
O mercado brasileiro de planos de saúde perdeu ontem um dos nomes que ajudaram a fundar o setor. Milton Soldani Afonso, criador da Golden Cross, morreu aos 104 anos, deixando uma trajetória que atravessou quase um século e conectou empreendedorismo, fé e filantropia. A notícia mobilizou a Igreja Adventista mundial, da qual o empresário era um dos esteios, e também circulou entre as principais lideranças da saúde suplementar no país.
Natural de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, Milton nasceu em 12 de dezembro de 1921. A infância pobre marcou seus primeiros anos: com apenas 6 anos, ele já trabalhava vendendo doces para ajudar a família. Aos 13, a mãe decidiu enviá-lo a São Paulo para estudar no antigo Colégio Adventista Brasileiro, e foi lá que ele começou a percorrer ruas e casas para vender publicações religiosas e garantir o próprio sustento.
O empreendedor serial antes da Golden Cross
Milton não se limitou a uma única frente de negócios. Depois de se formar pela Faculdade de Direito de Niterói, ele reuniu passagens por áreas bastante distintas: criou uma publicação voltada a temas fiscais, tocou uma granja, abriu uma rede de sorveterias e chegou a comandar um pequeno banco com uma agência em Copacabana.
A virada para o setor de saúde aconteceu de forma indireta, por influência da religião. Como integrante da diretoria do Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro, Milton teve o primeiro contato próximo com a gestão hospitalar. Ali, enxergou uma oportunidade que mudaria não apenas a própria vida, mas o futuro do atendimento médico privado no Brasil.
Em 1971, o nascimento da Golden Cross
Inspirado pela Blue Cross, que conheceu em uma viagem aos Estados Unidos, Milton fundou a Golden Cross em 1971. A escolha do nome em inglês teve um efeito colateral curioso: muitos clientes acreditavam que a empresa era uma multinacional, o que ajudou a impulsionar o crescimento da operadora nos primeiros anos.
Naquele momento, o mercado de planos de saúde ainda dava os primeiros passos no país. A Golden Cross se consolidou como uma das pioneiras e construiu uma marca forte ao longo de duas décadas, tornando-se referência para consumidores e também para quem desejava atuar no ramo.
A influência sobre uma geração do setor
O impacto do trabalho de Milton ultrapassou a própria empresa. Edson Bueno, por exemplo, tomou a decisão de empreender no setor depois de ler o balanço da Golden Cross publicado em um jornal. José Seripieri Júnior seguiu caminho semelhante após uma conversa com Milton, que o convenceu a deixar o comércio de sacoleiro no Paraguai para vender planos de saúde em uma corretora paulista.
O conselho também rendeu frutos fora das vendas. Foi por intermédio do mentor que Júnior se aproximou de Alberto Bulus, o Beto, genro de Milton. Os dois se tornaram amigos e fundaram juntos a Qualicorp, companhia que viria a ser um dos maiores nomes da intermediação de planos de saúde no Brasil.
Além de Bueno e da dupla Júnior e Beto, o legado de Milton alcançou outros empreendedores que hoje são gigantes do setor, como Jorge Moll Filho e Heráclito Brito. Todos, em algum momento, reconheceram a influência do antigo vendedor de doces e publicações religiosas.
Os anos de crise e o desfecho da Golden Cross
Nem tudo na história da Golden Cross foi de expansão. Depois de duas décadas de sucesso, a operadora enfrentou dificuldades nos anos 1990, quando tentou verticalizar as operações. Em 1997, Milton decidiu vender a companhia para a americana Cigna, mas acabou desfazendo o negócio em 1999, dois anos depois do acordo inicial.
Sem um sucessor natural para tocar o negócio, o controle foi entregue a gestores profissionais. A Golden Cross, porém, foi perdendo relevância ao longo do tempo e acabou liquidada pelo regulador no ano passado, encerrando definitivamente o ciclo de uma das marcas mais simbólicas do setor.
Filantropia e a marca deixada na vida de milhares de pessoas
Se o mundo empresarial conheceu Milton como um homem de negócios, foi na filantropia que ele deixou a marca mais profunda. Durante décadas, ele sustentou abrigos e orfanatos, financiou obras de construção e reforma de escolas e igrejas, doou artefatos religiosos históricos a instituições e museus e custeou, por meio de um programa de bolsas, a formação educacional de milhares de jovens.
Uma das histórias mais conhecidas desse trabalho envolve o cantor Xande de Pilares. A mãe do artista, depois de sofrer uma lesão no trabalho, escreveu a Milton pedindo ajuda para manter os estudos do filho. O pedido foi atendido mesmo sem qualquer vínculo prévio entre as famílias, e Xande recebeu a bolsa dos 11 anos em diante. Anos mais tarde, em um evento na casa do benfeitor, ele descobriu que o anfitrião era o responsável por aquela ajuda e o emocionou com uma apresentação a cappella.
No círculo de amigos e familiares, Milton era descrito como alguém que doava até o que não tinha condições de doar, movido por uma generosidade rara. Entre os corretores e empreendedores formados a partir de seus conselhos, a comparação mais frequente era com Silvio Santos: um homem que saiu da base, cresceu pelo talento e formou uma legião de seguidores pelo exemplo.





