Emissão de cauda no Bitcoin
Debate sobre emissão de cauda no Bitcoin

O Bitcoin pode ter encontrado sua próxima grande polêmica: a chamada emissão de cauda. Após a aprovação do BIP-110, que buscou reduzir o spam na rede, a proposta de eliminar o limite máximo de 21 milhões de moedas e garantir uma emissão mínima e infinita para subsidiar mineradores voltou ao centro do debate. O assunto foi reacendido pelo desenvolvedor Peter Todd durante a conferência bitcoin++, realizada em Toronto, no Canadá.

Na prática, a emissão de cauda significaria o fim do teto de 21 milhões de bitcoins, com a criação de um volume perpétuo e reduzido de novas moedas destinado a manter a segurança da rede por meio da mineração. A ideia não é nova, mas Todd trouxe o tema de volta ao palco ao defender que o modelo atual pode não ser sustentável no longo prazo.

Recompensas em queda

Hoje, os mineradores recebem 3,125 bitcoins por bloco. Esse valor cairá para 1,5625 BTC em meados de abril de 2028, seguido de 0,78125 BTC em 2032, 0,390625 BTC em 2036, e assim sucessivamente, até zerar. Com isso, a operação fica cada vez mais dependente do preço do Bitcoin e das taxas de transação.

Para Todd, uma alternativa seria justamente acabar com o limite de 21 milhões de unidades e oferecer uma recompensa fixa e infinita por bloco. Em 2022, ele já havia publicado texto defendendo a tese de que a emissão de cauda não é inflacionária e que o modelo atual pode enfrentar problemas.

Argumentos do desenvolvedor

Na conferência no Canadá, Todd afirmou que, se o Bitcoin tivesse emissão de cauda desde o início, a ideia provavelmente seria aceita. “Economicamente, é similar ao ouro. Talvez 1% ao ano seja um pouco excessivo, mas existe algum número abaixo do qual ninguém realmente se importaria.” Ele acrescentou que a resistência à mudança não é econômica, mas política. “Se o Bitcoin tivesse isso desde o início, ninguém se importaria.”

O desenvolvedor, que já foi apontado como o criador do Bitcoin pela série da HBO, também argumentou que a rede opera em forte queda em relação ao seu topo histórico, o que tornaria uma leve inflação anual irrelevante para o preço. Ele reconheceu que o sistema atual funciona, mas destacou que não existem exemplos de outras criptomoedas proof-of-work com recompensas tão baixas. “Não temos exemplos dos quais possamos aprender”, disse, citando a dificuldade de estimar taxas de transação em outras moedas.

Todd ainda prevê que usuários migrarão para soluções de segunda camada, como a Lightning Network, para evitar custos elevados.

Reações da comunidade

A proposta já recebeu críticas. Cobra, dono do site Bitcoin.org, declarou em 2022 que preferia morrer a ver o Bitcoin ultrapassar o limite de 21 milhões. Adam Back, desenvolvedor do Hashcash, afirmou que a ideia nunca será aprovada. “Não sei por que ele não desiste dessa ideia. Nunca vai acontecer, jamais”, escreveu.

Uma sugestão alternativa partiu do perfil Farside Insights, que propôs realocar UTXOs para mineradores caso permanecessem não gastos por mais de 100 anos. Todd respondeu que o problema eclodirá muito antes disso.

O usuário hodlonaut, por sua vez, alertou que tanto a emissão de cauda quanto a realocação de UTXOs atacam as duas propriedades mais fundamentais do Bitcoin: a oferta fixa e as moedas intocáveis. Para ele, o fato de essas características estarem sendo tratadas como negociáveis merece atenção.

Com o próximo halving previsto para ocorrer em cerca de 600 dias, o debate tende a se intensificar. A divisão de opiniões já é clara, e a emissão de cauda pode se tornar o grande tema dos próximos ciclos.