terça, 30 de novembro de 2021
Entrevista

Brasil está atrasado na agenda ESG e concorrentes exploram essa fragilidade, diz professor da UFRJ

Celso Lemme, especialista em finanças e sustentabilidade e professor do Coppead/UFRJ, destaca que país tem potencial para ser líder mundial da agenda sustentável, mas que precisa de planos consistentes

12 maio 2021 - 14h40Por Flávio Faria

“Brasil é um dos piores países em ranking ambiental, social e de combate à corrupção”. Esse foi o tom que a imprensa usou para noticiar, na última semana, a divulgação do estudo realizado pela consultoria MB Associados sobre 19 países a respeito de temas como estabilidade política, combate à corrupção e indicadores ambientais. O levantamento utilizou critérios da Universidade de Yale - dos EUA - e dados do Banco Mundial para avaliar se - e quanto - as ações dos governos conversam com a agenda ESG (sigla para ambiental, social e governança), conjunto de princípios que cada vez mais passa a nortear os fluxos globais de investimentos.

No resultado geral desse estudo, o Brasil não passou na prova. Com 61% (quanto maior o número, pior a posição), ficou no 17º lugar, acima apenas da África do Sul e Filipinas. Para referência, a Coreia do Sul, primeiro lugar, teve 2% de pontuação.

Embora, segundo o estudo, o Brasil atualmente não seja referência em nenhum dos três pilares do ESG, o compromisso com o meio ambiente é a esfera em que nos saímos melhor - ou menos mal. Em “Cumprimento de Regras Ambientais”, o país ficou com 39%, considerada uma pontuação mediana. 

“Estamos ficando muito atrás do que a comunidade internacional espera”,  afirma Celso Lemme, especialista em Finanças e Sustentabilidade e professor do Coppead/UFRJ, sobre o atual patamar do Brasil nesse cenário. 

Atualmente, estar à margem da agenda ESG, como a falta de compromisso com a eficiência administrativa e a preocupação com indicadores sociais e ambientais, pode trazer prejuízos à imagem do país, incluindo reflexos nas suas relações comerciais. Um exemplo recente é o acordo entre Mercosul e União Europeia, que está se deteriorando à espera de que o Brasil assuma compromissos ambientais adicionais.

Para tentar evitar a debandada de investidores, o presidente Jair Bolsonaro discursou, no final de abril, na Cúpula do Clima. Em tom que foi considerado “moderado” pela comunidade internacional, o presidente prometeu dobrar os investimentos para a fiscalização ambiental. O movimento parece não ter sido suficiente: a fala foi recebida com ceticismo por líderes internacionais e gestores de grandes empresas.

Porém, segundo Lemme, nem tudo está perdido. O professor acredita que o Brasil tem potencial para ser líder da agenda sustentável mundial e que a consciência da importância do ESG já chegou às empresas, à sociedade e ao mercado financeiro. Só faltaria vontade política e ação integrada por parte do governo para que essa agenda avance de maneira efetiva. “Se o Brasil aparecer no cenário internacional com planos articulados consistentes, o olhar dos investidores vai brilhar”, afirma Celso.

Confira a entrevista completa:

De acordo com o estudo da consultoria MB associados, o Brasil é um dos países emergentes com piores indicadores ESG. Que tipo de consequências essa falta de compromisso com o meio ambiente, questões sociais e corrupção pode trazer para as relações comerciais com outros países?

Acho que vai além das relações comerciais. Tem um risco de fluxo de investimentos que está se concretizando. Veja o tempo que levou para a negociação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia e como isso está se dissolvendo de diversas formas. 

Em relação à comercialização de produtos agrícolas, volta e meia já surgem barreiras com potencial para causar perdas comerciais importantes, porque essas fragilidades nas questões sociais e ambientais são exploradas pela concorrência.

Estamos assistindo a uma onda fortíssima de investimentos procurando critérios ESG e o Brasil tem todo o potencial para liderar isso. Estar na frente em aspectos como mudanças climáticas. Nossa emissão de gases de efeito estufa seria quase a ideal, coisa de primeira linha, não fosse o desmatamento, que é nosso maior problema atualmente. Temos um potencial enorme em biodiversidade, recursos hídricos e inovação tecnológica associada a isso. Mas [sem o compromisso com essas questões] esse fluxo de investimentos pode ser afetado, pois estamos ficando muito atrás do que a comunidade internacional espera.

