Pix impulsiona empreendedorismo no Brasil, diz estudo

Um estudo conduzido por pesquisadores ligados ao Banco Central e à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) indica que o Pix passou a exercer influência relevante, com significância estatística, sobre a expansão do empreendedorismo no Brasil. A conclusão foi obtida por meio de análise econométrica que combinou dados mensais do sistema de pagamentos e do mercado de trabalho no período entre março de 2012 e agosto de 2025.

O trabalho é assinado por Claudio de Moraes, professor de macroeconomia e finanças do Instituto Coppead, da UFRJ, e por Aristides Andrade Cavalcante Neto, chefe do Departamento de Gestão Estratégica e Supervisão Especializada do Banco Central. O conteúdo deve integrar a segunda edição do livro “Disruptive Technology in Banking and Finance: An International Perspective on FinTech”, organizado pelo professor Timothy King, da University of Vaasa, na Finlândia, com publicação prevista para dezembro.

Base estatística combina sistema de pagamentos e Pnad Contínua

Para construir a principal medida de empreendedorismo, os pesquisadores definiram uma proxy baseada na razão entre o total de trabalhadores por conta própria e a população que integra a força de trabalho. As séries foram obtidas no Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS), do Banco Central, com base nos dados da Pnad Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O modelo leva em conta uma variável que sinaliza o período de operação do Pix, iniciado em 2020, bem como o volume mensal de transações processadas pelo instrumento. Como controles, são usados ainda o hiato do produto, a taxa básica de juros e o volume total de negócios processados no sistema de pagamentos, o que ajuda a verificar se o resultado pode ser atribuído ao Pix e não simplesmente ao momento econômico.

Coeficiente do Pix é positivo em todas as especificações

Os resultados encontrados pelos pesquisadores mostram coeficiente positivo e altamente relevante para a variável Pix em todas as versões estimadas do modelo. O efeito permanece mesmo quando são incorporados controles relacionados ao ciclo econômico, às decisões de política monetária e ao desempenho agregado dos meios de pagamento.

De acordo com a interpretação dos autores, o padrão observado reforça a hipótese de que o Pix contribui para elevar o número de pessoas trabalhando por conta própria, usada como aproximação do nível de empreendedorismo. A estabilidade do resultado diante dos controles indica que a relação não é simples consequência do crescimento econômico ou da digitalização de outras modalidades de pagamento.

Juros altos e infraestrutura de pagamentos aparecem como fatores complementares

As variáveis de controle também apresentaram comportamento coerente com o esperado. Um hiato do produto positivo esteve associado a uma maior atividade empreendedora, enquanto o aumento da taxa básica de juros tendeu a reduzir a medida, sugerindo que condições monetárias mais restritivas podem desestimular a criação de novas atividades.

O coeficiente do volume total de transações de pagamentos também foi positivo, o que reforça a tese de que uma infraestrutura de pagamentos movimentada e confiável abre espaço para o empreendedorismo. Na visão dos pesquisadores, isso indica que o ambiente operacional em torno das transações financeiras é parte relevante do ecossistema de pequenos negócios.

Pagamento instantâneo é tratado como catalisador de mudança estrutural

Os pesquisadores argumentam que os achados mostram a importância do desenho do sistema de pagamentos como ferramenta de política econômica, com destaque para países emergentes. Nesses locais, a digitalização tende a ampliar as oportunidades para o trabalho por conta própria e para projetos de pequena escala.

O trabalho ainda sustenta que os sistemas de pagamento instantâneo podem operar como catalisadores de mudanças estruturais. A hipótese central é que o Pix não se limita a alterar a forma como as pessoas pagam ou recebem valores, mas também interfere na maneira como os indivíduos se inserem e participam da atividade econômica.

Pesquisa aponta limitações e agenda para estudos futuros

Os autores ponderam que o intervalo analisado desde o início do Pix é relativamente curto, o que impõe cautela na interpretação dos coeficientes. Eles defendem que pesquisas futuras possam investigar a existência de efeitos distintos entre regiões e diferentes grupos demográficos.

Outro caminho sugerido é examinar a relação entre o Pix e outras inovações financeiras, como o Open Finance, para analisar como essas soluções atuam em conjunto sobre o comportamento produtivo. A avaliação dos pesquisadores é que as evidências iniciais já são suficientes para colocar os pagamentos instantâneos como um vetor relevante de transformação econômica, embora ainda haja espaço para estudos mais aprofundados.

Capítulo terá publicação internacional em dezembro

O capítulo resultante da pesquisa fará parte da segunda edição do livro “Disruptive Technology in Banking and Finance: An International Perspective on FinTech”, obra dedicada aos efeitos das tecnologias disruptivas sobre a atividade bancária e o sistema financeiro. A organização é de Timothy King, professor da University of Vaasa, na Finlândia.

A previsão de publicação é dezembro. Até lá, o estudo tende a circular no debate especializado como uma contribuição sobre os efeitos econômicos do Pix brasileiro para além do universo das transferências, alcançando a estrutura do mercado de trabalho e as condições de oferta de novos negócios.