O Ibovespa voltou a operar acima dos 186 mil pontos nesta sexta-feira, 4 de setembro, em uma sessão de forte volatilidade, depois que o payroll americano veio acima do esperado e reacendeu no exterior a aposta de juros mais altos nos Estados Unidos. O índice brasileiro chegou a marcar 186.544,81 pontos na máxima do dia, com alta de 0,73%, impulsionado pela Vale, enquanto o dólar comercial subia a R$ 5,11 e os juros futuros recuavam, apesar do avanço dos rendimentos dos Treasuries e do fortalecimento da moeda americana no mercado global.
O pregão desta sexta resume o dilema dos investidores: nos Estados Unidos, o payroll de agosto mostrou criação de 162 mil vagas, volume aproximadamente três vezes superior ao esperado, e a leitura imediata foi a de que o Federal Reserve pode precisar subir juros para conter a inflação. No Brasil, a expectativa de um novo corte da Selic seguiu dominando a curva de juros, e o noticiário político passou a ditar parte do apetite a risco.
Payroll forte reacende pressão por aperto monetário no Fed
O relatório de empregos americano agitou os mercados logo pela manhã. Os rendimentos dos Treasuries avançaram e o dólar ganhou força ante as principais divisas, num movimento que chegou a pressionar ativos de mercados emergentes e derrubou o Ibovespa nas primeiras reações. A leitura predominante foi a de que a economia americana segue aquecida e que a inflação ainda não está sob controle para justificar cortes de juros.
Os investidores passaram a precificar chances maiores de elevação da taxa americana já na reunião de setembro, o que derrubou a expectativa de alívio monetário nos Estados Unidos. No Brasil, o movimento inicial foi de alta do dólar e das taxas dos DIs, com o Ibovespa renovando mínimas, mas parte da pressão se dissipou ao longo da manhã e o mercado local encontrou um viés mais construtivo.
O fortalecimento do emprego nos Estados Unidos também embaralha o caminho da política monetária brasileira. Juros americanos mais altos por mais tempo tendem a limitar o espaço para cortes na Selic, especialmente num cenário de câmbio pressionado. Ainda assim, a curva de juros doméstica passou a ceder no início da tarde, sinalizando que os agentes seguem apostando na continuidade do afrouxamento pelo Banco Central.
Trump pressiona Fed e prepara decreto para carne bovina
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a criticar a condução da política monetária e afirmou que, se o Federal Reserve não reduzir juros, deixará de fazer negócios com alguns países. A declaração aumentou o tom de incerteza no exterior e serviu de pano de fundo para o movimento das moedas, mas teve efeito limitado sobre os preços dos ativos brasileiros após as primeiras horas de negociação.
No plano comercial, duas fontes a par do assunto afirmaram que Trump deve assinar um decreto relacionado à carne bovina ainda nesta sexta-feira. A Casa Branca não respondeu imediatamente a pedidos de esclarecimento, e o mercado acompanha os desdobramentos.
Juros futuros cedem e Tesouro IPCA+ atinge mínima desde maio
O mercado de juros brasileiro surpreendeu ao longo da tarde. O rendimento do Tesouro IPCA+ caiu e renovou mínima desde maio, apesar do payroll forte nos Estados Unidos, com a expectativa de novo corte da Selic dominando a curva. Os DIs, que haviam subido nas primeiras reações, passaram a operar em queda, cedendo espaço para uma leitura mais favorável dos ativos domésticos.
Na mesa de câmbio, o Banco Central divulgou a PTAX parcial com compra a R$ 5,1247 e venda a R$ 5,1253, acima das referências do fechamento anterior, que ficaram em R$ 5,0956 na compra e R$ 5,0962 na venda. O dólar comercial rondava R$ 5,11, ainda em alta, porém distante das máximas registradas logo após a divulgação do dado americano.
O comportamento da curva indica que a formação de preços no Brasil segue mais sensível ao cenário local de política monetária do que ao movimento externo de juros. A busca por proteção inflacionária no Tesouro IPCA+, combinada à queda das taxas futuras, sugere que os investidores seguem comprados na tese de continuidade do ciclo de cortes da Selic.
Eleições e crise institucional entram no radar dos investidores
A disputa presidencial voltou a pesar na formação de preços. Pesquisa Datafolha divulgada na véspera indicou um cenário mais acirrado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, reproduzindo uma tendência observada em outros levantamentos ao longo da semana. O mercado passou a monitorar cada movimento do noticiário política para calibrar cenários de governabilidade e política econômica.
