor do que o de bancos tradicionais em um cenário de aperto monetário.

Kimberly-Clark: a aposta na integração da Kenvue

O segundo movimento foi a reentrada na Kimberly-Clark, companhia dona das marcas Cottonelle, Huggies e Kleenex, entre outras. A ação voltou ao radar depois que a empresa anunciou, em novembro de 2025, a compra da Kenvue, negócio avaliado em aproximadamente US$ 49 bilhões em valor da empresa. Nos dias seguintes ao anúncio, o papel caiu de US$ 120 para US$ 102 e, até agora, não recuperou integralmente o terreno perdido.

A aquisição deve ser concluída antes do fim deste ano e trará para o portfólio da Kimberly-Clark categorias como medicamentos de venda livre, cuidados bucais, cuidados com a pele, tratamento de feridas e uma linha adicional de produtos infantis. Na prática, a companhia amplia seu raio de atuação para além do papel e entra em segmentos de maior valor agregado dentro do setor de saúde e bem-estar.

Riscos que o mercado monitora de perto

A transação não foi recebida sem questionamentos. As principais reservas levantadas por investidores envolveram os litígios relacionados ao Tylenol e a dúvida sobre o encaixe estratégico de uma empresa tradicionalmente focada em papel no segmento de saúde. O CEO Mike Hsu abordou esses riscos publicamente.

Na visão da equipe de investimentos, a recuperação incompleta do papel abre uma janela de entrada com valuation mais baixo antes da conclusão do negócio, que funciona como catalisador para os próximos meses.

Sinergias e escala: o que sustenta a tese

Do lado positivo, a operação cria uma companhia combinada com posição de destaque no setor de saúde do consumidor e bem-estar. Projetando as receitas somadas, a nova estrutura deve se tornar a segunda maior do segmento, atrás apenas da Procter & Gamble, com dez marcas que faturam pelo menos US$ 1 bilhão cada.

A expectativa da administração é capturar US$ 1,9 bilhão em sinergias de custo, meta considerada razoável pela equipe de investimentos. A escala adicionada deve permitir a renegociação de contratos de compra de materiais usados em conjunto, a consolidação de sistemas e processos e a eliminação de estruturas corporativas duplicadas. Além disso, há espaço para sinergias incrementais de receita, embora em menor escala.

Números justificam a entrada com yield elevado

Atualmente, as ações da Kimberly-Clark são negociadas a aproximadamente 14 vezes as estimativas de lucro para 2026, com dividend yield de 4,75%, características consideradas atraentes diante do cenário de juros mais altos. A meta de preço definida para a posição é de US$ 120, o que equivale a 16 vezes o consenso de EPS para 2027, estimado em US$ 7,46. Esse múltiplo representa um desconto de quase quatro vezes em relação à Procter & Gamble, negociada a cerca de 20 vezes os ganhos esperados para 2027.

O racional por trás do preço-alvo é que a incorporação da Kenvue pode levar a uma reavaliação do papel, na medida em que a combinação traga crescimento mais acelerado e margens mais elevadas para o conjunto da operação. A saída da posição em Procter & Gamble, ocorrida em julho, reforça a lógica de troca dentro do portfólio: busca-se uma exposição semelhante ao setor, porém com valuations mais convidativos e um gatilho claro de reestruturação pela frente.

Portfólio em compasso de espera antes do Fed

A recomposição feita nos últimos dois dias mostra uma carteira mais cautelosa na entrada de setembro. Ao mesmo tempo em que preserva parte dos ganhos obtidos com o rali de IA ao vender a posição em Corning, a estratégia agora constrói uma espécie de colchão com papéis de menor volatilidade e maior previsibilidade de resultados.

No caso do BNY, o portfólio ganha um ativo exposto ao crescimento estrutural dos mercados financeiros, mas com modelo de negócio menos vulnerável ao aperto de crédito. Na Kimberly-Clark, a aposta combina rendimento imediato com um evento corporativo relevante — a conclusão da fusão com a Kenvue — que pode destravar valor nos próximos meses. Juntas, as duas posições funcionam como contrapeso tático à concentração em empresas ligadas à construção de data centers.