Memphis Depay completou nesta quarta-feira, 9, dois anos como jogador do Corinthians. O balanço do período reúne três títulos, 83 partidas e 20 gols pelo clube, mas também uma dívida de R$ 42 milhões — que chega a R$ 77 milhões com juros —, seis lesões musculares em duas temporadas, cobranças públicas ao elenco e uma disputa política interna que colocou a renovação do holandês no centro do embate entre o técnico Fernando Diniz e parte dos conselheiros alvinegros.
Ao lado das conquistas e dos números, o camisa 10 terminou o dia do aniversário na expectativa de um resultado positivo contra o Estudiantes, às 21h30 (de Brasília), na Argentina, pela partida de ida das quartas de final da Conmebol Libertadores.
Dois anos, três títulos e 83 jogos
Aos 32 anos, Memphis acumula 83 jogos pelo Corinthians, sendo 64 como titular, com 20 gols e 16 assistências. Ele está entre os dez jogadores que mais marcaram na Neo Química Arena, com 13 gols no estádio, e é o 12º estrangeiro com mais partidas disputadas pelo clube.
O holandês chegou ao Corinthians em setembro de 2024, sob a gestão do ex-presidente Augusto Melo, e foi peça fundamental na arrancada do time então comandado por Ramón Díaz, que saiu da zona de rebaixamento no Brasileirão e passou a brigar por uma vaga na Copa Libertadores. O trio formado ao lado de Rodrigo Garro e Yuri Alberto potencializou seu futebol.
A lista de conquistas inclui o Paulistão de 2025, vencido sobre o Palmeiras, e a Copa do Brasil, na qual marcou o gol do título sob o comando de Dorival Júnior, em vitória por 2 a 1 sobre o Vasco, no Maracanã. Neste ano, ajudou o Corinthians a derrotar o Flamengo, no Mané Garrincha, em Brasília, e a faturar a Supercopa Rei.
Lesões, Mundial e a caça ao ritmo
A passagem de Memphis pelo Corinthians também foi marcada por recorrentes lesões musculares: foram seis em duas temporadas. O caso mais difícil ocorreu neste ano, quando o atacante ficou 63 dias fora de combate por causa de um estiramento de grau 2 no músculo anterior da coxa direita e chegou a correr risco de não ser convocado para a Copa do Mundo.
O problema começou em março, em partida contra o Flamengo na Neo Química Arena, e foi agravado por um erro interno da comissão técnica durante um exercício na academia do CT Joaquim Grava, quando o jogador estava próximo de voltar aos gramados. Memphis retornou em 24 de maio, foi convocado para o Mundial, mas, sem ritmo de jogo, ficou no banco de reservas e acabou pouco aproveitado pela seleção da Holanda, eliminada na segunda fase pelo Marrocos.
A expectativa inicial era de que o atacante fizesse a pré-temporada com o restante do elenco, mas a demora na negociação pela renovação se estendeu por meses e impediu o retorno antecipado. Nos exames médicos solicitados pelo Corinthians, em agosto, Memphis apresentou resultados considerados positivos pelo clube, sobretudo nos testes de força muscular.
Desde que assinou a renovação, em 18 de agosto, foram nove sessões completas de treinamento com bola, quatro partidas, uma assistência nas oitavas de final da Libertadores e 250 minutos em campo, com média de 62,5 minutos por jogo. A última vez que o camisa 10 havia disputado quatro jogos em sequência foi em fevereiro, quando venceu o Flamengo na final da Supercopa Rei e emendou participações contra Capivariano, Palmeiras e Red Bull Bragantino.
O próprio jogador reconhece que o desafio atual não é físico, mas de ritmo. “Preciso respeitar o processo do meu corpo, cheguei há duas semanas. Fisicamente estou bem, não estou doente. Disputei quatro jogos em duas semanas, não acho que seja normal”, afirmou. “Quando eu estiver 100% fisicamente, posso ajudar mais o time. Vou ser claro: não posso decidir os jogos sozinho, preciso dos meus companheiros”, completou, pedindo que seja colocado em condições de finalizar e de enfrentar os marcadores no mano a mano.
A dívida de R$ 42 milhões e a renovação até 2028
A dívida do Corinthians com Memphis é hoje de R$ 42 milhões — que chegam a R$ 77 milhões com juros — e foi o principal empecilho para a extensão do vínculo até julho de 2028. O antigo contrato foi motivo de discordância interna, e parte dos conselheiros foi contra a renovação.
Para permanecer, o holandês aceitou uma redução salarial de R$ 3,5 milhões para R$ 1,9 milhão e concordou em diluir a dívida ao longo do novo contrato. Ele também abriu mão de parte da cota sobre receitas de marketing, que ultrapassavam R$ 10 milhões, e da hospedagem no Rosewood, hotel de luxo na capital paulista com custo mensal de R$ 250 mil.
