Apartamentos menores criam novo mercado para lavanderias urbanas

A redução da metragem dos imóveis começou a alterar de forma direta a rotina doméstica nas grandes cidades. Em 2024, 81% dos lançamentos foram de apartamentos compactos, enquanto em São Paulo 70% das unidades já tinham entre 40 metros quadrados e 45 metros quadrados ou menos. O movimento se aprofunda com a queda do tamanho mediano dos imóveis, que passou de 71 metros quadrados em 2023 para 58 metros quadrados em 2025.

A mudança aparece primeiro na planta dos apartamentos. Áreas de serviço deixam de existir ou passam a ocupar espaços mínimos, reduzindo a possibilidade de instalar equipamentos de grande porte, como máquinas de lavar. Uma função antes considerada parte básica da casa começa a ser deslocada para fora do imóvel, criando uma nova lógica de organização da rotina.

Esse movimento também muda um comportamento consolidado ao longo de décadas. A posse de eletrodomésticos, especialmente da máquina de lavar, sempre esteve associada à autonomia dentro de casa. Com menos espaço disponível, esse modelo perde força e abre caminho para serviços baseados em acesso, em vez de posse.

“Quando o imóvel encolhe, a casa deixa de absorver todas as funções do dia a dia. A lavanderia é uma das primeiras a sair porque ocupa área, exige instalação e tem uso concentrado. Isso empurra a atividade para fora do imóvel”, afirma Isaelson Oliveira, CEO do Grupo Hi.

Lavanderias entram na infraestrutura urbana

O avanço das lavanderias self-service acompanha diretamente essa limitação de espaço. Com a redução ou eliminação das áreas de serviço, cresce a demanda por pontos externos de lavagem inseridos na rotina das cidades. Esses espaços passam a funcionar como apoio operacional ao cotidiano, localizados em regiões de circulação e conectados a outros serviços urbanos.

A lógica se aproxima de mudanças já observadas em setores como mobilidade e alimentação. A casa deixa de concentrar todas as funções do dia a dia e passa a operar como um espaço mais essencial, enquanto atividades práticas são transferidas para serviços externos.

“A mudança não é sobre conveniência, é sobre adaptação. Quando não há espaço físico, o serviço deixa de ser opcional e passa a ser parte da infraestrutura da cidade”, diz Isaelson.

O modelo responde a uma necessidade concreta: Resolver uma tarefa doméstica sem exigir área útil dentro do apartamento, compra de equipamento ou tempo prolongado de execução. A expansão desses serviços acompanha o avanço dos imóveis compactos e o adensamento urbano, em um cenário no qual o custo do metro quadrado redefine prioridades dentro da moradia.

Casa perde funções e cidade absorve serviços

A tendência aponta para uma reorganização mais ampla da vida urbana. À medida que os imóveis ficam menores, aumenta a dependência de serviços externos para atividades básicas. A autonomia, antes vinculada à posse de equipamentos dentro de casa, passa a depender da disponibilidade de soluções acessíveis na cidade.

Esse padrão acompanha a lógica de adensamento impulsionada por políticas urbanas e pelo mercado imobiliário, que prioriza localização e preço em detrimento da metragem. O resultado é uma mudança concreta no uso do espaço doméstico e na relação do consumidor com tarefas cotidianas, que passam a ser resolvidas fora de casa e integradas à dinâmica urbana.