O Phoenix Suns chega à nova temporada da NBA com um descompasso no perímetro: a equipe perdeu duas de suas principais referências de arremesso de três pontos. Grayson Allen e Royce O’Neale, agora no Charlotte Hornets, converteram 371 bolas de longa distância na última temporada, volume que correspondeu a 31% de todos os acertos do time de trás do arco. Para compensar a lacuna, a chegada de Luke Kennard projeta uma mudança de função para o veterano, que precisará arremessar em quantidade próxima ou superior a qualquer outra fase da carreira.

O déficit ganha contorno ainda mais claro no quinteto projetado para iniciar as partidas. Jalen Green, Devin Booker, Dillon Brooks, Miles Bridges e Mark Williams somam 4.296 arremessos de três convertidos em 12.387 tentativas durante suas trajetórias na liga, o que equivale a um aproveitamento de 34,7%. A média da NBA na temporada passada foi de 36%, um indicativo de que o time precisará de mais espaçamento do que a formação titular oferece no papel.

O vazio no perímetro de Phoenix

A reconstrução do ataque dos Suns passa por um novo equilíbrio entre o garrafão e a linha de três pontos. A diretoria reforçou o entorno da cesta com a chegada de Miles Bridges, ao mesmo tempo em que precisou encontrar substitutos para Allen e O’Neale no perímetro. Kennard e Collin Gillespie despontam como as principais alternativas de arremesso de fora do banco, com perfis complementares dentro da rotação preparada por Jordan Ott.

A diferença é que Kennard entra com um histórico raro de precisão. São 44,2% de aproveitamento na carreira, mas com média de apenas 4,3 tentativas por jogo ao longo de nove temporadas. Na última temporada, diversos atletas que passaram pelo elenco tiveram média de tentativas de três superior a esse número.

Quando a tentativa aumentou, a eficiência seguiu alta

Os melhores momentos da carreira de Kennard indicam que ele tende a render mais quando recebe mais bolas. Em 2019-20, pelo Detroit Pistons, ele atingiu o recorde pessoal de 6,5 tentativas de três por partida. Em 2021-22, pelo Los Angeles Clippers, manteve 6,0 tentativas e liderou a liga com 44,9% de conversão da linha de três. Mais recentemente, há duas temporadas, quando atuou pelo Memphis Grizzlies, voltou a registrar 6,1 arremessos por jogo.

Na última temporada, contudo, Kennard ficou em 3,1 tentativas por jogo, a segunda menor marca da carreira. Parte do novo contexto em Phoenix aponta para uma utilização mais intensa, possivelmente acima dos 6,5 da temporada do Detroit. A necessidade de repor a produção perdida com Allen e O’Neale coloca Kennard diante da missão de operar, de forma sustentada, na casa dos sete arremessos por partida.

O sistema ofensivo reforça a aposta no perímetro

O esquema comandado por Jordan Ott já tem identidade definida quando o assunto é arremesso de longa distância. Os Suns terminaram a última temporada com média de 40,8 tentativas de três por jogo, a quinta maior da NBA. Além disso, 45,3% dos arremessos de quadra saíram de trás do arco, o sétimo maior índice da competição.

Essa vocação não deve desaparecer com a chegada de Bridges. O risco é justamente a falta de equilíbrio: a equipe ostentou alta taxa de arremessos de três ao mesmo tempo em que ficou na 29ª posição em cestas convertidas dentro de cinco pés do aro. Nesse cenário, Kennard não é apenas uma válvula de escape; é uma peça para fazer o time manter a ameaça externa enquanto ajusta sua presença perto da cesta.

Kennard pode não começar como titular nem ser o nome mais lembrado das contratações, mas o veterano reúne exatamente o que a equipe perdeu: consistência e confiança da linha de três. Kennard liderou o aproveitamento da NBA em três temporadas diferentes e, no Phoenix, precisará transformar essa regularidade em volume jamais exigido dele. Se o aproveitamento se mantiver, a lacuna deixada no perímetro tende a ficar menos visível já nas primeiras rodadas.

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