O Itaú BBA adotou uma postura mais defensiva em relação aos bancos brasileiros: cortou estimativas de lucro para 2027, rebaixou o Nubank na escala de recomendação e elegeu o Bradesco como a única grande instituição do País com avaliação de compra em sua cobertura, conforme relatório acompanhado pelo InfoMoney. A revisão alcança a maior parte das companhias monitoradas pela casa e tem como pano de fundo um cenário de economia menos aquecida, redução do suporte fiscal e social e eventuais pressões inflacionárias ligadas à escalada recente de commodities e do petróleo.
Mesmo com o tom mais cauteloso, os analistas afirmam não identificar riscos imediatos para a qualidade do crédito do setor. A preocupação está concentrada no ambiente projetado para os próximos anos, e não em uma deterioração abrupta das carteiras no curto prazo.
Corte de 8% nas estimativas e aposta no mercado de capitais
A instituição reduziu em 8% suas projeções de lucro para 2027 e passou a trabalhar com números cerca de 15% inferiores ao consenso do mercado. Na reorganização de preferências, ganharam espaço empresas ligadas ao mercado de capitais — B3 (B3SA3), BTG Pactual (BPAC11) e XP (XPBR31) —, que aparecem à frente dos bancos tradicionais.
Entre os fatores que pesaram na revisão, o relatório menciona a possibilidade de o Banco Central lançar mão de medidas macroprudenciais voltadas a linhas de crédito de custo mais elevado para as famílias, o que atingiria uma parcela relevante da operação de algumas instituições.
Nubank perde o status de compra
O Nubank (BDR: ROXO34) deixou a recomendação de desempenho acima da média do mercado e passou a desempenho em linha com o mercado. O preço-alvo para o fim de 2027 caiu de US$ 20 para US$ 18 por ação negociada na Bolsa de Nova York.
Os analistas explicam a mudança pela desaceleração esperada no ritmo de crescimento dos resultados em 2027. Entram na conta um consumidor brasileiro em ambiente potencialmente mais difícil, o recuo dos estímulos governamentais, o amadurecimento da carteira de crédito pessoal e a expansão das operações nos Estados Unidos, que deve demandar aportes adicionais.
A fintech continua sendo vista como vencedora no longo prazo e deve entregar resultados sólidos no curto prazo, segundo a casa. O risco adicional é a eventual adoção de medidas macroprudenciais que afetem linhas mais caras de crédito às famílias, segmento com peso expressivo na operação da companhia.
Bradesco lidera e inadimplência entra no radar
Com o rebaixamento do Nubank, o Bradesco (BBDC4) se tornou o único grande banco brasileiro com recomendação de desempenho acima da média na cobertura do Itaú BBA. A instituição negocia a cerca de 1,1 vez o valor patrimonial e 7 vezes o lucro projetado para 2026, combinação que os analistas consideram a melhor relação entre risco e retorno do setor. O preço-alvo foi mantido em R$ 22.
A tese se apoia em sinais crescentes de melhora operacional no varejo e no segmento corporativo, mesmo com pequenos ajustes negativos nas projeções de lucro. A área de seguros, responsável por mais de 40% dos ganhos do grupo, deve seguir avançando em ritmo de dois dígitos. Na avaliação da casa, o mercado ainda concede pouco benefício da dúvida à instituição, o que abre espaço para uma reprecificação positiva caso a entrega operacional continue evoluindo.
No Banco do Brasil (BBAS3), as alterações foram mais contidas. As projeções de provisões seguem conservadoras e a maior fonte de incerteza permanece a carteira do agronegócio, enquanto a deterioração recente da inadimplência do varejo chama atenção: a inadimplência superior a 90 dias das pessoas físicas subiu para 8,41%, e os atrasos em cartões de crédito alcançaram 14,6%. A administração projeta custo de risco inferior a 5% em 2027 e perto de 3,5% no horizonte mais longo.
Sobre a qualidade do crédito do sistema como um todo, o Itaú BBA sustenta que boa parte da piora nos indicadores agregados decorre de fatores técnicos e estruturais: alterações nas regras de baixa de créditos inadimplentes elevaram de forma artificial os índices divulgados pelo Banco Central, e o avanço de fintechs e bancos digitais, que operam com inadimplência mais alta, infla as estatísticas consolidadas. Os grandes bancos privados seguem apresentando comportamento melhor que o do sistema financeiro. O cenário-base da casa continua sendo o de “pouso suave” para a qualidade dos ativos, ainda que o ambiente de 2027 seja menos favorável.





