O Ibovespa encerrou a sexta-feira, 4 de setembro, praticamente estável, mas o resultado escondeu um pregão de forte volatilidade. O índice oscilou entre 183.251 e 186.544 pontos e fechou aos 185.147 pontos, com variação negativa de 0,02%, depois de ter começado o dia em queda superior a 1% e de ter ensaiado uma recuperação consistente durante a manhã.

O motor da turbulência foi o payroll dos Estados Unidos. O relatório oficial de empregos mostrou a criação de 162 mil vagas em agosto, número cerca de três vezes maior que a projeção de 55 mil postos de trabalho. A taxa de desemprego permaneceu em 4,1%, conforme o esperado, e o ganho médio por hora trabalhada subiu 0,3% no mês. Na comparação em 12 meses, os salários avançaram 3,1%, levemente acima da previsão de 3,0%.

Para Rafael Perretti, economista e analista da Clear Corretora, o grande destaque do relatório foi a criação de vagas, porque os demais componentes vieram próximos das projeções. Na visão dele, um mercado de trabalho ainda firme tende a dar ao Federal Reserve mais espaço para manter o foco no controle da inflação, sem pressa para mudar a política monetária.

Payroll forte remexe nas apostas para a reunião do Fed

A repercussão apareceu rapidamente nas probabilidades da ferramenta FedWatch, da CME. A chance de o Federal Reserve elevar os juros em 0,25 ponto percentual na próxima reunião, para o intervalo de 3,75% a 4,00%, passou de 49,4% para 58,6%. Já a probabilidade de manutenção da taxa atual, entre 3,50% e 3,75%, caiu de 50,6% para 41,4%.

O ajuste também foi sentido no mercado de títulos públicos americanos. O rendimento da Treasury de dois anos, bastante sensível às expectativas para a política monetária, subiu cerca de 4 pontos-base, para 4,377%. Esse movimento reforçou a leitura de que juros americanos podem seguir elevados por mais tempo, cenário tradicionalmente desafiador para ativos de risco emergentes.

Ibovespa cai na abertura, recupera e esbarra em resistência

Na abertura, o Ibovespa refletiu o choque externo e chegou a 183.251 pontos, em queda superior a 1% sobre o fechamento anterior, de 185.188 pontos. O recuo inicial deu força à leitura de parte dos operadores de que a Bolsa brasileira, depois de uma sequência de altas, tinha espaço para realizar lucros. Alexandre Wolwacz, sócio-fundador da Liberta, apontava exatamente esse cenário, enquanto Alison Correia, sócio da Dom Investimentos, via no payroll o gatilho que faltava para uma correção.

O movimento negativo, porém, perdeu intensidade ao longo da manhã. O Ibovespa voltou ao campo positivo e alcançou 186.544 pontos, mesmo com a piora do ambiente externo, marcado por alta nos rendimentos dos Treasuries, valorização do dólar e queda das bolsas em Nova York. André Moraes, CEO da Trade ao Vivo e chairman da BFR Investimentos, já havia alertado antes da divulgação que um payroll forte poderia reforçar a percepção de pressão inflacionária e aumentar a possibilidade de juros mais altos nos Estados Unidos.

Na máxima, o índice encontrou uma barreira na região dos 186,5 mil pontos, definida por Moraes como a primeira resistência importante do dia. Sem conseguir sustentar o avanço, o Ibovespa recuou gradualmente na parte da tarde e terminou aos 185.147 pontos, com variação negativa de apenas 0,02%. A amplitude entre a mínima e a máxima do pregão superou 3,2 mil pontos.

Fatores domésticos sustentam o mercado em meio ao choque externo

Na avaliação de Rafael Perretti, o impacto do payroll foi forte no primeiro momento, mas não teve continuidade porque as variáveis domésticas voltaram a dominar a precificação. A trajetória das contas públicas, as expectativas para o cenário eleitoral e a percepção de que a Bolsa brasileira segue atrativa e com valuation descontado foram citadas por ele como elementos que mantiveram o interesse do capital estrangeiro em investimentos no país. O economista ressalvou, no entanto, que essa leitura continua dependente da evolução da disputa eleitoral e da agenda fiscal.

Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, também enxerga no cenário local o principal contrapeso ao estresse externo. Para ele, depois da pressão inicial típica de um dado restritivo, o fluxo comprador voltou ao mercado brasileiro. Uarian acrescentou que os investidores parecem priorizar as perspectivas eleitorais do país, o que ajudou a limitar o efeito negativo do payroll sobre os ativos domésticos no curto prazo.

Vale e Itaú ajudam, Petrobras limita alta e índice perde fôlego

O desempenho das ações de maior peso explica parte da gangorra do Ibovespa. A Vale subiu 0,22%, a R$ 78,62, enquanto o Itaú encerrou estável, a R$ 41,92. Esses papéis estiveram entre os que ajudaram o índice a encontrar compradores e a reduzir as perdas ao longo da sessão.

Do lado contrário, a Petrobras pressionou o benchmark. As ações preferenciais caíram 0,95%, a R$ 47,11, e as ordinárias recuaram 1,08%, a R$ 52,01. Na avaliação de André Moraes, Vale e bancos lideraram a reação, enquanto a petroleira funcionou como contrapeso, impedindo que o Ibovespa sustentasse um avanço mais claro.

Dólar avança a R$ 5,13 e Wall Street fecha no vermelho

O real perdeu força diante do dólar no encerramento da sessão. A moeda americana subiu 0,5%, a R$ 5,13, depois de circular entre R$ 5,10 e R$ 5,14, com o mercado ajustando posições após a revisão das expectativas para os juros americanos.

Em Nova York, os três principais índices fecharam em queda: o S&P 500 recuou 0,38%, o Dow Jones caiu 0,53% e o Nasdaq perdeu 0,29%. O contraste com a estabilidade do Ibovespa reforça a tese de que, ao menos na sessão, o cenário doméstico foi mais influente para o mercado brasileiro do que o estresse vindo dos Estados Unidos.