O Banco do Brasil (BBAS3) divulga na quarta-feira (12), após o fechamento do mercado, o balanço do segundo trimestre de 2026, em um momento de forte desvalorização das ações e expectativa de lucro menor. Na véspera, os papéis recuaram 3,74%, à mínima do ano, e acumulam queda de 8% em agosto — movimento que indica que os investidores já precificam resultados fracos.

O que o mercado projeta para o 2T26

As projeções das principais instituições financeiras convergem para um trimestre pressionado, especialmente pela deterioração da carteira de crédito rural. O Bank of America (BofA) estima lucro líquido de cerca de R$ 3,6 bilhões, queda de 3% na comparação anual e retração de 7% ante o primeiro trimestre. Goldman Sachs e JPMorgan projetam R$ 3,5 bilhões, recuo de 6% na base anual, enquanto o consenso compilado pela Bloomberg aponta para R$ 3,1 bilhões.

O BofA espera que o resultado antes dos impostos fique abaixo das estimativas, pressionado por despesas com provisões maiores do que o previsto. O crescimento da carteira de crédito deve permanecer em um dígito baixo, refletindo a fraca concessão no segmento rural e a desaceleração do consumo. O Goldman Sachs acrescenta que contingências legais devem elevar as despesas operacionais na comparação trimestral, com o retorno sobre patrimônio líquido (ROE) projetado em 8,4%, recuo de 1,06 ponto percentual na base anual.

Agronegócio segue como principal risco

O agronegócio continua sendo o principal obstáculo para o Banco do Brasil. Desde 2024, a inadimplência no setor rural pressiona os indicadores de qualidade da carteira. Segundo dados da Serasa, a inadimplência da população rural chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026, alta de 1,2 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2025 e de 0,6 ponto percentual ante o trimestre anterior.

A exposição ao setor é relevante: o crédito rural representa cerca de 32% da carteira ampliada do banco, que é o maior financiador do agronegócio no país. Os balanços dos concorrentes reforçaram a cautela. No Bradesco, o JPMorgan identificou deterioração no John Deere Bank, instituição focada no financiamento rural da qual o banco é sócio desde 2024: cerca de 10% da carteira migrou da categoria Stage 1 para Stage 2 no segundo trimestre, o que corresponde a aproximadamente R$ 1,7 bilhão em operações com risco elevado.

O Santander também frustrou parte do mercado com provisões maiores e receitas mais fracas. Já o Itaú mostrou resiliência na qualidade dos ativos, com inadimplência acima de 90 dias estável em 1,9% e ROE de 24,3%, apoiado pela diversificação das receitas.

MP das dívidas rurais pode aliviar, mas efeito é gradual

A Medida Provisória 1.376/2026, que prevê a renegociação de dívidas rurais, é vista como um possível ponto de alívio para o Banco do Brasil. O banco já iniciou os procedimentos para operacionalizar as linhas de renegociação, mas a implementação ainda depende de regulamentação complementar do CMN e do Ministério da Fazenda.

O BTG Pactual avalia que a medida pode funcionar como uma “ponte para uma recuperação gradual”, embora o impacto relevante no balanço só deva aparecer a partir do quarto trimestre de 2026. O banco mantém recomendação neutra para BBAS3, com preço-alvo de R$ 25.

Na visão de Octaciano Neto, fundador da Zera, a deterioração já está, em boa medida, precificada pelo mercado. “Minha leitura é que o pior pode ter passado, mas a recuperação não será rápida”, afirma. Ele lembra que o Banco do Brasil adotou postura mais seletiva na concessão de crédito ao agronegócio, o que reduziu a liquidez dos produtores e contribuiu para o agravamento da carteira. Com as margens de soja e milho ainda pressionadas, a melhora da inadimplência tende a ser lenta.

O que observar no balanço

Além do lucro, o mercado deve acompanhar a trajetória da inadimplência e do custo de crédito. A expectativa é que os investidores busquem sinais de desaceleração dos atrasos ou indícios de que o banco precisará elevar ainda mais as provisões. O resultado do Banco do Brasil também deve funcionar como um termômetro da qualidade do crédito rural brasileiro, diante da maior exposição da instituição ao setor.