Apesar dos discursos, como o da Cúpula do Clima em abril, o governo federal não tem apresentado soluções concretas para os desafios sociais e ambientais e os dois principais presidenciáveis de 2022 não abordam o tema. Apesar do interesse do mercado, como esperar que a agenda ESG ganhe projeção fora do mercado de capitais e se torne importante na agenda política, em um cenário com  14 milhões de desempregados, dólar a quase 6 reais e inflação subindo?

Não gosto de particularizar a questão sobre possíveis candidatos, mas essa questão é um sinal importante para que se pense com mais clareza em uma terceira via, independentemente de preferências e restrições que se possa ter a qualquer um dos candidatos. 

O fato de a agenda deles não manifestar nenhuma prioridade nessas questões abre espaço para o surgimento de um candidato de terceira via que coloque essas questões. Se você olhar a conexão público-privada em sustentabilidade, o que você vê? O setor privado, independentemente do governante desse ou daquele partido, está sempre na frente, puxando a regulação do setor público.  

Na área financeira, por exemplo, a Comissão de Valores Mobiliários está atuando fortemente com o Laboratório de Inovações Financeiras. Você vê o Banco Central, agora independente, trabalhando em normas para crédito incluindo questões socioambientais. Podemos gostar ou não, ter restrições ou não, mas esse trabalho está evoluindo.

No ano passado, durante as queimadas, por exemplo, houve uma articulação entre os três maiores bancos privados do Brasil, propondo pontos básicos para financiamento naquela região. Então, tem uma pulsação no setor privado e na sociedade civil muito forte nessa direção e essa questão pode suscitar uma agenda de um candidato de terceira via.

O senhor falou em leis e, no último ano, o Brasil aprovou os novos marcos regulatórios para o saneamento básico e gás natural. Ambos os temas conversam com a agenda ESG. Quais outras leis precisam ser atualizadas ou quais novas regulamentações precisam ser criadas para dar mais suporte para a agenda no país?

Uma nova lei ou regulação melhor que a anterior sempre pode ajudar, mas não acho que seja o principal problema, seja em nível municipal, estadual ou federal. O que está faltando é aplicar efetivamente as leis que já estão disponíveis. Mais importante ainda é perceber que hoje nós estamos olhando essas questões de maneira segregada. 

Imagine que você fosse esse candidato a presidente de terceira via e fosse eleito. Resolveria se você fortalecesse de uma maneira clara o Ministério do Meio Ambiente? Na minha opinião, não. Porque não basta. É claro que ele se fortalecer e ter sua estrutura recuperada é importante, mas mais importante é uma articulação entre as áreas. Como você pode ter uma agenda socioambiental adequada se não articula o Ministério do Meio Ambiente com o de Energia, de Infraestrutura, Agricultura e Educação? 

Essa separação, talvez até por conta do presidencialismo de coalizão que vem predominando no Brasil, cria um sistema de loteamento político, que, independentemente de problemas com corrupção, cria segregação. Você não consegue ter políticas públicas de qualidade se não tiver integração. Se Energia, Meio Ambiente, Infraestrutura, Agricultura e Educação não caminharem juntos, não é bom caminho. 

E qual seria o bom caminho para essa maior integração? Deveria ter uma atuação mais forte da presidência?

Deveria, mas não só dele. Claro que a figura do presidente é importante no nosso sistema. Mas em qualquer democracia moderna, a interação entre o executivo e o legislativo é fundamental. Essa é uma costura que envolve o executivo e o legislativo e que só virá se tiver posicionamentos claros pela sociedade civil. Um exemplo claro, na minha opinião, são essas coalizões que vêm acontecendo, como a ‘Clima, Florestas e Agricultura’. Quando você vê um acordo desses, e quem está participando, percebe uma articulação de braços diferentes da sociedade civil, todos com posicionamentos fortes, relevância e capacidade de influenciar o processo político. Porque o processo político reage ou segue os sinais que vêm da sociedade.

Seria importante ter um presidente que tivesse preocupação com a coordenação dos ministérios? Que não deixasse acontecer esse loteamento na mão desse ou daquele grupo político? Que impedisse o fracionamento das políticas públicas? Sim, ajudaria. Mas não é função só do presidente ou do executivo e esse movimento no setor privado e na sociedade civil eu acho que tem um potencial de empurrar nessa direção.