Nesta sexta-feira, Lula afirmou que ninguém pode utilizar o cargo em benefício pessoal e disse ter uma preocupação quase “sobrenatural” para que a sociedade não perca a esperança e a fé nas instituições, em meio à crise do Supremo Tribunal Federal. As declarações foram dadas durante evento no Palácio do Planalto, em um dia de intenso movimento político.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, também discursou e defendeu a Constituição de 1988, destacando que um país ainda marcado por desigualdades profundas precisa de um Judiciário atento, de um Ministério Público vigilante e de uma Defensoria Pública bem estruturada. Messias agradeceu a aprovação das medidas aos presidentes do Legislativo, incluindo os senadores Davi Alcolumbre e Rodrigo Pacheco e o deputado Hugo Motta, em um contexto marcado pela rejeição de sua indicação ao STF pelo Senado.
Vale impulsiona máximas e Santander destoa entre bancos
A Vale foi a grande força motriz do Ibovespa na parte da tarde. As ações da mineradora renovaram máximas sucessivas e chegaram a subir 1,57%, cotadas a R$ 79,68, por volta das 13h21. O papel puxou o índice para uma sequência de recordes diários, que passou por 186.030,99 pontos, 186.212,35 pontos, 186.272,27 pontos e 186.472,33 pontos até alcançar 186.544,81 pontos.
No setor bancário, o movimento foi menos uniforme. O Santander (SANB11) operava como a única queda entre os grandes bancos, com variação negativa de 0,13%, a R$ 30,40, perto das 13h30. As demais grandes instituições seguiam em terreno positivo, o que ajudou a dar consistência ao avanço do índice.
A combinação de uma blue chip de peso em alta com um sistema financeiro relativamente estável criou o ambiente necessário para o Ibovespa operar no azul, apesar da pressão cambial e da cautela com o cenário externo. O comportamento reforça a leitura de que o fluxo comprador segue seletivo e concentrado em setores de maior liquidez.
XP corta projeção do PIB de 2026 e alerta para ressaca da economia
A XP reduziu a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto brasileiro para 2026 e passou a usar a expressão “ressaca antes da hora” para descrever o atual estágio da atividade econômica. A revisão, divulgada no noticiário desta manhã, adiciona um tom de cautela ao movimento de alta das ações.
O alerta contrasta com o apetite a risco da bolsa nesta sexta e reforça o debate sobre a sustentabilidade do ciclo de queda da Selic. O quadro ocorre justamente quando o payroll americano fortalece o dólar e reacende dúvidas sobre o ritmo de afrouxamento monetário nos Estados Unidos, o que tende a manter a economia doméstica sob vigilância.
Origem Energia projeta receita bilionária e PetroReconcavo perde prazo na ANP
No setor de energia, a Origem Energia afirmou que pretende superar R$ 2 bilhões em receitas até 2026, com aposta no gás natural e em soluções integradas. A estratégia da companhia é usar a fonte doméstica como diferencial para dar previsibilidade e segurança aos clientes no mercado brasileiro.
Na mesma frente, a ANP negou o pedido da PetroReconcavo para prorrogar o período de exploração do bloco POT-T-702, localizado em terra, na bacia Potiguar, dentro do Polo Sabiá, no Rio Grande do Norte. A petroleira havia solicitado mais 18 meses para reavaliar a área remanescente, mas a diretoria da agência entendeu que a concessão terminou em junho e que o programa exploratório mínimo foi cumprido.
O relator do processo, diretor Pietro Mendes, destacou que não havia plano de descobertas em andamento nem poço em perfuração na área e que a empresa perdeu o prazo de 90 dias antes do fim do contrato para apresentar a reivindicação. Foi registrada ainda a declaração de comercialidade do campo Sabiá Laranjeira pela companhia em 2024, o que não impediu o indeferimento do pedido.
Diesel em patamar recorde nos EUA pressiona transporte e alimentos
Nos Estados Unidos, o preço médio do diesel atingiu recorde de US$ 5,85 por galão nesta sexta-feira, impulsionado pelos efeitos da guerra com o Irã sobre o fluxo global de combustíveis. A alta pressiona o transporte de cargas e começa a aparecer em sobretaxas de entrega e em preços maiores de produtos, com destaque para alimentos perecíveis como frutas, verduras, carnes e pescados, que dependem de reposição constante.
Segundo dados da associação automobilística AAA, o diesel está quase 56% mais caro do que antes do início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, no fim de fevereiro, quando a média nacional era de cerca de US$ 3,76 por galão. O petróleo subiu diante das interrupções no abastecimento no Oriente Médio e dos gargalos ao tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz.
O movimento tem potencial para espalhar pressão inflacionária por diferentes cadeias produtivas, uma vez que o diesel é amplamente utilizado em caminhões, máquinas agrícolas, trens e barcos. O tema entra no radar de quem acompanha os custos de produção e a formação de preços ao consumidor em nível global.





