O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) comunicou que o procedimento emergencial de interrupção da oferta de eletricidade, que chegou a ser programado para este domingo (9), acabou não sendo executado. O órgão havia emitido o alerta máximo para que as distribuidoras se mobilizassem, porém o monitoramento contínuo do sistema garantiu a recomposição do equilíbrio entre oferta e demanda e eliminou o risco imediato de sobrecarga.
O mecanismo, conhecido no setor como curtailment, é utilizado quando a produção de energia supera o consumo em um patamar capaz de comprometer a estabilidade da rede, podendo provocar apagão. A decisão de manter o funcionamento normal foi confirmada após uma série de manobras operacionais executadas ao longo do dia.
O que é o corte emergencial de geração e por que ele existe
O curtailment funciona como a última alternativa do setor elétrico diante de um excedente de geração que o mercado não consegue absorver. Essa condição submete o sistema a um estresse técnico que, sem intervenção, pode resultar na interrupção ampla do fornecimento.
Antes de lançar mão do corte, o ONS adota uma sequência de providências para enxugar a oferta. O primeiro passo envolve as usinas que respondem diretamente ao comando do operador, como as grandes hidrelétricas. Quando a redução não é suficiente, o procedimento passa a alcançar também as geradoras de menor porte, fora do controle direto do órgão, entre elas pequenas centrais hidrelétricas, usinas de biomassa e empreendimentos eólicos e fotovoltaicos de menor escala.
A operação de domingo e o peso da geração solar distribuída
O cenário que levou o ONS a se preparar para o corte neste fim de semana reuniu dois elementos típicos de datas festivas: alta incidência de radiação solar e queda relevante do consumo das indústrias e do comércio. Com as famílias em casa, a produção de energia nos telhados alcançou níveis expressivos, enquanto a demanda líquida da rede diminuía.
O órgão informou, em nota, que a possibilidade de suspensão da geração havia sido comunicada previamente aos agentes envolvidos, mas que a medida perdeu a necessidade depois do trabalho de gestão dos recursos. O ONS acrescentou que permanecerá atuando em tempo real para ajustar a operação das usinas conforme a trajetória do consumo.
O alerta que veio do Dia dos Pais do ano passado
A preocupação com o comportamento da rede em datas comemorativas não é inédita. Na edição do Dia dos Pais do ano passado, o operador passou por um estresse relevante no começo da tarde, quando a geração distribuída representou 37,6% de toda a demanda registrada no horário.
Na ocasião, o ONS precisou reduzir a produção de hidrelétricas e termelétricas e suprimiu 98,5% da capacidade estimada de geração das usinas eólicas e solares centralizadas. Com isso, restaram apenas 2 gigawatts de geração flexível para comando do operador, o equivalente a aproximadamente 5% do montante total disponível naquele momento.
Um limite perigoso para a segurança operacional
O episódio do ano anterior mostrou o tamanho do risco quando a margem de manobra do sistema é comprimida a níveis mínimos. Se a folga de 2 gigawatts tivesse sido esgotada, o ONS seria obrigado a tomar medidas extremas, como operar usinas abaixo do limite seguro ou desrespeitar restrições técnicas de linhas de transmissão, o que colocaria o fornecimento em situação crítica.
A experiência recente ajuda a explicar por que o órgão passou a emitir avisos preventivos e a comunicar com antecedência o eventual acionamento do procedimento. O desfecho deste domingo, ainda que sem a necessidade de cortes, evidencia um desafio estrutural para a economia brasileira: a rápida expansão da micro e minigeração distribuída e a dificuldade de absorver esse volume de energia em períodos de consumo reduzido.