Na opinião do senhor, a pressão de investidores interessados na agenda ESG vai acelerar incentivos públicos e essa maior integração?

Poderia. Quando você olha o que tem sido chamado de green recovery, ou a ‘retomada verde’, com muita relevância no Canadá, na União Europeia e agora nos EUA, com a entrada do Biden, eu vejo as pessoas discutindo como compatibilizar uma economia de baixo carbono com essa necessidade de investimento em países, por exemplo, com infraestrutura muito frágil, baixos níveis de saneamento etc. 

Essa não é uma pergunta difícil de responder porque, pelos ciclos históricos, quando tivemos grandes ciclos de investimentos? Grandes momentos de mudança, como foi a recuperação da europa no pós-guerra ou até a revolução industrial. São épocas como a atual, em que você tem demanda por uma quantidade enorme de investimentos estruturantes. 

Hoje o Brasil tem uma porta aberta imensa para energia renovável, pesquisa em medicamentos baseados em biodiversidade, então há um espaço enorme para discutir na agenda internacional a compensação ou pagamento por serviços ambientais. Não como um ‘toma lá, dá cá’, mas como uma discussão madura de equilíbrio de serviços de ecossistemas de países que estão em estágios diferentes de desenvolvimento. Se o Brasil aparecer no cenário internacional com planos articulados consistentes, eu acho que o olhar dos investidores vai brilhar pra cá. 

Há pouco mais de dois anos, em janeiro de 2019, houve o rompimento da barragem de Brumadinho. Quatro anos antes, em 2015, a barragem de Mariana também se rompeu. Ambos os casos, dois dos maiores desastres ambientais na história do Brasil, têm a Vale como protagonista. Em 2019, o relatório de sustentabilidade da Petrobras mostrou um aumento de 2157% em vazamentos de óleo. A empresa também já teve notórios casos de corrupção. 

Porém, apesar das multas e processos, essas empresas continuam valorizadas, principalmente porque dão lucro. Até que ponto a agenda ESG é capaz de mudar a mentalidade de investidores que estão atrás puramente de rentabilidade? 

Aí é uma questão de horizonte de análise. Quando a gente fala de um gestor de recursos dessas grandes assets, a gente tende a culpá-los por ter uma visão de curto prazo nos investimentos. Por exemplo, petróleo, combustível fóssil, tem um potencial adequado no curto prazo. Se em um horizonte mais longo não vai ter é outra discussão, mas será que são eles os responsáveis por esse olhar? Ou decorre de um olhar do investidor, que coloca dinheiro nesses fundos e se o fundo tem um desempenho ruim por dois trimestres, saca o dinheiro? O gestor fica pressionado contra a parede. Como ele se mantém até que o longo prazo aconteça? 

Quando você está lutando sozinho, uma hora cansa. Agora, se começa a receber sinais da iniciativa privada e políticas públicas, começa a fortalecer uma cultura. Isso acontece em todo processo de mudança, a história não é linear. Se eu te perguntar em que século estamos, você vai me dizer que no século 21, mas tem sociedades no mundo que vivem como se estivessem no século 14, 15 ou 16, em nível de desenvolvimento. Não há um avanço linear.

Essas empresas continuam recebendo investimentos porque, apesar de todos os problemas, elas também têm méritos. Em segundo lugar, quando você olha sob um horizonte de análise de quem busca resultados em curto prazo, vai colocar o dinheiro onde? Em quem está bem naquele momento. [Em curto prazo] Eu nunca quero incentivar o jogador da base, só olho para o craque. Agora, quem quer investir em uma empresa do passado? Ninguém. Todos querem o futuro. O universo das techs, por exemplo, está bombando no Brasil. O mesmo pode acontecer com o ESG. Ninguém quer dirigir um carro olhando pelo retrovisor. Vai bater.

Mas esse comportamento do investidor não pode ser explicado pelo temor que surge em tempos de incerteza econômica, como o que estamos vivendo por conta da Covid-19?

