A Liquid Network, estrutura paralela à blockchain do Bitcoin usada por exchanges para acelerar liquidações, foi alvo de um ataque cibernético que provocou o desvio de cerca de US$ 320 milhões em BTC. A operadora informou que aproximadamente 4 mil dos 4,2 mil Bitcoins mantidos em uma carteira da rede foram retirados, o que levou à suspensão imediata de novas transações até que o caso fosse controlado.

O incidente ganhou contornos incomuns quando a própria operadora sugeriu que os responsáveis poderiam ser hackers do tipo white hat, perfil que costuma revelar brechas e restituir valores, por vezes mediante pagamento. Em meio ao monitoramento da blockchain, no entanto, a devolução começou a ser processada poucas horas depois da exposição pública do problema.

Em publicação no X, o chefe de pesquisa da Galaxy Digital, Alex Thorn, afirmou que 3.400 BTC foram encaminhados de volta ao endereço original da federação. Esse montante representa 85% do total desviado; os demais 598,5 BTC, equivalentes a aproximadamente US$ 47 milhões, teriam permanecido sob controle dos invasores.

Rede lateral usada por exchanges é suspensa após retirada de ativos

A interrupção das operações foi confirmada pela própria Liquid Network, que administra a rede em conjunto com uma federação formada por mais de 80 empresas, incluindo exchanges, provedores de infraestrutura e gestoras de ativos. Em nota, a operadora pediu desculpas pelos transtornos e disse que os membros da federação atuavam para identificar o que havia ocorrido e permitir a retomada das atividades normais.

De acordo com o comunicado, os recursos foram retirados por meio da SideSwap, plataforma autorizada a processar transferências da Liquid, e a chave da rede não chegou a ser comprometida. A origem exata da falha ainda era investigada, mas as atenções se voltaram para um possível problema na emissão de L-BTC, o ativo usado internamente pela sidechain para representar o Bitcoin bloqueado na carteira original.

A Liquid foi criada em 2018 pela Blockstream Corp., empresa de tecnologia cofundada por Adam Back, criptógrafo ligado ao universo do Bitcoin. A proposta da rede é oferecer um caminho alternativo para transações mais rápidas e baratas em um momento em que a blockchain principal enfrenta filas e custos elevados em períodos de alta demanda.

Devolução dos fundos é registrada em blocos e gera nova leitura do caso

A movimentação de restituição foi observada no explorador de blocos Mempool, que registrou a transferência de 3.400 BTC no bloco 965.950 para o endereço original da federação. Antes da confirmação, mensagens atribuídas aos responsáveis pelo ataque e à Blockstream foram incorporadas a pequenas transações de Bitcoin via OP_RETURN, técnica que permite anexar dados a operações na rede.

Nas mensagens, os autores do ataque afirmavam que devolveriam os recursos assim que a correção da falha fosse confirmada. O formato do diálogo e a restituição parcial chamaram a atenção do setor, porque reforçam a tese de que os invasores estariam mais interessados em demonstrar a existência da brecha do que em manter a totalidade dos ativos desviados.

Apesar da devolução, o episódio escancara o risco de ataques a camadas auxiliares usadas por exchanges. A Blockstream lista entre as usuárias da Liquid Network as exchanges BTSE e Bitfinex, esta última ligada ao mesmo grupo controlador da Tether, maior emissora de stablecoins do mundo. A BitMEX, que anunciou o encerramento das operações neste mês, também era usuária da rede.

Histórico recente de invasões acende alerta sobre segurança no setor

O ataque à Liquid Network acontece na esteira de outro ataque registrado na semana passada, que drenou US$ 6 milhões de uma plataforma de empréstimos de ativos digitais ligada à Crypto.com. Em agosto, uma vulnerabilidade exposta na Coldcard, carteira offline utilizada por detentores de Bitcoin, levantou dúvidas sobre qual seria a forma mais segura de armazenar o ativo.

Para a chefe de política para a Ásia-Pacífico da TRM Labs, Ziqing Ang, eventos como esse podem abalar a confiança dos consumidores de forma compreensível, mas também jogam luz sobre os pontos em que as salvaguardas da infraestrutura crítica precisam ser reforçadas. Na avaliação dela, os operadores precisam adotar uma política de segurança abrangente em toda a infraestrutura.

Ainda não havia, até a noite de segunda-feira no horário de Londres, uma explicação definitiva sobre como a emissão de L-BTC teria sido explorada. O CEO da empresa de segurança cibernética FailSafe, Aneirin Flynn, afirmou que as evidências preliminares apontam para um bug na emissão do ativo. As companhias envolvidas, por sua vez, seguiram sem se manifestar publicamente sobre os detalhes da correção aplicada.