Análise do BBAS3 com projeções de dividendos e recomendação da XP
Ações do Banco do Brasil seguem com recomendação neutra da XP

As ações do Banco do Brasil (BBAS3), que estiveram perto das mínimas desde 2023 na esteira do balanço, ganharam fôlego com o chamado trade eleitoral e acumulam alta superior a 20%. O rali, porém, não alterou a avaliação da XP: a corretora mantém recomendação neutra para o papel e atualizou o preço-alvo para R$ 21, o que implica potencial de queda de 1,2% diante do fechamento de R$ 21,26.

A leitura dos analistas é que o ambiente operacional melhorou em algumas frentes, mas a situação do banco segue distante de um cenário confortável. A recuperação da rentabilidade deve ser gradual e convive com riscos no crédito, restrição de capital e um valuation que já limita espaço para novas altas relevantes.

Recomendação neutra e valuation sem espaço para surpresa

Entre os pontos positivos, a XP destaca o possível efeito da Medida Provisória 1.376 sobre a carteira agrícola. O programa criou condições para renegociação de dívidas com entrada, alongamento de prazos e exigência de garantias adicionais, o que pode funcionar como alívio para produtores endividados. Na avaliação da casa, isso tende a melhorar a qualidade dos ativos e a reduzir o custo de risco nos próximos trimestres.

Essa melhora, contudo, convive com riscos de execução e com uma piora relevante na carteira de pessoa física. Além disso, a XP ressalta que, mesmo em um cenário estressado, BBAS3 negocia acima de sua média histórica de P/L, em cerca de 5 vezes para 2027. Para os analistas, esse nível sugere potencial de valorização limitado e pouco espaço para uma reprecificação relevante no curto prazo.

Dividendos: payout segue pressionado

Para investidores orientados a renda, as projeções da XP indicam dividendos ainda contidos nos próximos anos. A corretora afirma que o payout deve continuar apertado, atualmente em 30%, porque os níveis mais baixos dos índices de capital e o patrimônio tangível menor tendem a manter a administração focada em preservar flexibilidade de capital.

Nas estimativas da XP, o dividendo por ação (DPS) deve ficar em R$ 0,70 em 2026, subir para R$ 1,20 em 2027 e alcançar R$ 1,60 em 2028. Considerando as premissas da casa, os valores corresponderiam a dividend yields de aproximadamente 3,4%, 5,9% e 7,5%, com payout projetado de 24% em 2026 e de 30% em 2027 e 2028.

Agro: alívio deve aparecer de forma gradual

O principal catalisador positivo para BBAS3, segundo a XP, está no agronegócio. A combinação da MP 1.376 com sinais de recuperação dos preços da soja e um real mais fraco deve melhorar gradualmente a situação financeira dos produtores. A corretora projeta queda relevante do custo de risco ligado ao agro a partir do quarto trimestre de 2026, com reflexos positivos também em 2027 e 2028.

O impacto, no entanto, não deve ser imediato. Muitos produtores adiaram pagamentos e renegociações enquanto aguardavam maior clareza sobre o novo programa. Por isso, a XP espera que o terceiro trimestre ainda mostre pressão nos resultados, com recuperação mais visível apenas a partir do quarto trimestre. A XP também cita estimativa da própria administração do Banco do Brasil segundo a qual cada R$ 1 bilhão em empréstimos renegociados poderia adicionar cerca de R$ 200 milhões ao lucro.

Pessoa física vira nova frente de preocupação

Se o agro começa a dar sinais de melhora, o crédito para pessoa física passou a representar nova fonte de pressão. A XP observa que a qualidade dos ativos dessa carteira piorou de forma relevante no segundo trimestre. Os créditos em atraso há mais de 90 dias, o chamado NPL 90+, subiram de 6,8% no primeiro trimestre para 8,4%, enquanto a cobertura caiu cerca de 22 pontos percentuais, para 125,8%.

Os novos créditos inadimplentes mais que dobraram no trimestre e somaram R$ 11,8 bilhões. Mais da metade do aumento da inadimplência veio dos cartões de crédito, mas a deterioração também avançou sobre os empréstimos consignados. Para a XP, a expansão recente da carteira de cartões ampliou a base de clientes e trouxe grupos considerados mais arriscados.

A corretora não espera que a inadimplência dos cartões volte aos níveis historicamente baixos, mas sim que encontre novo equilíbrio próximo aos padrões observados no mercado. Com isso, a melhora do agronegócio tende a ser parcialmente compensada pela piora no crédito às pessoas físicas, o que deve tornar mais lenta a recuperação da rentabilidade do Banco do Brasil.

XP prefere cautela antes de embarcar no rali

Diante desse cenário, a XP afirma preferir esperar para ver antes de adotar postura mais construtiva com BBAS3. Pesam na avaliação o ambiente macroeconômico desafiador, os riscos de execução ligados à MP 1.376, a qualidade dos ativos ainda pressionada e a flexibilidade de capital limitada do banco.

A recomendação neutra, nesse contexto, reflete a leitura de que o papel já não oferece margem confortável para novas altas consistentes, embora mantenha no agro o principal contraponto ao cenário adverso no crédito ao consumidor.