Não tenha dúvidas. Diante do perigo, você fica mais conservador. Te faz ficar parado. Se você está em um quarto escuro, na parede que você está encostado você fica. A questão é: por quanto tempo você vai poder ficar encostado nessa parede. E tem outro lado da moeda, que é custo de fazer uma mudança. Como da matriz energética, por exemplo, tem um custo para fazer. Mas e o risco de não fazer? 

Quem está no quarto escuro e encostado está protegido, mas à medida em que as coisas vão clareando, porque nenhuma escuridão dura para sempre, eu me vejo parado nesse quarto faz tempo e todo mundo está andando. E quando você vê essa retomada verde e as oportunidades que ela traz, mesmo nesses tempos que estamos vivendo. Investidores privados buscando projetos de saneamento básico, um ganho enorme de competitividade emgeração de energia eólica e solar e as agrotechs disparando. O investidor tende a ficar receoso em um ambiente desse, mas cabe aos gestores e líderes dizerem: olha, está ficando perigoso ficar parado onde você está, porque os outros estão se mexendo. 

O senhor puxou o assunto de matrizes energéticas limpas. O Brasil é um dos países que mais utiliza energia limpa no mundo. 82% da nossa matriz energética é obtida a partir de hidrelétricas. Porém, não há como dizer que não há custo ambiental ou social, por afetar o ecossistema e as famílias que deles dependem, como no caso da pesca. Porém, mesmo a projeção mais otimista ainda coloca as barragens como principal fonte de geração de eletricidade. Apesar de estarem crescendo todos os anos, os modelos de geração solar e a eólico responderiam a apenas 24% de toda a geração do Brasil em 2029. Como falamos, ano passado chegou o novo marco regulatório para dar mais competitividade para o mercado de gás natural, que não é tão poluente quanto o petróleo, mas está longe das energias limpas. Não é uma contradição apoiar esse mercado em vez de fomentar outras matrizes, já pensando no longo prazo?

Eu fico em dúvida se a palavra é contradição ou se transição é a que explica melhor. Voltando para o nosso amigo que está encostado na parede, em um quarto totalmente escuro, ele acende um fósforo e consegue um pouquinho de luz. Talvez ele dê um passo para o lado. Quando ele se movimentar, vai ver que tem uma vela no chão e passar a enxergar mais um bocado. Talvez, enxergando melhor, ele dê três passos para procurar o interruptor que acende a luz do quarto. 

Talvez seja demais pedir a alguém que saia logo correndo atrás do interruptor. A economia é muito grande, o Brasil é um país muito desigual e tem sociedades em estágios diferentes. Você tentar que um transatlântico faça uma curva de 90 graus é difícil. Em uma ponta você tem o combustível fóssil, na outra a eólica e a solar. E no meio o gás natural, como você falou. No aspecto de sustentabilidade, não é tão ruim quanto a primeira e nem tão boa quanto a outra. Mas se eu der um primeiro passo desse, pode ser o fósforo ou a vela. Não consigo dar o passo todo, mas quem sabe podemos gerenciar, criando por exemplo um plano plurianual de investimentos, metas claras e regulação clara que permita ao setor privado enxergar a transição de combustíveis fósseis para a renovável com segurança operacional em todos os passos. 

Não estou defendendo que não seria possível dar o pulo direto, poderia, mas eu tenho certo receio de pensar em termos de “faz tudo ou não faz nada”, “da faixa branca direto para a preta”. Será que não dá para treinar um bocadinho e ir progredindo de faixa? 

Não dá para gente diminuir a fonte de energia que a gente menos quer, aumentando as que a gente mais quer e aumentando transitoriamente algumas que não são o ideal, mas são um passo adiante? Não será um processo que envolve aprendizado, segurança para o investidor e segurança ao regulador que permitirá que a gente caminhe? Talvez, sim. 

Em relação especificamente a esse caminho de transição pelo gás natural, o senhor acredita na viabilidade? O marco busca trazer mais competitividade para o setor no longo prazo. Em vez de um passo em direção à luz, não podemos estar criando uma barreira a mais para chegarmos lá? 

Pode ser, sim. Em qualquer transição, há fases. Na do regime militar para o processo democrático, por exemplo, o jargão que o governo usou à época foi a “transição lenta e gradual”. Seria melhor se fosse imediata? Na minha opinião, seria. Da mesma forma, seria melhor a transição direta para energias renováveis ou processos de manejo de solo ideais? Seria. 