O tema financeiro já havia gerado atrito antes. Em maio do ano passado, Memphis faltou a uma sessão de treinos no CT Joaquim Grava após notificar o clube sobre o atraso no pagamento de R$ 6 milhões por bonificações e direitos de imagem. Mais recentemente, após a derrota em casa para a Chapecoense, lanterna do Brasileirão, cobrou publicamente o time e admitiu que a instabilidade e os atrasos de salários e de direitos de imagem atrapalham a concentração do elenco. A personalidade forte ficou marcada como uma das características do atleta nesses dois anos.
Pressão sobre Diniz e a briga política no Parque São Jorge
A pressão sobre o técnico Fernando Diniz não está restrita aos resultados em campo. Segundo relatos de bastidores do clube, o movimento parte principalmente de integrantes da política corintiana que foram contrários à permanência de Memphis e agora questionam a defesa pública feita pelo treinador ao atacante. Esse grupo entende que o apoio de Diniz à renovação do holandês contribuiu para aumentar a divisão no elenco e para a sequência negativa que chegou a quatro derrotas consecutivas no Campeonato Brasileiro.
Parte dos aliados do presidente Osmar Stabile defendia que o Corinthians não renovasse com Memphis por causa das pendências financeiras do clube com o próprio elenco. Diniz, por sua vez, afirmou em diferentes oportunidades que gostaria de continuar trabalhando com o holandês e defendeu a renovação. Fontes ligadas à comissão técnica afirmam que o treinador percebe a pressão vinda do Parque São Jorge e entende que as disputas internas passaram a pesar na avaliação de seu trabalho.
A movimentação ocorre em um momento de divisões dentro do próprio grupo ligado a Stabile: dirigentes e conselheiros que integravam a “União dos Vitalícios” estão afastados, o que ampliou a fragmentação entre os grupos de apoio à atual administração. No departamento de futebol, porém, Diniz segue respaldado. A avaliação interna é de que o trabalho apresenta números positivos e deve ser analisado diante das dificuldades enfrentadas desde o início da passagem do treinador pelo clube.
Desde que assumiu o Corinthians, no começo de abril, Diniz soma 28 jogos, com 13 vitórias, sete empates e oito derrotas. A equipe marcou 32 gols, sofreu 23 e não foi vazada em metade das partidas, com aproveitamento de 55%. No Campeonato Brasileiro, são seis vitórias, quatro empates e seis derrotas em 16 jogos, com 46% de aproveitamento — desempenho que colocaria o time na nona posição do campeonato.
Na Libertadores, a campanha é usada internamente para defender a continuidade do trabalho: o Corinthians somou 15 pontos na fase de grupos, com a quarta melhor campanha entre os oito classificados, atrás de Flamengo, Independiente del Valle e Palmeiras.
Entre os obstáculos apontados estão as dívidas que impedem contratações, os pagamentos pendentes aos jogadores e as lesões, que reduziram ainda mais um grupo já pequeno. Kayke e Zakaria Labyad, alternativas encontradas pelo treinador, também se machucaram. A falta de opções para as pontas foi identificada pela comissão técnica desde o início do trabalho.
O clube chegou a encaminhar a contratação de Wesley, mas a negociação foi interrompida por causa do transfer ban, punição que impede o Corinthians de registrar novos jogadores, e o atacante foi para o Cruzeiro. Everton Cebolinha também foi analisado, mas priorizava inicialmente uma transferência para o exterior; quando mudou de ideia, a punição já impedia o avanço das conversas. Diante desse cenário, a diretoria passou a tratar a permanência de Memphis como a principal alternativa para reforçar o elenco sem precisar registrar um novo jogador — decisão que gerou incômodo entre os grupos políticos contrários à renovação.
O compromisso na Argentina
A comemoração dos dois anos foi marcada pelo compromisso mais decisivo do momento. O Corinthians tinha pela frente o Estudiantes, às 21h30 (de Brasília), na Argentina, no jogo de ida das quartas de final da Conmebol Libertadores, na expectativa de um resultado positivo para fechar a data da melhor maneira possível.
O duelo ocorre em um cenário de pressão no Brasileirão, com quatro derrotas consecutivas, três delas na Neo Química Arena, e a cobrança crescente sobre o trabalho de Diniz. Para Memphis, o desafio imediato é recuperar a intensidade e a confiança de sua melhor versão, ao mesmo tempo em que constrói entrosamento com companheiros que ainda conhece pouco, como Kaio César, Pedro Raul e Allan.





