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Qualidade de vida

Como as empresas devem se preparar para o retorno ao trabalho presencial?

Corporações precisam ficar atentas à saúde mental de seus colaboradores, explica a psiquiatra Tânia Alves, do Instituto de Psiquiatria do HC de São Paulo

24 setembro 2021 - 11h10Por Agência EY

Por Agência EY - A saúde mental tem ganhado cada vez mais espaço na lista de prioridades no ambiente corporativo.

O isolamento causado pela pandemia de Covid-19, a inclusão da Síndrome de Burnout na lista de enfermidades da Organização Mundial da Saúde (OMS) e a redução do preconceito sobre o tema têm provocado discussão e implementação de programas de promoção de saúde e bem-estar físico e mental dos funcionários.

Dados da Secretaria Especial da Previdência e Trabalho apontam que, em 2020, com a chegada da pandemia, 576 mil pessoas pediram afastamento do trabalho por transtornos mentais e comportamentais - uma alta de 26% em comparação a 2019.

Um outro estudo realizado pela Ipsos para o Fórum Econômico Mundial, o One Year of Covid-19, coloca o Brasil em quinto lugar entre 30 nações que mais têm sentido as consequências da pandemia em seu bem-estar emocional.

A pesquisa on-line foi realizada com 21.011 entrevistados – sendo mil brasileiros –, com idades entre 16 e 74 anos, em 30 países, entre os dias 19 de fevereiro a 5 de março de 2021.

Do total de respondentes do Brasil, 53% acreditam que sua saúde mental mudou para pior desde o início da crise de Covid-19, 14% sentiram melhora e 34% não notaram qualquer diferença.

"O estresse é o principal fator que interfere na saúde mental dos colaboradores de uma empresa'', explica Tânia Alves, psiquiatra e coordenadora das Enfermarias do IPq - Instituto de Psiquiatria do HC de São Paulo.

Com o avanço da vacinação contra a Covid-19 e a retomada do trabalho presencial, o home office está deixando de ser opção para muitos trabalhadores.

Em entrevista exclusiva concedida à Agência EY, Tânia Alves aponta como deve ser o preparo para esse retorno ao escritório e como as corporações podem lidar com a saúde mental de sua equipe.

EY: A saúde mental dos funcionários passou a ser prioridade nas empresas?

Tânia Alves: Sim. Isso acontece por vários motivos. Um deles foi a mudança na CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde), que incluiu em sua lista a Síndrome de Burnout (Síndrome do Esgotamento Profissional, em que a pessoa apresenta sintomas emocionais e físicos, como cansaço físico e mental, depressão, dor de cabeça, insônia, dificuldade de concentração etc.).

Outro fator é que as empresas passaram a reconhecer que o presenteísmo (trabalhador está em seu posto de trabalho, mas é incapaz de se dedicar completamente à sua tarefa) e o absenteísmo são fatores de aumento de custo.

A maioria dessas faltas está ligada a diagnósticos de depressão, ansiedade ou burnout. Se tratados, reduzem o impacto financeiro na empresa.   

EY: Quais fatores podem interferir na saúde mental dos funcionários?

Tânia Alves: Vários fatores podem contribuir, mas o estresse é o principal deles. A ausência de estresse não é positiva porque leva a uma queda de rendimento. Estresse elevado, sem resiliência adequada, no entanto, faz com que o colaborador renda menos.

O ideal é buscar o nível adequado de estresse, no qual esse colaborador tenha uma pressão que aumente sua performance, mas não gere problemas.

Atualmente, o home office é um fator que está comprometendo a saúde mental pela ausência de suporte social. Trabalhadores isolados têm mais propensão a quadros de depressão e ansiedade comparados àqueles que estão trabalhando no dia a dia na empresa.

EY: Quais os problemas de saúde mental são identificados com mais frequência por conta da pandemia?

Tânia Alves: A pandemia aumentou muito os quadros de depressão e ansiedade. Uma pesquisa da American Psychiatric Association, nos Estados Unidos, apontou que os quadros de depressão, ansiedade e burnout triplicaram entre os trabalhadores quando se comparam os primeiros semestres de 2019 e 2020.

A pandemia aumenta o estresse e isso contribui para maior vulnerabilidade. 

EY: Como o gestor e a empresa podem identificar que um funcionário está passando por esse problema?

Tânia Alves: Uma mudança de comportamento ou a esquiva de voltar ao trabalho presencial ou híbrido, por exemplo. É importante o gestor ter um tempo para conversar individualmente com o colaborador e não ficar apenas em reuniões de grupo.

Abrir espaço para que o colaborador diga como está se sentindo. Mas é muito difícil identificar com o home office. É fácil esconder qualquer problema. Fecho a câmera ou só mostro um sorriso.

No trabalho presencial, convivo com a pessoa, percebo que, apesar do sorriso, ela está diferente. Muitas vezes quando a gente chama essa pessoa pessoalmente ela conta que não está bem. No home office o caminho é o gestor ter um espaço de conversa.

Muitas vezes, quando ele fala das dificuldades que está tendo no dia a dia, o colaborador também se sente à vontade para falar o que está passando.

EY: Como o gestor deve agir após essa identificação?

Tânia Alves: Sempre que a gente identifica alguém que está sofrendo um quadro de desordem emocional, é importante sugerir que procure tratamento, além de facilitar a procura de um psicólogo, médico ou psiquiatra.

A teleconsulta facilitou o contato com esses profissionais. É preciso reforçar a importância do tratamento e a perspectiva de melhora.

EY: O que as empresas e os gestores podem fazer para amenizar o impacto do isolamento gerado pela pandemia?

Tânia Alves: A Covid-19 levou a um isolamento necessário. Com o retorno ao trabalho presencial, a empresa precisa facilitar a saída de funcionários que estão fóbicos. O modelo híbrido vai permitir que eles saiam desse isolamento.

Misturar o home office com o presencial vai ajudar muito no suporte social. A empresa pode promover espaço para discussões e organizar horários entre reuniões para conversas e escuta dos funcionários.

Estamos em um momento delicado de aprender a nova realidade e adaptá-la ao cotidiano. É um aprendizado contínuo e de avaliação. Apoio social é um fator protetor para desordens emocionais.

EY: É importante a empresa ter um programa de promoção de saúde?

Tânia Alves: A promoção de saúde é um aspecto muito importante e o que tem mais impacto dentro de uma empresa, porque constrói uma qualidade de vida e bem-estar. É fundamental ter um espaço que promova um estilo de vida de uma forma ampla - físico, mental e emocional.

Depois, vem o segundo nível, a prevenção de doenças. Ter um diagnóstico precoce e evitar que pessoas mais vulneráveis adoeçam.

EY: Como a empresa deve preparar o retorno ao ambiente de trabalho presencial?

Tânia Alves: A primeira ação é reconhecer a dificuldade. As empresas não podem fechar os olhos para o sofrimento causado pela saída de casa. Geralmente, as pessoas agem em polos. Ou não me preocupo com nada ou me preocupo demais.

O colaborador precisa se sentir seguro. E, além de tratar individualmente aqueles que estão fóbicos ou se afastaram por depressão ou burnout, por exemplo, a empresa precisa reconhecer a ansiedade, os medos e as dificuldades de cada pessoa e facilitar seu retorno.

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