Oportunidades no Brasil e complexidade dos negócios locais
Mercado brasileiro reúne riscos e oportunidades para empreendedores

O Custo Brasil, com sua tributação complexa, volatilidade econômica e gargalos de infraestrutura, é frequentemente apontado como o grande adversário de quem quer empreender no país. Para o fundador e CEO da Liberty Card, Wesley Ribeiro, a leitura correta é outra: o mesmo ambiente que torna as operações mais caras também protege quem aprende a conviver com suas regras. Em artigo publicado pelo Monitor do Mercado, o executivo defende que as ineficiências locais escondem uma demanda reprimida bilionária à espera de soluções eficientes.

O ponto central do argumento é uma crítica à romantização do mercado norte-americano no ecossistema empreendedor brasileiro. Ribeiro reconhece que os Estados Unidos oferecem um ambiente excelente, organizado e previsível, mas destaca que esse mesmo mercado é saturado, maduro e altamente competitivo, com margens pressionadas por grandes grupos já consolidados. Em cenários assim, sobra pouco espaço para capturar ineficiências e criar mercados novos.

A consequência prática, conforme o CEO da Liberty Card, é que ganhos que levariam anos para se consolidar sob margens apertadas de economias hiperdesenvolvidas podem ser alcançados em prazos menores em mercados emergentes. É nesse ponto que o Brasil se diferencia, especialmente para quem procura oportunidades de investimentos em negócios com potencial de escala.

Uma barreira que reduz a concorrência

A análise não ignora os custos reais de operar no Brasil. Ribeiro admite que a complexidade tributária, a oscilação econômica e os gargalos de infraestrutura cobram um preço diário das companhias. O erro de executivos e investidores, avalia, é enxergar o Custo Brasil apenas como um obstáculo intransponível, sem notar que ele também representa uma gigantesca barreira de entrada.

Na prática, cada gargalo não resolvido pode ser visto como uma demanda reprimida por serviços mais eficientes. A história de setores inteiros da economia brasileira mostra que negócios de grande escala nasceram justamente da capacidade de identificar problemas históricos e transformá-los em soluções, serviços e novos mercados.

Instabilidade como janela para novos negócios

O autor do artigo argumenta que momentos de crise econômica, mudanças regulatórias e transformações no comportamento do consumidor aceleram a busca por novas soluções. Nesses períodos, ganham espaço empresas capazes de combinar leitura de mercado, capacidade de execução e gestão de riscos.

Ribeiro observa ainda que os principais ciclos de crescimento empresarial não são construídos, necessariamente, em cenários de estabilidade absoluta. Muitas vezes, eles surgem quando uma companhia identifica uma oportunidade no meio da complexidade e estrutura uma operação para atender uma demanda pouco explorada. Na avaliação do executivo, o Brasil não é um terreno para amadores, mas se mostra fértil para quem combina tecnologia, disciplina executiva e compliance.

Há, nesse contexto, uma diferença relevante entre os dois ecossistemas. Enquanto a inovação nos Estados Unidos costuma ser incremental, focada em melhorar o que já funciona bem, no Brasil existe espaço para uma inovação mais transformadora, inclusiva e fundacional, capaz de criar novos mercados e democratizar o acesso a serviços essenciais.

Conhecimento local como ativo estratégico

Diante da tentação de migrar para mercados mais estáveis, o executivo sugere uma reflexão pragmática: considerar o valor do conhecimento acumulado sobre o ambiente local, das relações construídas ao longo do tempo e da compreensão das particularidades culturais e econômicas de cada região.

Esses ativos intangíveis, argumenta, podem representar uma vantagem competitiva difícil de ser reproduzida em mercados estrangeiros, principalmente para empresas ainda em fase de expansão e consolidação. A conclusão do CEO é simbólica: se o mar calmo das economias maduras parece mais seguro na superfície, são as águas agitadas das economias em transformação que oferecem as condições para construir negócios de grande porte.