A questão é a seguinte. É possível fazer? Às vezes fazemos o bom por ainda não conseguir fazer o ótimo e ao mesmo tempo não querer ficar parado. Esse risco de você ancorar no meio do caminho existe, do lento e gradual não acabar nunca e parar no intermediário. Com o regime militar, não parou. Mas preocupa mais o pensamento do “tudo ou nada” nos empurrar para o “nada”. Pense no setor de alimentos, por exemplo. Já há um consenso que os processos e forma de produzi-los que nós temos no Brasil e em boa parte do mundo não é razoável. Já temos modelos que seriam mais adequados. Mas como fazer a transição, por exemplo, de famílias de certas regiões do Brasil que têm seus processos ancorados em diferentes pressupostos? Talvez aconteça uma reação à tentativa de melhora que acabe não melhorando nada. Aí que na minha opinião tem que entrar o poder público e lideranças do setor privado, para garantir que esse será um passo e que não irá parar nele. 

O que podemos destacar de positivo sobre a agenda ESG no Brasil atualmente?

É importante destacarmos como um sinal positivo, a meu ver, que mesmo com todas as demoras que nos deixam angustiados, não há a menor dúvida de que nos últimos 5 ou 10 anos, não importando qual governo, a agenda da sustentabilidade chegou na consciência das empresas, produtores e agentes públicos. Ela pode ainda não estar se traduzindo em ações efetivas necessárias. Mas a consciência é o primeiro passo. 

Hoje também há uma visão mais clara de “cadeia de valor”. Não adianta, por exemplo, um dono de supermercado gerir suas lojas com eficiência energética, processos amigáveis com o meio ambiente e processos de trabalho adequados se a cadeia de suprimentos dele traz produtos que vem de processos de produção e descarte inadequados, mão de obra infantil, desmatamento ou o que for. Essa lógica de olhar não só a atividade isolada, mas cadeia de valor, é outro ponto importantíssimo.

O terceiro ponto é que o avanço, embora não seja na velocidade que nem eu nem você gostaríamos, está chegando aos conselhos das empresas. Antes, elas ficavam em departamentos, com três, quatro pessoas. Essa agenda agora está nos conselhos e está puxando outra: atrelar a remuneração de performance e bônus anuais dos gestores a indicadores ESG. 

Embora a gente sempre tenha a tendência de ver as coisas ruins, esses movimentos estão ganhando força e não podemos deixar de lado, porque eles ajudam a empurrar o movimento.

É possível falar em horizonte para essa agenda se tornar “obrigatória” nas empresas?

Na consciência, ela já é. Se você entrevistar executivos de qualquer grande empresa de capital aberto, é impossível que na conversa pessoa fuja ou fale mal desses temas. Mesmo que a empresa não faça nada. 

Pensando em etapas, o primeiro passo dessa guerra é ganhar a consciência. Quando aconteceu a guerra do Vietnã, perguntaram para o comandante dos vietnamitas, que até então estavam sendo massacrados, o que viria a seguir. Ele respondeu que ganhariam com toda a certeza. Só não sabia como nem quando, e que a primeira ele já estava vencendo, que era a dos corações e mentes, se referindo à consciência, inclusive dos EUA, que começou a ser pressionado pelos movimentos pacifistas e feministas da época. 

Eu não teria capacidade de dizer ‘Essa guerra [do avanço da agenda ESG] vai estar definida em tanto tempo’, mas está caminhando para um desfecho. Não é uma perspectiva, é uma realidade e uma trajetória. O posicionamento de grandes gestores, estudos internacionais, todos eles conectam as agendas das empresas, dos governos e a estabilidade do sistema financeiro no futuro a isso. Não sei te dizer quando vai acontecer, mas a onda está ficando cada vez mais forte.

Na sua opinião, qual é a chance de o Brasil surfar essa onda? Ou o barco pode virar?

Eu acho que o barco nunca vira em definitivo. A sociedade brasileira é muito maior do que qualquer grupo político no poder. Se dependesse das forças da sociedade, consumidores, investidores, a sociedade civil como um todo e todas as oportunidades [que temos], já poderíamos estar surfando. 

Acho que o navio vai balançar, mas não temos o direito de afundar. Não é uma alternativa. Vamos navegar e, se possível, surfar. 
 

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